Divulgação  |
Artigo: George Philander
O que o El Niño pode nos ensinar
"Precisamos
evitar a tentação de
adiar decisões políticas difíceis em nome de uma suposta
necessidade de informações mais completas" El
Niño tornou-se um nome familiar, mas poucos se deram conta de que o fenômeno
nos acompanha há milênios e que antigamente era saudado como uma
bênção. Na verdade, esse nome foi dado inicialmente a uma
modesta corrente quente sazonal que aparece na costa do Equador e do norte do
Peru, perto do Natal, quando as chuvas transformam em jardim essa desértica
região. El Niño é uma referência ao menino Jesus.
Ele exemplifica um paradoxo: quanto mais crescemos em riqueza e população,
mais cresce nossa vulnerabilidade a desastres naturais. As chuvas associadas ao
El Niño continuam a transformar o deserto do Equador em um jardim, mas
hoje poucas pessoas têm tempo para se regozijar com esse milagre. Estão
preocupadas com estradas, pontes e casas arrastadas pelas chuvas.
A história nos ensina que informações científicas
precisas são de imenso valor e também que muita coisa pode ser feita
mesmo quando essas informações encerram grandes incertezas. Acima
de tudo, devemos evitar a tentação de adiar decisões políticas
difíceis em nome de uma suposta necessidade de informações
mais completas. Para facilitar nossos esforços, precisamos fazer a ponte
entre os mundos profundamente diferentes da ciência e dos negócios.
O multifacetado El Niño pode se tornar uma ponte eficaz, porque cativou
a imaginação tanto de cientistas quanto de não-cientistas.
Pode-se aprender muito com ele. E isso precisa acontecer logo.
Em nossos esforços para lidar com desastres, costumamos pedir aos cientistas
que prevejam uma série de fenômenos naturais. Os meteorologistas
responderam transformando a previsão diária do tempo de um augúrio
em uma fonte confiável de informações importantes, um feito
magnífico a que nem se dá mais atenção. Mais recentemente,
os cientistas se voltaram para as flutuações do clima a longo prazo.
Os avanços foram tão rápidos que, enquanto um El Niño
excepcionalmente intenso pegou todo mundo de surpresa em 1982, já em 1997
se pôde prever sua chegada com meses de antecedência.
Mesmo na falta de previsões totalmente precisas, muito pode ser feito para
mitigar o impacto de desastres naturais mas apenas se os governos implementarem
as políticas adequadas. Muitos, porém, relutam em fazê-lo.
Nos Estados Unidos, por exemplo, não se coíbe a construção
de edifícios altos em regiões sujeitas a furacões. O resultado
é que, quando eles atingem o litoral, acabamos por nos considerar inocentes
vítimas de catástrofes. Devemos ter em mente que, se enfrentamos
cada vez mais problemas com fenômenos como El Niño e furacões,
não é porque nossas previsões são defeituosas, e sim
porque nosso modo de viver e conduzir os negócios está mudando.
Temos de pesar os consideráveis benefícios
de nossas atividades agrícolas e industriais padrões de vida
superiores tanto para ricos quanto para pobres e as possíveis conseqüências
negativas de um aumento rápido na concentração de gases.
Tornamo-nos senhores da Terra. Somos capazes de provocar mudanças que afetarão
várias gerações futuras e todas as formas de vida do planeta.
Nosso "caso" com o El Niño chega a um momento
crítico. Ele vai se tornar mais intenso? O visitante esporádico
se tornará um morador permanente? Ainda não temos respostas. Mas
podemos esperar que políticos sábios, que levem em conta o que os
cientistas podem prever e que estejam cientes das inevitáveis limitações
do conhecimento destes, façam com que o El Niño continue a ser uma
bênção, em vez de uma praga, uma encantadora corrente com
a capacidade milagrosa de transformar desertos em jardins. Professor
de geociências (meteorologia) na Universidade Princeton, nos Estados
Unidos, é autor de Nosso Caso com El Niño: Como Transformamos
uma Encantadora Corrente Peruana em um Desastre Climático Global (Princeton
University Press, em inglês, 2004) |