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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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O livro que não farei

"Depois da bossa nova, do cinema
novo, do
Pasquim e da Rede Globo,
o Rio de Janeiro não produziu nada
de significativo. Só a criminalidade"

Meu filho gosta do Rio de Janeiro. Como eu gosto de tudo de que ele gosta, resolvi passar uma temporada por aqui. As primeiras semanas transcorreram sem problemas, sobretudo na praia, apesar do mau tempo e dos coliformes fecais. Depois a vagabundagem começou a pesar e ocorreu-me escrever um livro de reportagens sobre a cidade. Fiz uma lista de pessoas interessantes com as quais conversar e a submeti à apreciação de amigos. Descobri que a maioria das pessoas interessantes já tinha morrido. O melhor do Rio está no cemitério. E quem ainda sobrevive passa o tempo relembrando velhas anedotas sobre o Roniquito, no bar Antonio's. Roniquito foi um grande boêmio carioca. Morreu. Assim como morreu o bar Antonio's.

Uma das reportagens que eu pretendia fazer era sobre a Rede Globo. O ponto alto seria um perfil de Vera Fischer. Minha curiosidade era puramente antropológica: tentar entender por que ela atraía tanto os brasileiros, a ponto de se transformar na única verdadeira superestrela nacional. Combinei encontrá-la no domingo passado, no Canecão, durante o espetáculo de Rita Lee. Ela me deu o cano e fui obrigado a assistir ao espetáculo inteiro. Rita Lee cantava Beatles. Parecia banda de festa de debutantes de Botucatu. Eu deveria ter passado a noite com Vera Fischer, acabei passando-a com Ney Matogrosso, que foi extremamente gentil e me cedeu um lugar à sua mesa, um pouco mais distante do ensurdecedor alto-falante. Além de usufruir sua hospitalidade, pus em sua conta meia dúzia de coxinhas de galinha que prejudicaram gravemente minha saúde.

No meu projeto de livro, haveria entrevistas com Millôr Fernandes, Danuza Leão, Boni, Oscar Niemeyer e os Moreira Salles. João Gilberto e Rubem Fonseca não dão entrevista a ninguém. Romário tem problemas com VEJA. Fiquei com vergonha de procurar Chico Buarque e Ivo Pitanguy por ter falado mal de livros de ambos. O Carnaval mereceria um capítulo especial. O turismo sexual também. Eu ainda abordaria a vida nas favelas, o hip hop, o pagode, o surfe, a alta sociedade. Embora não soubesse o que dizer sobre nenhum desses temas. Minha série de reportagens cariocas apresentava outro problema fundamental: depois da bossa nova, do cinema novo, do Pasquim e da Rede Globo, o Rio não produziu nada de significativo. O único fenômeno de real interesse jornalístico e sociológico dos últimos vinte anos foi a criminalidade. Refiro-me aos traficantes dos morros, claro. Mas também aos cartolas do futebol, aos grileiros da Barra da Tijuca, aos bicheiros convertidos ao videopôquer, aos empreiteiros que burlam o gabarito e erguem prédios que desmoronam, aos políticos clientelistas, aos policiais assassinos, aos incendiários de favelas, aos devastadores da natureza. Enfrentei duas grandes dificuldades nesse campo. A primeira é que nenhum bandido fala abertamente sobre seus crimes. A segunda, ainda mais importante, é que tenho medo de bandido. Não quero acabar no cemitério, por mais interessantes que sejam as pessoas por lá. Por todos esses motivos, achei melhor abandonar a idéia de escrever um livro sobre o Rio de Janeiro. A cidade terá um livro ruim a menos e um vagabundo na praia a mais.

 
 
   
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