Edição 1885 . 22 de dezembro de 2004

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Roberto Pompeu de Toledo
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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Retrospectiva do ano,
de A a Z

Os eventos e os personagens
principais, tratados quase sempre
com a homenagem das rimas

Argentina – Amamos Evita, Che Guevara e Maradona. Até o tango ninguém mais acha cafona. Tudo nos une, nada nos separa. Mas, para falar de maneira franca, os mesmos irmãos que nos chamavam de macaquitos hoje implicam – que esquisito – justo com a nossa linha branca.

Bin Laden – Mais um ano em que nos privou de seu convívio, a não ser por breves e misteriosas aparições na TV. Por onde andará? Nas montanhas do Hindu Kush ou nos domínios do Grão-Pará? Nas cavernas de Tora Bora ou em aventuras mundo afora? Fingindo-se de alfaiate no Peru ou de sommelier em Aracaju? Comerciante de eletroeletrônicos na Bessarábia ou estrela no harém do sultão, disfarçado de miss Arábia? Na esbórnia, numa praia da Califórnia? Ou, quem sabe, dividido entre corretor na City e advogado em Wall Street?

Bush – Que tristeza, que quadro desafortunado! Ainda se ele tivesse ganhado roubado...

Condoleezza – Subiu de cotação. O nome rima com Mona Lisa, mas o sorriso é mais de quem não pede licença – e pisa.

Futebol – Este foi um campeonato nacional em que um jogador morreu em campo e outro, o melhor em atividade no Brasil, foi afastado dos gramados porque lhe seqüestraram a mãe. Isso sem falar na habitual debandada dos melhores, em pleno campeonato, rumo aos clubes do exterior. E ainda dizem, como frívolas bacantes, que o torneio foi dos mais eletrizantes!

Haiti – Eis o supremo cavalheirismo. Outros fizeram a afronta, mas o Brasil se apresenta e paga a conta.

Iraque – Mais de 100.000 iraquianos mortos, na maior parte mulheres e crianças. Mais de 1.000 americanos mortos. Homens-bomba, carros-bomba. Seqüestros. Execuções ao fio da espada. Única solução possível e que não custaria vintém: entregar tudo de volta a Saddam Hussein.

Juros – As reuniões do Copom não foram o bastante. Muito pior foi lhes terem grudado um dos adjetivos mais infamantes da língua: escorchantes. Só de birra, não caem. Recusam-se a descer ao solo, com tal título a tiracolo.

Larry Rohter – Não esqueçamos a contribuição do repórter do New York Times. Antes que o ano finde, ergamos-lhe um brinde.

Maluf – Afundou-se negando. Não tenho conta na Suíça. Não tenho conta na Suíça. Não tenho conta na Suíça. Mais um pouco, se de tanto repetir a língua o atrapalhasse, diria: Não tenho Suíça na conta. Não conta o que tenho na Suíça. Não conto o que tenho na Suíça.

Olimpíadas – O Brasil brilhou no iatismo, esse esporte tão representativo da nacionalidade. Também foi bem no hipismo, modalidade em que as multidões costumam vibrar com este formidável Baloubet du Rouet, tão nosso como o jegue do padre Cícero. Mas herói mesmo, vingador da raça, barba branca e caráter sem jaça, destemido na liça e campeão da justiça, mestre e guia nos caminhos mais ínvios, foi o grego Kossivas, de prenome Polyvios. O homem que, com decisão e altivez, desenganchou Vanderlei das garras do irlandês.

Palocci – Os tropeços, as incertezas, o fogo amigo o atrapalharam. Principalmente o fogo amigo. Mas atropelou no fim e saiu vitorioso. Merece o troféu "Necker" do ano. Necker, ministro das Finanças do rei Luís XVI, escreveu, num "Elogio a Colbert", dedicado ao detentor do mesmo cargo sob Luís XIV: "Se os homens foram feitos à imagem de Deus, então o ministro das Finanças, depois do rei, deve ser o homem que mais se aproxima dessa imagem".

Pinochet – Espertinho, o ditador. Enquanto o comunismo combatia com denodo, em sua conta pingavam dólares a rodo. Prodigioso, o ditador. Aos inimigos, a poção do desaparecimento. Às verdinhas, o mágico fermento.

PMDB – O intrépido Ulysses ressurge e pergunta: "Que fizeram da minha herança?". Responde-lhe o coro: "Ora, velho, não cansa. Não vês? Está aqui na pança".

Pobres – Continuaram na mesma. Levantam cedo, passam uma infinidade de tempo na condução, moram apertado e longe, enfrentam filas, são atendidos no SUS, não viajam nas férias... Só pobre, mesmo, para agüentar ser pobre.

Ucrânia – Eleições fraudadas, manifestações, tensão, ameaça de guerra civil – no fundo, esse quadro é tão banal! Já desfigurar o rosto do líder da oposição – eis, no repertório das perfídias, uma contribuição deveras original.

Zé Dirceu – "Meu Deus, que fiz, que fiz?", pergunta às paredes do Palácio. As paredes ecoam: "Waldomiro Diniz!, Waldomiro Diniz!".

 
 
 
 
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