Edição 1885 . 22 de dezembro de 2004

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No caminho certo

Muita gente está fazendo sua parte
no conserto do planeta: cientistas,
ambientalistas e até governos


Shell/divulgação
Transporte limpo
Ônibus movidos a hidrogênio, como este em Amsterdã, na Holanda, estão deixando de ser curiosidades experimentais e se tornando uma solução para conter a poluição nas grandes cidades. Este modelo já circula em dez cidades européias e será testado em Pequim em 2005. Em vez de poluentes, expele vapor d'água

Depois de sete anos de negociações, o Protocolo de Kioto vai sair do papel. Há bons motivos para comemorar o evento. Ratificado por um número suficiente de países, o acordo – que prevê a redução da emissão de gases que causam o efeito estufa e estimula o desenvolvimento de novas tecnologias e a implantação de fontes limpas de energia – começa a vigorar em fevereiro de 2005. É um passo importante no combate aos efeitos do aquecimento do planeta. O protocolo entra em vigor em etapas. Na primeira, de 2008 a 2012, os signatários têm de reduzir sua emissão de poluentes em 5,2% em relação aos valores apurados em 1990. Cada país possui uma meta, expressa em "créditos" que pode gastar. Se um país signatário ultrapassar a meta, pode comprar créditos excedentes de outros. Tem ainda a opção de financiar programas de energia limpa ou desenvolvimento sustentável em outros países, o que também vale créditos. Assim, o objetivo global de redução das emissões tem mais chance de ser cumprido. "Kioto vai acelerar a busca de tecnologias alternativas em ritmo jamais visto", aposta José Domingos Miguez, coordenador do setor do Ministério da Ciência e Tecnologia que estuda mudanças climáticas.

Se o documento tiver o mesmo efeito que o Protocolo de Montreal, de 1987, há razões para otimismo. O tratado canadense foi eficaz na redução do uso dos aerossóis que abriram um rombo na camada de ozônio que protege a Terra de raios solares nocivos. O documento de Montreal, como o de Kioto, também começou a ser negociado de forma tímida, mas progressivamente houve um aumento do número de países que o obedeceram.

Em 2005, inicia-se a discussão da segunda etapa de Kioto. As metas que vão valer a partir de 2012 devem se tornar mais duras. Calcula-se que, para frear de vez o aquecimento, seja necessário reduzir 60% das emissões em relação a 1990. "A redução prevista no protocolo não vai resolver o problema, mas é o início do caminho para estabilizarmos a temperatura da Terra", diz a pesquisadora Thelma Krug, responsável pelo cálculo da emissão de gases brasileira junto ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

Kioto é o maior exemplo, mas não é a única ação positiva para combater o efeito estufa. O primeiro-ministro inglês, Tony Blair, anunciou um programa de incentivo a energias limpas. A meta da Inglaterra é chegar a 2050 emitindo 60% menos CO2 do que hoje. Mesmo nos Estados Unidos, a nação que mais torce o nariz para o protocolo, existem mais de cinqüenta iniciativas oficiais importantes, já em prática, que reduzem a emissão de poluentes. São leis como a aprovada recentemente na Califórnia, que obriga toda a frota de veículos do estado, até 2014, a emitir 30% menos carbono do que hoje. Isso terá impacto indireto em todos os estados americanos, já que provavelmente a indústria automobilística não vai produzir carros limpos para a Califórnia e poluentes para o resto do país. "Boa parte da sociedade civil americana é mais consciente que o governo", afirma o antropólogo americano Stephen Schwartzman, da organização não-governamental Environmental Defense. Na União Européia, cujo Parlamento já havia decidido que os países-membros cumpririam as metas de Kioto independentemente da entrada em vigor do protocolo, várias nações têm projetos próprios de redução das emissões.

Em outras ameaças ao ambiente, como a desertificação, a união entre países começa a render frutos. Governos do Mediterrâneo se reuniram em um consórcio para evitar que uma região de 300 000 quilômetros quadrados (o tamanho da Itália), onde vivem mais de 16,5 milhões de pessoas, vire deserto dentro de algumas décadas. Cientistas estão montando planos de ação baseados em obras civis e programas de reflorestamento e combate às queimadas. Empresas privadas também já entenderam o potencial econômico (e de marketing) de iniciativas saneadoras. A Honda desenvolveu um carro movido a hidrogênio, o FCX, que resolve vários problemas de versões anteriores, como excesso de peso, pouca autonomia e dificuldade de funcionamento em baixas temperaturas. O novo modelo anda 400 quilômetros sem reabastecer e não polui nada: o subproduto do motor a hidrogênio é vapor de água. A General Motors e a Toyota, entre outras, já têm projetos avançados de veículos limpos. Em certos países europeus, como Holanda e Islândia, postos de combustível para abastecimento com hidrogênio deixaram de ser raridade. A companhia petrolífera Statoil, da Noruega, evita emissões de CO2, resultado da extração de gás natural, injetando-o em uma cavidade a 800 metros de profundidade.

O avanço da pesquisa permite prever cada vez melhor o processo de mudanças do clima e a influência do homem. Cientistas da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos, montaram uma "geloteca", com amostras extraídas de diversas profundidades do solo antártico, algumas congeladas há mais de 400 000 anos. Conhecer o clima do passado ajuda a entender o presente e analisar o futuro. No Brasil, cientistas já sabem como as chuvas se formam na Amazônia e como as queimadas e o desmatamento alteram o regime de chuvas de norte a sul do país. Na Oceania, pesquisadores estão reproduzindo corais em laboratório. Acreditam que assim poderão encontrar uma solução para salvá-los da grave ameaça de desaparecimento provocada pela elevação da temperatura dos oceanos.

Os benefícios econômicos da preservação ambiental são evidentes em áreas como a reciclagem, cuja indústria progride rapidamente. Papel e plástico formam cerca de metade do lixo urbano do planeta, mas o problema tende a diminuir à medida que alternativas biodegradáveis se popularizarem. Para cada tonelada de papel reciclado, em média trinta árvores são poupadas. Reciclar 1 tonelada de alumínio consome 5% da energia necessária para produzir 1 tonelada a partir da bauxita. O Brasil está adiantado nesse setor: recicla 87% das latas de alumínio, reaproveita um terço do papel e 40% das garrafas plásticas de refrigerantes. A reciclagem gera 200 000 empregos no país e 1,5 milhão em todo o mundo. Calcula-se que 700 milhões de toneladas de materiais de todo tipo sejam recicladas anualmente no planeta. Isso representa um faturamento anual de 200 bilhões de dólares. Nos EUA, a reciclagem emprega diretamente meio milhão de pessoas, o dobro do que emprega a indústria do aço, segundo levantamento do Instituto Worldwatch.

 
NESTA EDIÇÃO
O clima está mudando rapidamente
As transformações em todo o planeta
Os limites da exploração de recursos naturais
O paradoxo da abundância
Cada um destes incêndios tem 15 km²
O mar está perdendo fôlego
1 000 toneladas de lixo por segundo
Artigo: O que o El Niño pode nos ensinar
Entrevista: David King
Até onde o homem contribui para a degradação
O que os cientistas dizem sobre o futuro
Como podemos melhorar esse cenário
A solução chamada transgênicos

 
 
 
 
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