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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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O colapso doméstico
de Bush

Herói na luta contra o terror, o presidente enrola-se na maior falência da história

Eduardo Salgado

 
Fotos AP
Bush com o rosto machucado e, à direita, funcionária demitida da Enron: quatro CPIs tentam ligar o escândalo à Casa Branca

O instinto de todo dirigente político com altos índices de aprovação manda tentar prolongar à exaustão o período de lua-de-mel com os eleitores e explorar o prestígio em várias frentes. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, não é diferente. O sucesso da primeira fase da guerra contra o terrorismo – no Afeganistão – fez com que atingisse um nível de popularidade acima dos 80%. A dificuldade óbvia para o presidente é como converter a vitória no exterior em sucessos domésticos. Na frente interna não se lida com bombardeios nem fuzis, mas com educação, saúde, economia e, obviamente, politicagem em alta voltagem. A diferença é notável: na semana passada ficou claro que a Casa Branca não escapará dos respingos de lama da maior falência da história dos Estados Unidos, a da Enron. O naufrágio da maior companhia de energia do mundo, que faliu no mês passado, expôs uma rede de conexões suspeitas entre a grande empresa e os políticos, alimentada por doações para campanhas políticas. Bush, amigo pessoal de Kenneth Lay, presidente da Enron, não tem como escapar de explicações.



Pretzel: origem atribuída a um monge medieval

Como escândalo político, o desastre da Enron contém os ingredientes clássicos daquelas tramóias típicas de Terceiro Mundo. O primeiro ingrediente é a tomada de liberdade com dinheiro alheio. A Enron, que se tornou um império em apenas dezesseis anos, tinha o costume típico das grandes empreiteiras brasileiras de espalhar dinheiro em campanhas políticas. A generosidade interessada da empresa brindava tanto os democratas quanto os republicanos. A Enron doou 5,9 milhões de dólares a políticos desde 1989. Nada menos que 188 deputados (de 435) e 71 senadores (de 100) receberam algum. Na última semana, a imprensa americana tinha rastreado vários telefonemas de Kenneth Lay a ministros em busca de ajuda. A ligação com o presidente é direta. A Enron tem sede em Houston, no Texas, bastião eleitoral de Bush. Entre 1993 e 2001, ele recebeu 623.000 dólares da Enron, de seus diretores e funcionários. Até agora, não há nenhuma prova comprometedora de favorecimento indevido. Mas o que passa aos americanos é aquele sentimento de promiscuidade que os brasileiros sentiam no período Collor.

Mesmo que se comprove que todos os contatos entre a Enron e os ministros foram inocentes, os acontecimentos parecem confirmar as dúvidas que os americanos tinham sobre Bush. Que ele é muito amigo das grandes empresas e pouco liga para o cidadão comum. Bush pode ser responsável, tenha culpa pessoal ou não, por algo muito grave: a deterioração da confiabilidade do sistema financeiro e das regulamentações governamentais sobre as quais se assenta a mais fabulosa economia que o planeta já viu. O capitalismo americano funciona porque as corporações têm liberdade para, por intermédio das bolsas de valores, captar dinheiro barato diretamente do povo. Em retorno, espera-se não apenas que rendam dividendos aos acionistas, mas também que atendam às necessidades do mercado, produzam inovação tecnológica e tenham postura ética. Para que o sistema funcione, existem as regras modernas de auditorias externas. São instituições de grande respeitabilidade encarregadas de examinar as contas e ver se tudo anda de acordo com o figurino. O caso Enron mostrou que a bolsa de valores pode ser enganada, que instituições de consultoria podem ser corrompidas e que os executivos podem enriquecer à custa da economia de acionistas e aposentados. É simplesmente assustador em se tratando do país que inventou as regras de mercado e tem sido seu mais feroz guardião.

A Enron era um ícone da nova economia. No início uma pequena empresa que explorava gás natural, ela ascendeu à sétima posição no ranking das maiores corporações americanas. Em 2000, seu volume de negócios atingiu 100 bilhões de dólares. Agora, sabe-se que se tratava apenas de outra bolha, com seu valor na bolsa de valores inflado de informações falsas. O império chegou a 3.000 subsidiárias e associados, de modo a criar um cipoal enganoso. A prestigiada Arthur Andersen, a companhia de auditoria contratada pela Enron, ajudou a esconder as falcatruas e, no final, até a queimar papéis comprometedores. A maioria dos 20.000 funcionários da Enron não perdeu apenas o emprego, mas também a aposentadoria, pois o fundo de pensão tinha investido em ações da própria empresa. Enquanto isso, Kenneth Lay, o principal executivo, pôs no bolso 205 milhões de dólares nos últimos quatro anos.

Bush deve estar analisando o que aconteceu com seu pai. Em 1991, depois de ganhar a Guerra do Golfo, Bush pai bateu recordes de popularidade. Mas a economia continuou em baixa, e no ano seguinte ele perdeu as eleições para Bill Clinton. Bush filho, herói do Afeganistão, é também o vilão da recessão. Não era o melhor momento para George W. Bush ser nocauteado em plena Casa Branca e voltar a ser visto como um trapalhão. O inimigo interno que o derrubou, na noite de domingo 13, não foi enviado por Osama bin Laden: com cerca de 5 centímetros, era feito de farinha de trigo, açúcar, sal, fermento e bicarbonato – uma rosquinha salgada e dura muito popular nos Estados Unidos, o pretzel*. Bush assistia a uma partida de futebol americano na televisão ao lado de seus dois cachorros e comia pretzel. Engoliu sem mastigar e ficou com um pedaço atravessado na garganta. Desmaiou e caiu. O pretzel deve ter estimulado o nervo localizado no fundo da garganta, gerando um reflexo que faz com que o sistema nervoso relaxe os vasos sanguíneos do corpo, diminuindo a pressão arterial. Com a pressão mais baixa, o coração recebe pouco sangue e provoca um desmaio. Todo esse processo dura cerca de trinta segundos. A pessoa se sente tonta e a visão fica turva até a perda da consciência. Ao cair, fica na horizontal, o sangue flui mais facilmente ao coração, que volta a bater normalmente. A consciência volta em quinze segundos. Acordar da crise da Enron será bem mais difícil.

 
* A palavra pretzel entrou no idioma inglês diretamente do alemão brezel. Sua origem antiga remonta ao latim brachitellum, diminutivo de um termo que significa "com braços". Diz uma lenda medieval que um monge inventou o pretzel e lhe deu a forma de braços entrelaçados em posição de quem reza. Um petisco, portanto, para as mentes dadas ao misticismo.



 
 
   
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