Edição 1885 . 22 de dezembro de 2004

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Artigo:
George Philander

O que o El Niño
pode nos ensinar

"Precisamos evitar a tentação de
adiar decisões políticas difíceis em
nome de uma suposta necessidade
de informações
mais completas"

El Niño tornou-se um nome familiar, mas poucos se deram conta de que o fenômeno nos acompanha há milênios e que antigamente era saudado como uma bênção. Na verdade, esse nome foi dado inicialmente a uma modesta corrente quente sazonal que aparece na costa do Equador e do norte do Peru, perto do Natal, quando as chuvas transformam em jardim essa desértica região. El Niño é uma referência ao menino Jesus.

Ele exemplifica um paradoxo: quanto mais crescemos em riqueza e população, mais cresce nossa vulnerabilidade a desastres naturais. As chuvas associadas ao El Niño continuam a transformar o deserto do Equador em um jardim, mas hoje poucas pessoas têm tempo para se regozijar com esse milagre. Estão preocupadas com estradas, pontes e casas arrastadas pelas chuvas.

A história nos ensina que informações científicas precisas são de imenso valor e também que muita coisa pode ser feita mesmo quando essas informações encerram grandes incertezas. Acima de tudo, devemos evitar a tentação de adiar decisões políticas difíceis em nome de uma suposta necessidade de informações mais completas. Para facilitar nossos esforços, precisamos fazer a ponte entre os mundos profundamente diferentes da ciência e dos negócios. O multifacetado El Niño pode se tornar uma ponte eficaz, porque cativou a imaginação tanto de cientistas quanto de não-cientistas. Pode-se aprender muito com ele. E isso precisa acontecer logo.

Em nossos esforços para lidar com desastres, costumamos pedir aos cientistas que prevejam uma série de fenômenos naturais. Os meteorologistas responderam transformando a previsão diária do tempo de um augúrio em uma fonte confiável de informações importantes, um feito magnífico a que nem se dá mais atenção. Mais recentemente, os cientistas se voltaram para as flutuações do clima a longo prazo. Os avanços foram tão rápidos que, enquanto um El Niño excepcionalmente intenso pegou todo mundo de surpresa em 1982, já em 1997 se pôde prever sua chegada com meses de antecedência.

Mesmo na falta de previsões totalmente precisas, muito pode ser feito para mitigar o impacto de desastres naturais – mas apenas se os governos implementarem as políticas adequadas. Muitos, porém, relutam em fazê-lo. Nos Estados Unidos, por exemplo, não se coíbe a construção de edifícios altos em regiões sujeitas a furacões. O resultado é que, quando eles atingem o litoral, acabamos por nos considerar inocentes vítimas de catástrofes. Devemos ter em mente que, se enfrentamos cada vez mais problemas com fenômenos como El Niño e furacões, não é porque nossas previsões são defeituosas, e sim porque nosso modo de viver e conduzir os negócios está mudando.

Temos de pesar os consideráveis benefícios de nossas atividades agrícolas e industriais – padrões de vida superiores tanto para ricos quanto para pobres – e as possíveis conseqüências negativas de um aumento rápido na concentração de gases. Tornamo-nos senhores da Terra. Somos capazes de provocar mudanças que afetarão várias gerações futuras e todas as formas de vida do planeta.

Nosso "caso" com o El Niño chega a um momento crítico. Ele vai se tornar mais intenso? O visitante esporádico se tornará um morador permanente? Ainda não temos respostas. Mas podemos esperar que políticos sábios, que levem em conta o que os cientistas podem prever e que estejam cientes das inevitáveis limitações do conhecimento destes, façam com que o El Niño continue a ser uma bênção, em vez de uma praga, uma encantadora corrente com a capacidade milagrosa de transformar desertos em jardins.

 

Professor de geociências (meteorologia) na Universidade Princeton,
nos Estados Unidos, é autor de Nosso Caso com El Niño: Como
Transformamos uma Encantadora Corrente Peruana em um Desastre
Climático Global
(Princeton University Press, em inglês, 2004)

 
NESTA EDIÇÃO
O clima está mudando rapidamente
As transformações em todo o planeta
Os limites da exploração de recursos naturais
O paradoxo da abundância
Cada um destes incêndios tem 15 km²
O mar está perdendo fôlego
1 000 toneladas de lixo por segundo
Artigo: O que o El Niño pode nos ensinar
Entrevista: David King
Até onde o homem contribui para a degradação
O que os cientistas dizem sobre o futuro
Como podemos melhorar esse cenário
A solução chamada transgênicos

 
 
 
 
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