Edição 1885 . 22 de dezembro de 2004

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Para onde vamos

Os cientistas dizem que não há como
parar
o aquecimento global. Seu ritmo
de expansão, porém, pode ser reduzido

Ninguém é capaz de dizer exatamente como será o planeta dentro de cinqüenta ou 100 anos. Mas centenas de pesquisas permitem afirmar com segurança que o futuro será mais quente. Todas elas, das mais otimistas às mais pessimistas, indicam que a vida sobre a Terra terá de se adaptar a novas condições. É provável que dentro de um século alguns pontos do planeta estejam 6 graus mais quentes do que hoje. O nível do mar pode subir até 80 centímetros. Essas mudanças serão sentidas por centenas de milhões de pessoas. Segundo uma das previsões, Bangladesh, pequena nação asiática com 140 milhões de habitantes, perderá 16% de seu território para o mar. Isso obrigaria 20 milhões de pessoas a se transferir para terras mais altas. Problemas semelhantes podem se verificar um pouco em toda parte, de Nova York ao Recife.

Os mais poderosos supercomputadores de hoje ainda precisam de meses de cálculo para prever cenários futuros, ainda assim com muita incerteza. Resultados já divulgados indicam que secas, tornados e furacões deverão ficar mais fortes e constantes. O cálculo é complexo, mas a explicação é simples. A elevação da temperatura provoca mais evaporação e mais umidade na atmosfera, o que favorece a formação de tempestades. Quatro furacões em seis semanas no Caribe, como aconteceu neste ano, é algo que nunca tinha sido visto. "Não dá para dizer que sejam resultado do efeito estufa, mas são um exemplo perfeito de como poderá ser o futuro", explica o meteorologista Carlos Nobre, coordenador-geral de previsão do tempo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Veja outras previsões:

A Organização Mundial de Saúde estima que em duas décadas o saldo de mortes provocadas pelo efeito estufa deverá ser de mais de 300 000 por ano.

Economistas da Universidade Yale afirmam que os prejuízos provocados pelos fenômenos climáticos deverão chegar a 794 bilhões de dólares por década, a partir de 2010.

Segundo estudo do Conselho Ártico – entidade que reúne os países vizinhos do Pólo Norte, como Noruega, Canadá e Rússia –, até o fim do século o Círculo Polar Ártico ficará sem gelo durante o verão e o princípio do outono.

A Universidade de Leeds, na Inglaterra, estima que 1 milhão de espécies são vulneráveis ao aquecimento e que 15% a 35% poderão estar extintas em 2050.

Pesquisa do cientista israelense Roni Avissar, da universidade americana Duke, relacionou o desmatamento na Amazônia à redução das chuvas no Meio Oeste dos Estados Unidos, onde se concentra o grosso da produção agrícola americana.

No Brasil, cientistas do Inpe e da Universidade de São Paulo prevêem que em cinqüenta anos o clima no país será desfavorável ao plantio de café em São Paulo e de algodão no Centro-Oeste.

Pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, afirmaram recentemente na revista Science que todas as alterações climáticas registradas nos últimos 400 milênios têm relação direta com a quantidade de CO2 na atmosfera. Sempre que houve elevação da temperatura e derretimento de calotas polares, os índices de CO2 eram próximos dos de hoje. Assim como no passado, o derretimento das calotas polares afeta as correntes marítimas – determinadas pela temperatura das águas – e estas afetam o clima global – como no norte da Europa, onde amenizam o frio.

Cenas como as mostradas no filme O Dia Depois de Amanhã, do diretor Roland Emmerich – em que o clima da Terra mudou em apenas uma semana, provocando uma era glacial –, são impossíveis na vida real, porém. Os pesquisadores descartam qualquer mudança abrupta, o que permitirá à humanidade se antecipar. "O que não podemos é ignorar as evidências", diz o físico americano James Hansen, da Nasa. Para o cientista, por meio de ações práticas pode-se não só desacelerar o aquecimento como também, a longo prazo, neutralizá-lo, impedindo que as catástrofes venham a ocorrer. Essas previsões, dizem os cientistas da corrente otimista, não levam em conta as evoluções tecnológicas dos próximos cinqüenta ou 100 anos. Vários cenários catastróficos elaborados no passado não levaram em consideração essas mudanças importantes.

 



 

NESTA EDIÇÃO
O clima está mudando rapidamente
As transformações em todo o planeta
Os limites da exploração de recursos naturais
O paradoxo da abundância
Cada um destes incêndios tem 15 km²
O mar está perdendo fôlego
1 000 toneladas de lixo por segundo
Artigo: O que o El Niño pode nos ensinar
Entrevista: David King
Até onde o homem contribui para a degradação
O que os cientistas dizem sobre o futuro
Como podemos melhorar esse cenário
A solução chamada transgênicos
 
 
 
 
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