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Especial No
caminho certo Muita gente está fazendo sua
parte no conserto do planeta: cientistas, ambientalistas e até
governos
Shell/divulgação  |
Transporte limpo
Ônibus movidos a hidrogênio, como este em Amsterdã,
na Holanda, estão deixando de ser curiosidades experimentais e se tornando
uma solução para conter a poluição nas grandes cidades.
Este modelo já circula em dez cidades européias e será testado
em Pequim em 2005. Em vez de poluentes, expele vapor d'água |
Depois de sete anos de negociações,
o Protocolo de Kioto vai sair do papel. Há bons motivos para comemorar
o evento. Ratificado por um número suficiente de países, o acordo
que prevê a redução da emissão de gases que
causam o efeito estufa e estimula o desenvolvimento de novas tecnologias e a implantação
de fontes limpas de energia começa a vigorar em fevereiro de 2005.
É um passo importante no combate aos efeitos do aquecimento do planeta.
O protocolo entra em vigor em etapas. Na primeira, de 2008 a 2012, os signatários
têm de reduzir sua emissão de poluentes em 5,2% em relação
aos valores apurados em 1990. Cada país possui uma meta, expressa em "créditos"
que pode gastar. Se um país signatário ultrapassar a meta, pode
comprar créditos excedentes de outros. Tem ainda a opção
de financiar programas de energia limpa ou desenvolvimento sustentável
em outros países, o que também vale créditos. Assim, o objetivo
global de redução das emissões tem mais chance de ser cumprido.
"Kioto vai acelerar a busca de tecnologias alternativas em ritmo jamais visto",
aposta José Domingos Miguez, coordenador do setor do Ministério
da Ciência e Tecnologia que estuda mudanças climáticas.
Se o documento tiver o mesmo efeito que o Protocolo de Montreal, de 1987, há
razões para otimismo. O tratado canadense foi eficaz na redução
do uso dos aerossóis que abriram um rombo na camada de ozônio que
protege a Terra de raios solares nocivos. O documento de Montreal, como o de Kioto,
também começou a ser negociado de forma tímida, mas progressivamente
houve um aumento do número de países que o obedeceram.
Em 2005, inicia-se a discussão da segunda etapa de Kioto. As metas que
vão valer a partir de 2012 devem se tornar mais duras. Calcula-se que,
para frear de vez o aquecimento, seja necessário reduzir 60% das emissões
em relação a 1990. "A redução prevista no protocolo
não vai resolver o problema, mas é o início do caminho para
estabilizarmos a temperatura da Terra", diz a pesquisadora Thelma Krug, responsável
pelo cálculo da emissão de gases brasileira junto ao Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas. Kioto
é o maior exemplo, mas não é a única ação
positiva para combater o efeito estufa. O primeiro-ministro inglês, Tony
Blair, anunciou um programa de incentivo a energias limpas. A meta da Inglaterra
é chegar a 2050 emitindo 60% menos CO2 do que hoje.
Mesmo nos Estados Unidos, a nação que mais torce o nariz para o
protocolo, existem mais de cinqüenta iniciativas oficiais importantes, já
em prática, que reduzem a emissão de poluentes. São leis
como a aprovada recentemente na Califórnia, que obriga toda a frota de
veículos do estado, até 2014, a emitir 30% menos carbono do que
hoje. Isso terá impacto indireto em todos os estados americanos, já
que provavelmente a indústria automobilística não vai produzir
carros limpos para a Califórnia e poluentes para o resto do país.
"Boa parte da sociedade civil americana é mais consciente que o governo",
afirma o antropólogo americano Stephen Schwartzman, da organização
não-governamental Environmental Defense. Na União Européia,
cujo Parlamento já havia decidido que os países-membros cumpririam
as metas de Kioto independentemente da entrada em vigor do protocolo, várias
nações têm projetos próprios de redução
das emissões. Em outras ameaças
ao ambiente, como a desertificação, a união entre países
começa a render frutos. Governos do Mediterrâneo se reuniram em um
consórcio para evitar que uma região de 300 000 quilômetros
quadrados (o tamanho da Itália), onde vivem mais de 16,5 milhões
de pessoas, vire deserto dentro de algumas décadas. Cientistas estão
montando planos de ação baseados em obras civis e programas de reflorestamento
e combate às queimadas. Empresas privadas também já entenderam
o potencial econômico (e de marketing) de iniciativas saneadoras. A Honda
desenvolveu um carro movido a hidrogênio, o FCX, que resolve vários
problemas de versões anteriores, como excesso de peso, pouca autonomia
e dificuldade de funcionamento em baixas temperaturas. O novo modelo anda 400
quilômetros sem reabastecer e não polui nada: o subproduto do motor
a hidrogênio é vapor de água. A General Motors e a Toyota,
entre outras, já têm projetos avançados de veículos
limpos. Em certos países europeus, como Holanda e Islândia, postos
de combustível para abastecimento com hidrogênio deixaram de ser
raridade. A companhia petrolífera Statoil, da Noruega, evita emissões
de CO2, resultado da extração de gás
natural, injetando-o em uma cavidade a 800 metros de profundidade.
O avanço da pesquisa permite prever cada vez melhor o processo de mudanças
do clima e a influência do homem. Cientistas da Universidade do Estado de
Ohio, nos Estados Unidos, montaram uma "geloteca", com amostras extraídas
de diversas profundidades do solo antártico, algumas congeladas há
mais de 400 000 anos. Conhecer o clima do passado ajuda a entender o presente
e analisar o futuro. No Brasil, cientistas já sabem como as chuvas se formam
na Amazônia e como as queimadas e o desmatamento alteram o regime de chuvas
de norte a sul do país. Na Oceania, pesquisadores estão reproduzindo
corais em laboratório. Acreditam que assim poderão encontrar uma
solução para salvá-los da grave ameaça de desaparecimento
provocada pela elevação da temperatura dos oceanos.
Os benefícios econômicos da preservação ambiental são
evidentes em áreas como a reciclagem, cuja indústria progride rapidamente.
Papel e plástico formam cerca de metade do lixo urbano do planeta, mas
o problema tende a diminuir à medida que alternativas biodegradáveis
se popularizarem. Para cada tonelada de papel reciclado, em média trinta
árvores são poupadas. Reciclar 1 tonelada de alumínio consome
5% da energia necessária para produzir 1 tonelada a partir da bauxita.
O Brasil está adiantado nesse setor: recicla 87% das latas de alumínio,
reaproveita um terço do papel e 40% das garrafas plásticas de refrigerantes.
A reciclagem gera 200 000 empregos no país e 1,5 milhão em todo
o mundo. Calcula-se que 700 milhões de toneladas de materiais de todo tipo
sejam recicladas anualmente no planeta. Isso representa um faturamento anual de
200 bilhões de dólares. Nos EUA, a reciclagem emprega diretamente
meio milhão de pessoas, o dobro do que emprega a indústria do aço,
segundo levantamento do Instituto Worldwatch. |