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Especial O
paradoxo da abundância Desperdício e distribuição
desigual tornaram a água uma fonte de conflitos
O Mar de Aral, na antiga União Soviética, morreu. Outrora quarto
maior lago do planeta, com superfície maior que a dos estados do Rio de
Janeiro e Alagoas juntos, hoje ocupa um terço da área original.
Os rios que o alimentam foram desviados e canalizados para a agricultura. Os ventos
carregaram o sal do leito seco para terras antes férteis. Esse processo
inviabilizou ao mesmo tempo a pesca e a agricultura. No ano passado, o governo
do Cazaquistão anunciou um plano para salvar pelo menos a porção
norte do Aral, separando-a com um dique da parte sul, a maior do lago, dada como
perdida. O caso do Aral é o mais emblemático
dos riscos do mau uso da água. Uma vez que cobre cerca de 70% da superfície
do planeta, costuma-se vê-la como um recurso inesgotável. Trata-se
de uma abundância enganosa. Apenas 2,5% da água é doce, e
a maior parte está no topo das montanhas e nos pólos, na forma de
gelo ou de neve. Sobra menos de 1% em condições para consumo animal
e uso na agricultura. Desse total, o homem já utiliza mais da metade
com uma taxa de desperdício próxima a 60%. A agricultura consome
a maior parte da água doce. A indústria é responsável
por um quarto da utilização, e o consumo residencial representa
menos de 10%. De acordo com um levantamento realizado pelo Conselho Mundial da
Água que reúne governos e organizações não-governamentais
, se os atuais padrões de consumo forem mantidos, em vinte anos a
humanidade será obrigada a derreter geleiras para garantir o abastecimento.
A disponibilidade também é desigual.
Uma dúzia de países o Brasil entre eles concentra
mais de metade das reservas mundiais. O mesmo se verifica com os padrões
de consumo. Enquanto um americano consome a média diária de 600
litros de água, um cidadão africano não dispõe de
mais do que 20 litros por dia. Em duas décadas, nas contas da Organização
das Nações Unidas, haverá 4 bilhões de pessoas sem
acesso a água em quantidade adequada à sobrevivência, e boa
parte sem água potável. Dados da Organização Mundial
de Saúde contabilizam 7 milhões de mortes por ano decorrentes da
falta de saneamento ou do consumo de água contaminada.
O acesso à água é fonte potencial de pelo menos 300 conflitos
internacionais, como em fronteiras demarcadas por rios. O governo do México
reivindica dos Estados Unidos a redução da drenagem do Rio Grande
para irrigação, que diminui a disponibilidade no território
mexicano e favorece a contaminação da água com pesticidas.
A Etiópia e o Sudão, países na cabeceira do Nilo, sofrem
pressão econômica e militar do Egito para abandonar projetos de irrigação
e construção de represas, o que poderia decrescer o volume de água
no trecho egípcio. Curdos e sírios protestam contra a Turquia, que,
ao represar o Eufrates, reduziu a quantidade de água que chega à
Síria e ao norte do Iraque. Já se
conhecem, porém, soluções eficazes para o desperdício.
Resta colocá-las em prática. A irrigação por gotejamento,
por exemplo, reduz a perda de água, que é de 40% no sistema por
canais e aspersores, o mais usado, para menos de 10%. É comum em Israel,
país seco onde se sabe o valor de cada gota. Também em Israel já
existem empresas especializadas em devolver água usada ao subsolo
isso mesmo, devolver. Depois de tratada, a água é reinjetada em
aqüíferos, as reservas subterrâneas naturais. Em Cingapura,
país que importa água, o governo promove entre a população
a chamada água potabilizada obtida do tratamento de água
poluída e própria ao consumo. É
sorte que o Brasil não precise chegar a tanto, mas também aqui há
casos de escassez. Embora o país detenha 17% da água doce disponível
no planeta, ela é mal distribuída. Mais de 70% do recurso está
concentrado na Amazônia, onde moram menos de 10% dos brasileiros. Enquanto
um morador de Roraima tem à disposição 1,8 milhão
de litros de água por ano, em Pernambuco essa média é de
pouco mais de 1 000 litros. No Nordeste e no Sudeste, algumas localidades enfrentam
racionamentos regulares. Em São Paulo, as crises de abastecimento são
em parte resultado da poluição dos rios, como o Tietê e o
Pinheiros. A maior cidade do país produz menos da metade da água
necessária para seu abastecimento. A outra parte é trazida da bacia
do Rio Piracicaba, a cerca de 100 quilômetros. |