Edição 1885 . 22 de dezembro de 2004

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Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
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CINEMA

Doze Homens e Outro Segredo (Ocean's Twelve, Estados Unidos, 2004. Estréia dia 25 em circuito nacional) – George Clooney e o diretor Steven Soderbergh, sócios na produtora Section Eight, têm uma espécie de acordo de cavalheiros com a Warner: o estúdio usa de benevolência para bancar os projetos menos comerciais dos dois e, em troca, eles vez por outra realizam filmes voltados para a bilheteria. A continuação de Onze Homens e Um Segredo é produto da segunda parte desse trato – e quisera todos os filmes feitos com objetivos mercantilistas fossem assim tão espirituosos. Doze Homens reencontra a gangue de Danny Ocean (Clooney e todos os atores do original, entre eles Brad Pitt e Matt Damon) três anos depois de seu assalto a um cassino de Las Vegas – e em dificuldades para cobrir uma dívida de quase 100 milhões de dólares. É preciso bolar outro golpe, então, e rápido. Soderbergh compensa a inevitável perda de frescor da seqüência com locações em Amsterdã e Roma, reviravoltas ainda mais surpreendentes que as do primeiro filme e, principalmente, com ótimas tiradas à custa de seu elenco, como aquela que coloca Julia Roberts numa saia justíssima. Veja cenas.

Crimes em Wonderland (Wonderland, Estados Unidos/Canadá, 2003. Em cartaz a partir do dia 24) – Se o recente Spartan e esse filme forem indícios de uma nova fase na carreira de Val Kilmer, eles são dos mais auspiciosos. Esforçado ao ponto da casmurrice na juventude, Kilmer agora parece tirar mais prazer de seus papéis – e sua ótima atuação é o que faz Crimes em Wonderland valer a pena. O filme acompanha a vida do astro pornô John Holmes durante as semanas em que ele se viu envolvido de forma até hoje obscura no massacre de quatro pessoas em Hollywood, em 1981. Conhecido por, digamos, seus atributos naturais, Holmes (que morreria de aids sete anos depois) é visto aqui na mais sórdida decadência, mergulhado até o pescoço em drogas e transações escusas e assombrado pelo fantasma de sua notoriedade passada.

Divulgação
Bob Esponja: a mesma graça em longa-metragem


Bob Esponja – O Filme
(Estados Unidos, 2004. Estréia dia 24 em circuito nacional) – Com suas aventuras cheias de nonsense e de um otimismo a toda prova, Bob Esponja tornou-se o personagem de desenho animado mais popular da TV. A estréia dele no cinema não decepciona. Seu criador, o americano Stephen Hillenburg, foi bem-sucedido ao passar do formato de programas com pouco mais de dez minutos para um longa-metragem de uma hora e meia. Um dos expedientes para movimentar a trama foi recheá-la de referências ao pop, como a cena em que Bob cantarola I Wanna Rock, sucesso do grupo metaleiro Twisted Sister nos anos 80. O universo amalucado do desenho, exibido pelo canal pago Nickelodeon e pela Rede Globo, está todo lá. O pedaço do fundo do mar que Bob divide com figuras como uma lula rabugenta e uma estrela-do-mar palerma é agitado por um roubo – e ele é o principal suspeito. Veja cenas.

 
Divulgação
The Edukators: ideais perdidos

The Edukators (Die Fetten Jahre Sind Vorbei, Alemanha, 2004. Em cartaz a partir do dia 24) – Os amigos Jan e Peter combatem a "ditadura capitalista" de maneira peculiar: invadem as mansões de Berlim, rearranjam os móveis e objetos e deixam um bilhete para os donos, dizendo que eles têm dinheiro demais, ou que seus dias de fartura logo vão acabar. O objetivo, explica Jan (Daniel Brühl, de Adeus, Lênin!) para Jule, a namorada de Peter, é criar medo e insegurança nos excessivamente ricos. Quando uma dessas invasões resulta acidentalmente em seqüestro, Jan, Jule e Peter sentem ter dado um passo adiante em sua causa. Exceto pelo fato de que a convivência com o seqüestrado (o notável Burghart Klaussner), num chalé nas montanhas, vai catalizar o relacionamento entre os três jovens de formas inesperadas. No excelente filme do diretor Hans Weingartner, achar ideais que valham a pena é um trabalho árduo – mas perdê-los é fácil até demais.

 

DISCOS

 
Antonio Milena
Meneses: Bach por um mestre do violoncelo

Bach: as 6 Suítes para Violoncelo, Antonio Meneses (Avie Records) – O violoncelista Antonio Meneses está entre os músicos brasileiros mais respeitados no meio erudito internacional. Suas interpretações combinam a técnica de um fiel seguidor do espanhol Pablo Casals à emoção. Não há prova de fogo melhor para uma fera como ele do que as suítes do alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Para executá-las, o violoncelista tem de exercitar seus dotes à perfeição. O pernambucano já se havia debruçado sobre o trabalho de Bach anos atrás, num disco lançado apenas no Japão, e volta a ele agora. As suítes do compositor representaram uma inovação no repertório barroco, na medida em que Bach as incrementou com ritmos incomuns nesse tipo de obra. Meneses capta as nuances desses movimentos com maestria.

Dark Matter Moving at the Speed of Light, Afrika Bambaataa and the Millenium of the Gods (ST2) – O DJ nova-iorquino Kevin Donovan é uma instituição das pistas de dança. Sob o codinome de Afrika Bambaataa, ele ajudou a inventar o rap, nos anos 70. Mais tarde, suas batidas eletrônicas dariam origem a outras vertentes musicais em voga na atualidade, como o electro. Neste novo disco, Bambaataa, aos 44 anos, experimenta colagens que se valem de todo tipo de som – dos gritos do cantor James Brown a refrões do pop indiano. A mistura atinge momentos apoteóticos em Soul Makossa, versão acelerada do principal sucesso do compositor africano Manu Dibango. Em Metal, Bambaataa põe um rapper para cantar ao lado do autor da música, o inglês Gary Numan, uma das figuras mais esquisitas do pop dos anos 80.

 
J. Miranda
Roberto Carlos nos anos 60: fase inspirada

Pra Sempre, Roberto Carlos (Sony Music) – Os primórdios da carreira de Roberto Carlos, nos anos 60, foram uma de suas fases mais inspiradas. Ao lado de figuras como Erasmo Carlos e Wanderléa – os quais ele revelou como apresentador do programa Jovem Guarda, na então TV Record –, o cantor formatou o pop nacional como se conhece hoje. Os discos da época compõem a primeira fornada do relançamento de toda a sua discografia em caixas especiais, com versões das músicas remasterizadas sob a supervisão do artista. O pacote vai de Splish Splash, de 1963, até Roberto Carlos, de 1969 – disco que traz As Flores do Jardim da Nossa Casa. Boa parte de seu repertório ainda era formada por versões de rocks internacionais, como O Calhambeque (no original, Road Hog). Mas a parceria com Erasmo já começava a render bons frutos – basta citar os hits Quero que Vá Tudo pro Inferno, Parei na Contramão e É Proibido Fumar. Há ainda três álbuns da fase soul, tida por muita gente como o ápice de sua criatividade. Ela é representada por faixas como Não Vou Ficar, de autoria de Tim Maia.

 

DVDs

Sony
Seinfeld: depois de seis anos, a série chega ao DVD


Seinfeld – 1ª e 2ª Temporadas
e Seinfeld – 3ª Temporada (Estados Unidos, 1989/1991 e 1991/1992. Columbia) – Produzido entre 1990 e 1998, Seinfeld é até hoje um dos seriados mais cultuados da televisão americana – sucesso que se repete no canal pago brasileiro Sony. Depois de uma espera de seis anos, os fãs do programa podem, enfim, se deliciar com sua versão em DVD. A autodefinida "série sobre o nada" assenta-se sobre um fiapo de enredo: as trapalhadas e a conversa fiada de quatro nova-iorquinos – além do comediante Jerry Seinfeld, na pele de si próprio, há os divertidos Kramer (Michael Richards), George Costanza (Jason Alexander) e Elaine (Julia Louis-Dreyfus). Seu humor cáustico, que explora situações triviais, tornou-se um marco. As duas caixas de DVDs permitem comparar o programa do início, ainda pegando ritmo, às tramas cada vez mais cínicas e bizarras que Seinfeld e o co-criador Larry David passaram a conceber com o tempo. Nos extras, há um documentário sobre o surgimento do seriado e comentários dos atores e produtores sobre vários episódios que são uma atração humorística à parte.

Coleção Apostando Tudo (Multimedia Group) – Os volumes I e II dessa coleção trazem uma autêntica raridade: oito episódios (quatro em cada disco) do popularíssimo programa You Bet Your Life, que o comediante Groucho Marx comandou primeiro no rádio e em seguida na televisão americana, entre 1950 e 1961, depois de encerrar sua bem-sucedida carreira cinematográfica em companhia dos irmãos Harpo e Chico. Combinando os formatos de talk-show e game-show, a atração (que até aqui permanecia inédita no Brasil) era na verdade um pretexto para Groucho exercitar seu humor absurdista e atrevido, além de incrivelmente resistente ao tempo. Entre os herdeiros do grouchismo-marxismo conta-se, por exemplo, o apresentador americano David Letterman – e não é difícil perceber quanto ele tomou emprestado do mestre em seu próprio programa.

Antonio Milena
Paulinho da Viola: documentário


Paulinho da Viola: Meu Tempo É Hoje
(Brasil, 2003. Videofilmes) – O cantor e compositor Paulinho da Viola é uma das figuras mais simpáticas da MPB, mas também um personagem tímido – pouco talhado, enfim, para escancarar a vida num documentário. Por isso, o mínimo que se pode dizer de Meu Tempo É Hoje é que se trata de uma grata surpresa. Com simplicidade, a diretora Izabel Jaguaribe oferece um retrato do artista e de seu samba à moda antiga. A fita adentra a intimidade de Paulinho e mostra paixões como uma coleção de carros. Há ainda belas performances musicais, como um dueto do artista com Marisa Monte.


Art Films
A Festa de Babette: prato cheio


A Festa de Babette
(Babettes Gaestebud,
Dinamarca, 1987. PlayArte) – Na década de 1870, a francesa Babette (Stéphane Audran) foge dos tumultos políticos em Paris para se refugiar na gelada costa dinamarquesa da Jutlândia, onde trabalha como criada na casa de duas irmãs muito devotas e generosas, mas também muito austeras – tanto que a "ensinam" a cozinhar de forma a tirar todo o sabor da comida. Anos depois, quando Babette ganha na loteria, ela retribui o abrigo concedido pelas irmãs fazendo para elas e seus companheiros de igreja um banquete principesco – e colocando os convidados num dilema, de aceitar a delicadeza da criada sem ceder aos pecaminosos prazeres da carne. É por essas belas cenas, sobretudo, que o filme de Gabriel Axel, ganhador do Oscar de produção estrangeira, se tornou um favorito do público.

 

LIVROS

 
Michel Moch
Igreja da Pampulha: arquitetura em debate  

Arquitetura Moderna Brasileira, de vários autores (tradução de Vanessa Faleck; Phaidon; 240 páginas; 225 reais) – Organizado pelos estudiosos ingleses Elisabetta Andreoli e Adrian Forty e fartamente ilustrado com fotos e desenhos, esse livro reúne ensaios de jovens arquitetos e críticos que realizaram uma ambiciosa revisão da arquitetura moderna no Brasil. Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Lina Bo Bardi, entre outros nomes consagrados, têm sua obra revista nos seis capítulos da obra. O mais interessante é a perspectiva atualizada do livro: um de seus argumentos centrais é o de que a arquitetura brasileira não parou na construção de Brasília, mas seguiu renovando o legado modernista – e criticando suas insuficiências. O último capítulo traz uma série de análises detalhadas de projetos recentes.

O Último Jurado, de John Grisham (tradução de A.B. Pinheiro de Lemos; Rocco; 396 páginas; 43,50 reais) – Ao lado de Scott Turow, Grisham, com mais de 100 milhões de livros vendidos, é um dos nomes fundamentais do romance de tribunal – gênero que só poderia ter surgido em meio à cultura litigiosa dos Estados Unidos. O Último Jurado, porém, trata não apenas do mundo fechado dos tribunais, mas também do jornalismo. O protagonista é Willie Traynor, jovem que compra um jornal falido de uma pequena localidade no Mississippi. Com um pé no sensacionalismo, Traynor aproveita um crime brutal – o estupro e assassinato de uma jovem mãe – para vender mais jornais. O assassino é Danny Padgitt, membro de uma família rica (e criminosa) do local. Em um julgamento eletrizante (como é de costume em Grisham), ele é condenado, mas deixa a prisão anos depois – para se vingar dos jurados que o condenaram. Leia trecho.

A Vida como Performance, de Kenneth Tynan (tradução de Pedro Maia Soares; Companhia das Letras; 366 páginas; 48 reais) – O inglês Kenneth Tynan (1927-1980) foi um dos críticos teatrais mais influentes do século XX. Esse livro reúne 25 de seus melhores perfis. São retratos acurados de alguns gigantes do palco e do cinema, como os atores Laurence Olivier e Marlene Dietrich e o dramaturgo Bertolt Brecht. Mas os perfis não se limitam ao teatro em sentido estrito – afinal, ele trata do jazz de Duke Ellington e Miles Davis e até das touradas de Antonio Ordóñez. Tynan define cada personagem com pérolas verbais como esta: "O que um homem vê bêbado nas outras mulheres, vê sóbrio em Greta Garbo". Leia trecho.

O Presente dos Magos, de O. Henry (tradução de Heloisa Seixas; Cosac & Naify; 24 páginas; 35 reais) – O americano William Sidney Porter (1862-1910), mais conhecido pelo pseudônimo de O. Henry, granjeou enorme popularidade escrevendo contos de faroeste (criou o bandido Cisco Kid) e sobre o cotidiano dos habitantes pobres de Nova York. Dentre seus contos urbanos, O Presente dos Magos é talvez o mais conhecido. Sentimental como um bom filme de Frank Capra, a história do casal pobre e apaixonado que faz um esforço desencontrado para se presentear tornou-se um clássico natalino. Com belas ilustrações de Odilon Moraes, o livro é uma pedida de presente para as crianças.

 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Siciliano, Nobel, Fnac; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano, Travessa; Porto Alegre: Saraiva, Siciliano, Livraria Porto Alegre, Cultura, Livrarias Porto; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano, Cultura; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano, Livrarias Catarinense; Goiânia: Siciliano, Saraiva, Leitura; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva, Livrarias Curitiba; Londrina: Livrarias Porto; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura; Maceió: Sodiler; Belém: Clio; Vitória: Leitura; internet: Cultura, Laselva, Saraiva, Siciliano, Sodiler, Nobel, Fnac.
 
 
 
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