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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Retrospectiva
do ano, de A a Z
Os eventos e os personagens
principais, tratados quase sempre com a homenagem das rimas Argentina
Amamos Evita, Che Guevara e Maradona. Até o tango ninguém
mais acha cafona. Tudo nos une, nada nos separa. Mas, para falar de maneira franca,
os mesmos irmãos que nos chamavam de macaquitos hoje implicam que
esquisito justo com a nossa linha branca. Bin
Laden Mais um ano em que nos privou de seu convívio, a não
ser por breves e misteriosas aparições na TV. Por onde andará?
Nas montanhas do Hindu Kush ou nos domínios do Grão-Pará?
Nas cavernas de Tora Bora ou em aventuras mundo afora? Fingindo-se de alfaiate
no Peru ou de sommelier em Aracaju? Comerciante de eletroeletrônicos na
Bessarábia ou estrela no harém do sultão, disfarçado
de miss Arábia? Na esbórnia, numa praia da Califórnia? Ou,
quem sabe, dividido entre corretor na City e advogado em Wall Street?
Bush Que tristeza, que quadro desafortunado!
Ainda se ele tivesse ganhado roubado... Condoleezza
Subiu de cotação. O nome rima com Mona Lisa, mas o sorriso
é mais de quem não pede licença e pisa.
Futebol Este foi um campeonato nacional em que
um jogador morreu em campo e outro, o melhor em atividade no Brasil, foi afastado
dos gramados porque lhe seqüestraram a mãe. Isso sem falar na habitual
debandada dos melhores, em pleno campeonato, rumo aos clubes do exterior. E ainda
dizem, como frívolas bacantes, que o torneio foi dos mais eletrizantes!
Haiti Eis o supremo cavalheirismo.
Outros fizeram a afronta, mas o Brasil se apresenta e paga a conta.
Iraque Mais de 100.000
iraquianos mortos, na maior parte mulheres e crianças. Mais de 1.000
americanos mortos. Homens-bomba, carros-bomba. Seqüestros. Execuções
ao fio da espada. Única solução possível e que não
custaria vintém: entregar tudo de volta a Saddam Hussein. Juros
As reuniões do Copom não foram o bastante. Muito pior
foi lhes terem grudado um dos adjetivos mais infamantes da língua: escorchantes.
Só de birra, não caem. Recusam-se a descer ao solo, com tal título
a tiracolo. Larry Rohter Não
esqueçamos a contribuição do repórter do New York
Times. Antes que o ano finde, ergamos-lhe um brinde. Maluf
Afundou-se negando. Não tenho conta na Suíça.
Não tenho conta na Suíça. Não tenho conta na Suíça.
Mais um pouco, se de tanto repetir a língua o atrapalhasse, diria: Não
tenho Suíça na conta. Não conta o que tenho na Suíça.
Não conto o que tenho na Suíça. Olimpíadas
O Brasil brilhou no iatismo, esse esporte tão representativo
da nacionalidade. Também foi bem no hipismo, modalidade em que as multidões
costumam vibrar com este formidável Baloubet du Rouet, tão nosso
como o jegue do padre Cícero. Mas herói mesmo, vingador da raça,
barba branca e caráter sem jaça, destemido na liça e campeão
da justiça, mestre e guia nos caminhos mais ínvios, foi o grego
Kossivas, de prenome Polyvios. O homem que, com decisão e altivez, desenganchou
Vanderlei das garras do irlandês. Palocci
Os tropeços, as incertezas, o fogo amigo o atrapalharam. Principalmente
o fogo amigo. Mas atropelou no fim e saiu vitorioso. Merece o troféu "Necker"
do ano. Necker, ministro das Finanças do rei Luís XVI, escreveu,
num "Elogio a Colbert", dedicado ao detentor do mesmo cargo sob Luís XIV:
"Se os homens foram feitos à imagem de Deus, então o ministro das
Finanças, depois do rei, deve ser o homem que mais se aproxima dessa imagem".
Pinochet Espertinho, o ditador. Enquanto
o comunismo combatia com denodo, em sua conta pingavam dólares a rodo.
Prodigioso, o ditador. Aos inimigos, a poção do desaparecimento.
Às verdinhas, o mágico fermento. PMDB
O intrépido Ulysses ressurge e pergunta: "Que fizeram da minha
herança?". Responde-lhe o coro: "Ora, velho, não cansa. Não
vês? Está aqui na pança". Pobres
Continuaram na mesma. Levantam cedo, passam uma infinidade de tempo
na condução, moram apertado e longe, enfrentam filas, são
atendidos no SUS, não viajam nas férias... Só pobre, mesmo,
para agüentar ser pobre. Ucrânia
Eleições fraudadas, manifestações, tensão,
ameaça de guerra civil no fundo, esse quadro é tão
banal! Já desfigurar o rosto do líder da oposição
eis, no repertório das perfídias, uma contribuição
deveras original. Zé Dirceu "Meu
Deus, que fiz, que fiz?", pergunta às paredes do Palácio. As paredes
ecoam: "Waldomiro Diniz!, Waldomiro Diniz!". |