Edição 1 629 -22/12/1999

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Viagem a Londres

Ilustração Alê Setti
Passei três dias em Londres. Nesses três dias, recusei-me categoricamente a visitar a cúpula do milênio. Imagino que você saiba do que se trata. Para comemorar a passagem do ano, os ingleses mandaram construir uma gigantesca cúpula de vidro à margem do Rio Tâmisa. Não entendi direito o que pretendem fazer dela, depois do Ano-Novo. Um centro de exposições, provavelmente. Essas construções enigmáticas sempre acabam se transformando em centros de exposições. Mas não posso jurar. Pelas fotos, a cúpula do milênio parece ser uma monstruosidade arquitetônica. Como não me dei ao trabalho de visitá-la, fica apenas essa vaga impressão. Talvez seja melhor ao vivo. Embora eu duvide.

Também me recusei a visitar a roda-gigante que fincaram bem no meio da cidade, apelidada de "Olho de Londres". Dizem que é a maior roda-gigante da Europa. Ou do mundo. Tanto faz: evitei qualquer contato com ela. O que não é fácil, uma vez que pode ser admirada de qualquer ponto da cidade, do Palácio de Buckingham ao Parlamento de Westminster. Em várias ocasiões, fui obrigado a fechar os olhos para não vê-la. Londres, para mim, não é lugar para rodas-gigantes. Eu sou ligado sentimentalmente à velha Londres do fim dos anos 70, pré-Thatcher, empoeirada, escura, ineficiente, refratária a todas as mudanças. Agora a cidade é rica, dinâmica, cosmopolita, com bons restaurantes e belas lojas. Deve ser melhor para seus moradores. Mas o preço dessa transformação foi uma brutal homogeneização. Londres tornou-se igual a tantas outras cidades. Tem até roda-gigante, como Viena ou Paris.

Nos meus três dias em Londres, evitei ir à Tate Gallery. Ali estavam sendo expostas as obras dos quatro finalistas do Prêmio Turner, concedido ao melhor jovem artista britânico do ano. Eu já tinha lido uma infinidade de artigos sobre uma dessas artistas, Tracey Emin, cuja instalação, Minha Cama, aparentemente provocou um escândalo internacional. Trata-se de uma reprodução da cama da artista, cercada de garrafas de vodca, pontas de cigarro, tubos de vaselina, preservativos e outros objetos com conotações sexuais. Como não há nada que possa me escandalizar, concluí que seria perda de tempo ir à Tate Gallery. Então, não fui.

Assim como não fui à exposição de Gilbert & George. Nesse caso, o motivo não foi falta de interesse artístico. Gilbert & George estão entre meus artistas contemporâneos preferidos. Quanto mais velhos eles ficam, mais cômicos se tornam seus auto-retratos. O problema é que a exposição era fora de Londres. Longe demais. Tinha de pegar trem. Achei melhor ficar na casa de um amigo, batendo papo. Ele, eu e um segundo amigo. Depois eu voltava para o hotel e ficava assistindo a uma partida de críquete na TV. Essa viagem de três dias a Londres me convenceu de que, no novo milênio, não devo mais sair de casa. Tudo estimula a minha decisão: as janelas da minha casa têm a melhor vista do mundo, o supermercado passou a aceitar encomendas via internet, a concorrência entre empresas telefônicas diminuiu as tarifas, meu cachorro está velho, incontinente e enjoou de passear. Ninguém me tira de casa no novo milênio.