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Viagem a Londres
Ilustração Alê Setti
Passei
três dias em Londres. Nesses três dias, recusei-me
categoricamente a visitar a cúpula do milênio.
Imagino que você saiba do que se trata. Para comemorar
a passagem do ano, os ingleses mandaram construir uma
gigantesca cúpula de vidro à margem do Rio
Tâmisa. Não entendi direito o que pretendem
fazer dela, depois do Ano-Novo. Um centro de exposições,
provavelmente. Essas construções enigmáticas
sempre acabam se transformando em centros de exposições.
Mas não posso jurar. Pelas fotos, a cúpula
do milênio parece ser uma monstruosidade arquitetônica.
Como não me dei ao trabalho de visitá-la,
fica apenas essa vaga impressão. Talvez seja melhor
ao vivo. Embora eu duvide.
Também
me recusei a visitar a roda-gigante que fincaram bem no
meio da cidade, apelidada de "Olho de Londres". Dizem
que é a maior roda-gigante da Europa. Ou do mundo.
Tanto faz: evitei qualquer contato com ela. O que não
é fácil, uma vez que pode ser admirada de
qualquer ponto da cidade, do Palácio de Buckingham
ao Parlamento de Westminster. Em várias ocasiões,
fui obrigado a fechar os olhos para não vê-la.
Londres, para mim, não é lugar para rodas-gigantes.
Eu sou ligado sentimentalmente à velha Londres
do fim dos anos 70, pré-Thatcher, empoeirada, escura,
ineficiente, refratária a todas as mudanças.
Agora a cidade é rica, dinâmica, cosmopolita,
com bons restaurantes e belas lojas. Deve ser melhor para
seus moradores. Mas o preço dessa transformação
foi uma brutal homogeneização. Londres tornou-se
igual a tantas outras cidades. Tem até roda-gigante,
como Viena ou Paris.
Nos meus
três dias em Londres, evitei ir à Tate Gallery.
Ali estavam sendo expostas as obras dos quatro finalistas
do Prêmio Turner, concedido ao melhor jovem artista
britânico do ano. Eu já tinha lido uma infinidade
de artigos sobre uma dessas artistas, Tracey Emin, cuja
instalação, Minha
Cama,
aparentemente provocou um escândalo internacional.
Trata-se de uma reprodução da cama da artista,
cercada de garrafas de vodca, pontas de cigarro, tubos
de vaselina, preservativos e outros objetos com conotações
sexuais. Como não há nada que possa me escandalizar,
concluí que seria perda de tempo ir à Tate
Gallery. Então, não fui.
Assim como
não fui à exposição de Gilbert
& George. Nesse caso, o motivo não foi falta
de interesse artístico. Gilbert & George estão
entre meus artistas contemporâneos preferidos. Quanto
mais velhos eles ficam, mais cômicos se tornam seus
auto-retratos. O problema é que a exposição
era fora de Londres. Longe demais. Tinha de pegar trem.
Achei melhor ficar na casa de um amigo, batendo papo.
Ele, eu e um segundo amigo. Depois eu voltava para o hotel
e ficava assistindo a uma partida de críquete na
TV. Essa viagem de três dias a Londres me convenceu
de que, no novo milênio, não devo mais sair
de casa. Tudo estimula a minha decisão: as janelas
da minha casa têm a melhor vista do mundo, o supermercado
passou a aceitar encomendas via internet, a concorrência
entre empresas telefônicas diminuiu as tarifas,
meu cachorro está velho, incontinente e enjoou
de passear. Ninguém me tira de casa no novo milênio.
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