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Especial O
mar está perdendo fôlego Há
estudos sobre uma moratória na pesca para evitar o
desaparecimento de espécies Em 1992, 44
000 pescadores da região de Newfoundland, no Canadá, perderam o
emprego. As autoridades decidiram proibir a pesca do bacalhau, base da economia
local, ao constatar que a produção baixara 90% em relação
à década de 70. A responsável foi a chamada sobrepesca, ou
seja, aquela que impede a reprodução do peixe. Cidades inteiras
faliram. Pior, a medida foi tardia. Doze anos depois, o bacalhau não reapareceu.
O caso não é isolado. O Conselho Internacional de Pesquisa Marinha
recomendou à União Européia que proíba a pesca do
bacalhau no Mar do Norte. O máximo que se conseguiu, porém, foi
uma redução de 45% nas cotas de pesca.
Todos os anos são retirados dos mares e rios do planeta 100 milhões
de toneladas de pescado. A indústria pesqueira movimenta 200 bilhões
de dólares anuais e ocupa diretamente 15 milhões de pessoas. Fonte
barata de proteínas e de riqueza durante milênios, o mar dá
sinais de perder fôlego pela primeira vez na história. A Organização
das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura
(FAO) calcula que em apenas seis anos a produção será até
20 milhões de toneladas menor que a atual. Das 200 espécies mais
valiosas no mercado, 120 são exploradas além de sua capacidade de
reprodução. No Brasil, entre as consideradas sobrepescadas estão
a lagosta, certas variedades de sardinha e camarão e peixes de água
doce, como o tambaqui amazônico. A frota pesqueira mundial só sobrevive
graças a subsídios perde 54 bilhões de dólares
por ano e recebe quase a mesma quantia em ajuda de governos.
Artesanal desde o início dos tempos, hoje a pesca também é
industrial. A pesca de arrasto, com redes que varrem o fundo do mar, é
extremamente predatória. Além de recolherem indiscriminadamente
todas as espécies, as redes usam bolas de aço que destroem corais
e revolvem o fundo do oceano. O jornalista inglês Charles Clover mostra
no livro O Fim da Linha: como a Sobrepesca Está Mudando o Mundo e o
que Comemos (eleito um dos melhores de 2004 pela revista inglesa The Economist)
que a indústria pesqueira investe tudo no aprimoramento das tecnologias
de captura e nada em métodos menos destruidores. Equipadas com sonares
e softwares de localização por satélite, as embarcações
modernas encontram os cardumes com uma facilidade jamais vista. Com o colapso
dos estoques em várias partes do Mar do Norte, na Europa, pesqueiros europeus
e asiáticos se aventuram em águas internacionais próximas
à África e ao Brasil. "Seguirão nesse ritmo até chegarem
à Antártica. E essas serão as últimas águas
a ser exploradas", diz Clover. A sobrepesca é
agravada pelo desperdício. A cada ano, descartam-se ainda a bordo dos navios
8 milhões de toneladas de pescado em boas condições de consumo.
São espécies de menor valor comercial, rejeitadas para dar espaço
a peixes mais valiosos. Essa sobra encheria 200 000 carretas e corresponde ao
consumo de peixe no Brasil em seis anos. "Para cada tonelada de camarão
pescada, outras 4 de peixes são jogadas fora", diz o ecólogo Miguel
Petrere Júnior, da Universidade Estadual Paulista, membro do Comitê
Consultivo em Pesquisa da Pesca da FAO. Há
esperanças mas elas dependem de medidas drásticas. Para evitar
o colapso da pesca industrial, a FAO cogita propor uma moratória. Em certas
áreas só poderiam atuar os pescadores artesanais, que representam
90% da mão-de-obra em atividade e respondem por metade da produção
mundial. Outra solução, a criação de "fazendas marinhas",
vem se impondo como uma alternativa de exploração ordenada de um
recurso outrora inesgotável mas longe da escala necessária
para substituir as quantidades pescadas em mar aberto. |