Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Entrevista: David King
Uma ameaça maior
que o terrorismo

"Há indícios de que a onda de calor na Europa, em 2003, teve influência do aquecimento global. É um aviso do que podemos esperar"

O químico sul-africano David King, de 65 anos, é considerado o cientista número 1 da Inglaterra. Chefe do prestigioso escritório nacional de ciência e tecnologia, o professor da Universidade de Cambridge despacha diretamente com o primeiro-ministro Tony Blair. Quando o premiê se manifesta sobre questões como o controle de doenças ou os transgênicos, sempre leva em consideração as avaliações de King. Em um artigo publicado em janeiro na revista Science, o cientista qualificou as mudanças climáticas como "um perigo com dimensões maiores que as do terrorismo". De seu escritório em Londres, ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA:

VEJA – Qual é a real parcela de culpa do homem no processo chamado de efeito estufa?
King – O aquecimento que nós vemos não pode ser explicado sem que a atividade humana – notadamente a queima de combustíveis fósseis e a liberação de CO2 – seja considerada. Os dados coletados no gelo de camadas profundas da Antártica dizem que a Terra não via concentrações de CO2 na atmosfera como nos níveis atuais há pelo menos 440 000 anos – provavelmente bem mais até. Enquanto alguns especulam que mudanças na atividade solar ou na órbita da Terra são responsáveis por essas variações, outros trabalhos fornecem fortes evidências de que a causa dominante, particularmente nas últimas décadas, é a ação humana.

VEJA – Fenômenos extremos, como a temporada atípica de furacões nos Estados Unidos e no Caribe e a onda de calor na Europa em 2003, já são reflexos do aquecimento global?
King – Embora seja difícil ligar eventos individuais às tendências de longo prazo, há evidências de que a onda de calor na Europa teve influência do aquecimento global. O número de pessoas afetadas pelas inundações ao redor do mundo subiu de 7 milhões, na década de 1960, para 150 milhões, nos dias de hoje. Esses impactos condizem com o que se prevê e representam um aviso prévio do que nós podemos esperar no futuro.

VEJA – Como será a vida em um planeta mais quente?
King – Um mundo mais quente trará uma grande variedade de impactos, freqüentemente devastadores, ao redor do mundo, para o meio ambiente, a saúde humana e a sociedade. O comportamento de animais e plantas já dá sinais de mudança. A vegetação é afetada pelas mudanças na temperatura, pela quantidade de chuva e pelo aumento das concentrações de dióxido de carbono. Isso alterará a duração das estações de crescimento, produção, colheita e também a competição entre espécies animais, levando-as a se deslocar por longas distâncias em busca de novos habitats – ou até mesmo à extinção. Haverá perdas irreversíveis e aceleradas de biodiversidade. Um estudo estima que entre 15% e 37% das espécies terrestres das áreas pesquisadas estarão sob ameaça de extinção até 2050.

VEJA – Que impacto pode ter a ascensão do nível do mar?
King – O impacto será maciço principalmente para os países de baixa altitude, como Bangladesh. Das dezenove maiores cidades do planeta, dezesseis são litorâneas. Um aquecimento de 2,7 graus, conforme prevêem os modelos atuais do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, pode ser suficiente para derreter a camada de gelo da Groenlândia e provocar uma ascensão do nível do mar entre 6 e 7 metros. Uma elevação de 2 graus na temperatura média global representará um aumento real de 4 graus na África, por exemplo, tornando ainda mais dura a luta daqueles que buscam sair da pobreza, piorando problemas associados a falta de alimentos, segurança, saúde e água.

 
NESTA EDIÇÃO
O clima está mudando rapidamente
As transformações em todo o planeta
Os limites da exploração de recursos naturais
O paradoxo da abundância
Cada um destes incêndios tem 15 km²
O mar está perdendo fôlego
1 000 toneladas de lixo por segundo
Artigo: O que o El Niño pode nos ensinar
Entrevista: David King
Até onde o homem contribui para a degradação
O que os cientistas dizem sobre o futuro
Como podemos melhorar esse cenário
A solução chamada transgênicos

 
 
 
 
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