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Entrevista:
David King Uma ameaça maior que o
terrorismo
|  | "Há
indícios de que a onda de calor na Europa, em 2003, teve influência
do aquecimento global. É um aviso do que podemos esperar" |
| O químico
sul-africano David King, de 65 anos, é considerado o cientista número
1 da Inglaterra. Chefe do prestigioso escritório nacional de ciência
e tecnologia, o professor da Universidade de Cambridge despacha diretamente com
o primeiro-ministro Tony Blair. Quando o premiê se manifesta sobre questões
como o controle de doenças ou os transgênicos, sempre leva em consideração
as avaliações de King. Em um artigo publicado em janeiro na revista
Science, o cientista qualificou as mudanças climáticas como
"um perigo com dimensões maiores que as do terrorismo". De seu escritório
em Londres, ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA: VEJA
Qual é a real parcela de culpa do homem no processo chamado
de efeito estufa? King O aquecimento que nós vemos
não pode ser explicado sem que a atividade humana notadamente a
queima de combustíveis fósseis e a liberação de CO2
seja considerada. Os dados coletados no gelo de camadas profundas da Antártica
dizem que a Terra não via concentrações de CO2
na atmosfera como nos níveis atuais há pelo menos 440 000 anos
provavelmente bem mais até. Enquanto alguns especulam que mudanças
na atividade solar ou na órbita da Terra são responsáveis
por essas variações, outros trabalhos fornecem fortes evidências
de que a causa dominante, particularmente nas últimas décadas, é
a ação humana. VEJA
Fenômenos extremos, como a temporada atípica de furacões
nos Estados Unidos e no Caribe e a onda de calor na Europa em 2003, já
são reflexos do aquecimento global? King Embora seja
difícil ligar eventos individuais às tendências de longo prazo,
há evidências de que a onda de calor na Europa teve influência
do aquecimento global. O número de pessoas afetadas pelas inundações
ao redor do mundo subiu de 7 milhões, na década de 1960, para 150
milhões, nos dias de hoje. Esses impactos condizem com o que se prevê
e representam um aviso prévio do que nós podemos esperar no futuro.
VEJA Como será a vida
em um planeta mais quente? King Um mundo mais quente trará
uma grande variedade de impactos, freqüentemente devastadores, ao redor do
mundo, para o meio ambiente, a saúde humana e a sociedade. O comportamento
de animais e plantas já dá sinais de mudança. A vegetação
é afetada pelas mudanças na temperatura, pela quantidade de chuva
e pelo aumento das concentrações de dióxido de carbono. Isso
alterará a duração das estações de crescimento,
produção, colheita e também a competição entre
espécies animais, levando-as a se deslocar por longas distâncias
em busca de novos habitats ou até mesmo à extinção.
Haverá perdas irreversíveis e aceleradas de biodiversidade. Um estudo
estima que entre 15% e 37% das espécies terrestres das áreas pesquisadas
estarão sob ameaça de extinção até 2050.
VEJA Que impacto pode ter a ascensão
do nível do mar? King O impacto será maciço
principalmente para os países de baixa altitude, como Bangladesh. Das dezenove
maiores cidades do planeta, dezesseis são litorâneas. Um aquecimento
de 2,7 graus, conforme prevêem os modelos atuais do Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas, pode ser suficiente para derreter a camada
de gelo da Groenlândia e provocar uma ascensão do nível do
mar entre 6 e 7 metros. Uma elevação de 2 graus na temperatura média
global representará um aumento real de 4 graus na África, por exemplo,
tornando ainda mais dura a luta daqueles que buscam sair da pobreza, piorando
problemas associados a falta de alimentos, segurança, saúde e água.
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