Edição 1885 . 22 de dezembro de 2004

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O paradoxo da abundância

Desperdício e distribuição desigual
tornaram a água uma fonte de conflitos

O Mar de Aral, na antiga União Soviética, morreu. Outrora quarto maior lago do planeta, com superfície maior que a dos estados do Rio de Janeiro e Alagoas juntos, hoje ocupa um terço da área original. Os rios que o alimentam foram desviados e canalizados para a agricultura. Os ventos carregaram o sal do leito seco para terras antes férteis. Esse processo inviabilizou ao mesmo tempo a pesca e a agricultura. No ano passado, o governo do Cazaquistão anunciou um plano para salvar pelo menos a porção norte do Aral, separando-a com um dique da parte sul, a maior do lago, dada como perdida.

O caso do Aral é o mais emblemático dos riscos do mau uso da água. Uma vez que cobre cerca de 70% da superfície do planeta, costuma-se vê-la como um recurso inesgotável. Trata-se de uma abundância enganosa. Apenas 2,5% da água é doce, e a maior parte está no topo das montanhas e nos pólos, na forma de gelo ou de neve. Sobra menos de 1% em condições para consumo animal e uso na agricultura. Desse total, o homem já utiliza mais da metade – com uma taxa de desperdício próxima a 60%. A agricultura consome a maior parte da água doce. A indústria é responsável por um quarto da utilização, e o consumo residencial representa menos de 10%. De acordo com um levantamento realizado pelo Conselho Mundial da Água – que reúne governos e organizações não-governamentais –, se os atuais padrões de consumo forem mantidos, em vinte anos a humanidade será obrigada a derreter geleiras para garantir o abastecimento.

A disponibilidade também é desigual. Uma dúzia de países – o Brasil entre eles – concentra mais de metade das reservas mundiais. O mesmo se verifica com os padrões de consumo. Enquanto um americano consome a média diária de 600 litros de água, um cidadão africano não dispõe de mais do que 20 litros por dia. Em duas décadas, nas contas da Organização das Nações Unidas, haverá 4 bilhões de pessoas sem acesso a água em quantidade adequada à sobrevivência, e boa parte sem água potável. Dados da Organização Mundial de Saúde contabilizam 7 milhões de mortes por ano decorrentes da falta de saneamento ou do consumo de água contaminada.

O acesso à água é fonte potencial de pelo menos 300 conflitos internacionais, como em fronteiras demarcadas por rios. O governo do México reivindica dos Estados Unidos a redução da drenagem do Rio Grande para irrigação, que diminui a disponibilidade no território mexicano e favorece a contaminação da água com pesticidas. A Etiópia e o Sudão, países na cabeceira do Nilo, sofrem pressão econômica e militar do Egito para abandonar projetos de irrigação e construção de represas, o que poderia decrescer o volume de água no trecho egípcio. Curdos e sírios protestam contra a Turquia, que, ao represar o Eufrates, reduziu a quantidade de água que chega à Síria e ao norte do Iraque.

Já se conhecem, porém, soluções eficazes para o desperdício. Resta colocá-las em prática. A irrigação por gotejamento, por exemplo, reduz a perda de água, que é de 40% no sistema por canais e aspersores, o mais usado, para menos de 10%. É comum em Israel, país seco onde se sabe o valor de cada gota. Também em Israel já existem empresas especializadas em devolver água usada ao subsolo – isso mesmo, devolver. Depois de tratada, a água é reinjetada em aqüíferos, as reservas subterrâneas naturais. Em Cingapura, país que importa água, o governo promove entre a população a chamada água potabilizada – obtida do tratamento de água poluída e própria ao consumo.

É sorte que o Brasil não precise chegar a tanto, mas também aqui há casos de escassez. Embora o país detenha 17% da água doce disponível no planeta, ela é mal distribuída. Mais de 70% do recurso está concentrado na Amazônia, onde moram menos de 10% dos brasileiros. Enquanto um morador de Roraima tem à disposição 1,8 milhão de litros de água por ano, em Pernambuco essa média é de pouco mais de 1 000 litros. No Nordeste e no Sudeste, algumas localidades enfrentam racionamentos regulares. Em São Paulo, as crises de abastecimento são em parte resultado da poluição dos rios, como o Tietê e o Pinheiros. A maior cidade do país produz menos da metade da água necessária para seu abastecimento. A outra parte é trazida da bacia do Rio Piracicaba, a cerca de 100 quilômetros.

 
NESTA EDIÇÃO
O clima está mudando rapidamente
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