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O colapso doméstico
de Bush
Herói
na luta contra o terror, o presidente enrola-se
na maior falência da história
Eduardo
Salgado
Fotos AP
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| Bush
com o rosto machucado e, à direita, funcionária demitida
da Enron: quatro CPIs tentam ligar o escândalo à Casa
Branca |
O
instinto de todo dirigente político com altos índices de
aprovação manda tentar prolongar à exaustão
o período de lua-de-mel com os eleitores e explorar o prestígio
em várias frentes. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush,
não é diferente. O sucesso da primeira fase da guerra contra
o terrorismo no Afeganistão fez com que atingisse
um nível de popularidade acima dos 80%. A dificuldade óbvia
para o presidente é como converter a vitória no exterior
em sucessos domésticos. Na frente interna não se lida com
bombardeios nem fuzis, mas com educação, saúde, economia
e, obviamente, politicagem em alta voltagem. A diferença é
notável: na semana passada ficou claro que a Casa Branca não
escapará dos respingos de lama da maior falência da história
dos Estados Unidos, a da Enron. O naufrágio da maior companhia
de energia do mundo, que faliu no mês passado, expôs uma rede
de conexões suspeitas entre a grande empresa e os políticos,
alimentada por doações para campanhas políticas.
Bush, amigo pessoal de Kenneth Lay, presidente da Enron, não tem
como escapar de explicações.

Pretzel:
origem atribuída a um monge medieval |
Como
escândalo político, o desastre da Enron contém os
ingredientes clássicos daquelas tramóias típicas
de Terceiro Mundo. O primeiro ingrediente é a tomada de liberdade
com dinheiro alheio. A Enron, que se tornou um império em apenas
dezesseis anos, tinha o costume típico das grandes empreiteiras
brasileiras de espalhar dinheiro em campanhas políticas. A generosidade
interessada da empresa brindava tanto os democratas quanto os republicanos.
A Enron doou 5,9 milhões de dólares a políticos desde
1989. Nada menos que 188 deputados (de 435) e 71 senadores (de 100) receberam
algum. Na última semana, a imprensa americana tinha rastreado vários
telefonemas de Kenneth Lay a ministros em busca de ajuda. A ligação
com o presidente é direta. A Enron tem sede em Houston, no Texas,
bastião eleitoral de Bush. Entre 1993 e 2001, ele recebeu 623.000
dólares da Enron, de seus diretores e funcionários. Até
agora, não há nenhuma prova comprometedora de favorecimento
indevido. Mas o que passa aos americanos é aquele sentimento de
promiscuidade que os brasileiros sentiam no período Collor.
Mesmo que se comprove que todos os contatos entre a Enron e os ministros
foram inocentes, os acontecimentos parecem confirmar as dúvidas
que os americanos tinham sobre Bush. Que ele é muito amigo das
grandes empresas e pouco liga para o cidadão comum. Bush pode ser
responsável, tenha culpa pessoal ou não, por algo muito
grave: a deterioração da confiabilidade do sistema financeiro
e das regulamentações governamentais sobre as quais se assenta
a mais fabulosa economia que o planeta já viu. O capitalismo americano
funciona porque as corporações têm liberdade para,
por intermédio das bolsas de valores, captar dinheiro barato diretamente
do povo. Em retorno, espera-se não apenas que rendam dividendos
aos acionistas, mas também que atendam às necessidades do
mercado, produzam inovação tecnológica e tenham postura
ética. Para que o sistema funcione, existem as regras modernas
de auditorias externas. São instituições de grande
respeitabilidade encarregadas de examinar as contas e ver se tudo anda
de acordo com o figurino. O caso Enron mostrou que a bolsa de valores
pode ser enganada, que instituições de consultoria podem
ser corrompidas e que os executivos podem enriquecer à custa da
economia de acionistas e aposentados. É simplesmente assustador
em se tratando do país que inventou as regras de mercado e tem
sido seu mais feroz guardião.
A Enron era um ícone da nova economia. No início uma pequena
empresa que explorava gás natural, ela ascendeu à sétima
posição no ranking das maiores corporações
americanas. Em 2000, seu volume de negócios atingiu 100 bilhões
de dólares. Agora, sabe-se que se tratava apenas de outra bolha,
com seu valor na bolsa de valores inflado de informações
falsas. O império chegou a 3.000 subsidiárias e associados,
de modo a criar um cipoal enganoso. A prestigiada Arthur Andersen, a companhia
de auditoria contratada pela Enron, ajudou a esconder as falcatruas e,
no final, até a queimar papéis comprometedores. A maioria
dos 20.000 funcionários da Enron não perdeu apenas o emprego,
mas também a aposentadoria, pois o fundo de pensão tinha
investido em ações da própria empresa. Enquanto isso,
Kenneth Lay, o principal executivo, pôs no bolso 205 milhões
de dólares nos últimos quatro anos.
Bush deve estar analisando o que aconteceu com seu pai. Em 1991, depois
de ganhar a Guerra do Golfo, Bush pai bateu recordes de popularidade.
Mas a economia continuou em baixa, e no ano seguinte ele perdeu as eleições
para Bill Clinton. Bush filho, herói do Afeganistão, é
também o vilão da recessão. Não era o melhor
momento para George W. Bush ser nocauteado em plena Casa Branca e voltar
a ser visto como um trapalhão. O inimigo interno que o derrubou,
na noite de domingo 13, não foi enviado por Osama bin Laden: com
cerca de 5 centímetros, era feito de farinha de trigo, açúcar,
sal, fermento e bicarbonato uma rosquinha salgada e dura muito
popular nos Estados Unidos, o pretzel*. Bush assistia a uma partida de
futebol americano na televisão ao lado de seus dois cachorros e
comia pretzel. Engoliu sem mastigar e ficou com um pedaço atravessado
na garganta. Desmaiou e caiu. O pretzel deve ter estimulado o nervo localizado
no fundo da garganta, gerando um reflexo que faz com que o sistema nervoso
relaxe os vasos sanguíneos do corpo, diminuindo a pressão
arterial. Com a pressão mais baixa, o coração recebe
pouco sangue e provoca um desmaio. Todo esse processo dura cerca de trinta
segundos. A pessoa se sente tonta e a visão fica turva até
a perda da consciência. Ao cair, fica na horizontal, o sangue flui
mais facilmente ao coração, que volta a bater normalmente.
A consciência volta em quinze segundos. Acordar da crise da Enron
será bem mais difícil.
| *
A palavra pretzel entrou no idioma inglês diretamente
do alemão brezel. Sua origem antiga remonta ao latim
brachitellum, diminutivo de um termo que significa "com braços".
Diz uma lenda medieval que um monge inventou o pretzel e lhe deu a
forma de braços entrelaçados em posição
de quem reza. Um petisco, portanto, para as mentes dadas ao misticismo.
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