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Especial Sinais
de mudança A questão não é
mais se haverá aquecimento global: o processo já está
em andamento e o que se vê agora são apenas seus primeiros efeitos
| NASA  |
Susto no litoral do Brasil
Em março de 2004, os satélites de observação
meteorológica captaram uma imagem jamais registrada na costa brasileira:
um ciclone se aproximando da Região Sul. A temperatura da água nessa
área costuma ser fria demais para que se forme tal tipo de fenômeno.
O Catarina, como foi apelidado, fez algum estrago no litoral, mas o principal
legado de sua passagem foi uma dúvida: se não passou de um turista
acidental ou se é o primeiro de muitos visitantes. | |
A Terra passa regularmente
por períodos frios, as eras glaciais, e amenos, chamados de interglaciais.
São mudanças climáticas severas que redesenham a paisagem
global. Até agora, essas transformações se processavam no
ritmo natural: de tão lentas, eram imperceptíveis no espaço
de uma geração. Os sinais recentes do aquecimento do planeta, porém,
acumulam-se em uma velocidade considerada inédita pelos cientistas. O ciclone
Catarina, que se formou neste ano no litoral sul do Brasil, foi considerado por
um grupo de cientistas ingleses como sinal antecipado da mudança do clima.
Pelas contas dos especialistas, tormentas assim serão normais nessa região
do Atlântico daqui a uma década. Blocos de gelo de tamanho inusitado
têm se desprendido dos pólos. Em 1998, um deles, do tamanho do Distrito
Federal, se soltou de uma geleira na Antártica. Outro, com 720 bilhões
de toneladas de gelo e três vezes maior que a cidade do Rio de Janeiro,
desprendeu-se em 2002. Dois séculos atrás, a Praça de São
Marcos, em Veneza, era inundada uma ou duas vezes por ano. Agora é interditada
quase toda semana por causa do avanço das águas. No sul dos Estados
Unidos, o estado de Louisiana perde cerca de 16 hectares de terra por dia. Os
Everglades, turísticos pântanos da Flórida, podem desaparecer
até o fim deste século. Países asiáticos, como Bangladesh
e China, estão perdendo faixas de terra férteis usadas para o cultivo
do arroz. São mudanças que afetam
a vida de todas as espécies, inclusive o homem. Globalmente, a década
mais quente já registrada foi a de 1990. Essa tendência é
observada também nos últimos cinco anos. Atribuem-se a uma inédita
onda de calor 30 000 mortes na Europa Ocidental, no verão de 2003. Um estudo
da Organização Mundial de Meteorologia, ligada às Nações
Unidas, estima que pelo menos 160 000 pessoas morram por ano em conseqüência
das mudanças no clima. Entre as causas da mortandade está a elevação
das marés, que inviabiliza fontes de água na foz de rios. No Egito,
o avanço do mar está deixando a água do Nilo salobra e afetando
o abastecimento da região. A febre do oeste do Nilo chegou aos Estados
Unidos em um ano de fortes secas, por meio de aves migratórias infectadas,
e nos últimos cinco anos matou 500 americanos. A camada de neve
em todo o planeta diminuiu 10% desde a década de 1960, e houve um recuo
significativo dos glaciares. As neves eternas que cobrem o Himalaia recuam cerca
de 30 metros por ano. As estimativas apontam que, se for mantido esse ritmo, até
2035 não haverá mais gelo nas partes central e oriental da cadeia
de montanhas. O gelo do Ártico perdeu 40% de seu volume em cinco décadas.
No final deste século, a região não terá mais cobertura
congelada no verão, acreditam os especialistas. Uma conseqüência
do encolhimento da calota polar é o surgimento de ursos anões. Com
a redução das áreas de caça e, conseqüentemente,
da oferta de alimentos, eles desmamam mais tarde e crescem menos a cada geração.
Também no Ártico, as raposas vermelhas estão perdendo espaço
para suas parentes que viviam em latitudes mais baixas e migraram em direção
ao norte em busca de temperaturas mais frias. Na Inglaterra, certas espécies
de borboletas e pássaros não são mais vistas no seu habitat.
Na Costa Rica, uma espécie de sapo foi extinta depois que uma seca jamais
observada interrompeu seu ciclo de reprodução. Até
dois séculos atrás, havia na atmosfera uma quantidade natural de
poluentes, resultado basicamente das erupções vulcânicas,
da decomposição orgânica e da fumaça de grandes incêndios.
Depois que a humanidade começou a queimar carvão para alimentar
as chaminés da Revolução Industrial, o volume de gases e
partículas tóxicas dispersos no ar aumentou 30%, segundo calculam
cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.
A análise de bolhas de ar presas há milênios no subsolo gelado
da Antártica comprovou que a atual concentração de CO2
na atmosfera é a maior já registrada nos últimos 440 000
anos. É um terço a mais do que a natureza é capaz de reciclar.
Em setembro, cientistas japoneses do Instituto Nacional de Pesquisa Polar revelaram
que os níveis de CO2 já interferem na qualidade
do ar dos lugares mais remotos do planeta. Com o auxílio de balões
que coletaram amostras do ar, descobriram que a quantidade do poluente cresceu
2,6% em seis anos no continente gelado. É a primeira vez que um gás
causador do efeito estufa aumenta a ponto de influenciar a qualidade do ar nos
pólos.
| NASA  |
AP  | Ameaça
à cidade dos canais A frágil Veneza atravessou os séculos
convivendo com inundações e erosão. Nunca o problema foi
tão grave quanto agora. Calcula-se que as águas em torno da cidade
alcancem o ritmo de elevação de 6 milímetros por ano. O solo
instável cedeu uma dezena de centímetros nas últimas décadas.
A Praça de São Marcos, símbolo da cidade, era inundada dez
vezes por ano no início do século XX. Hoje (foto menor) chega
a enfrentar sessenta enchentes anuais. | | Esse
saldo, resultado do desequilíbrio entre o que é emitido e o que
é absorvido pela natureza, cria a condição básica
para o fenômeno chamado de efeito estufa. O excedente de fumaça e
de partículas na atmosfera atua como uma cúpula que, além
do CO2, é composta de metano e enxofre, entre outros
gases. Essa cobertura é que impede que parte do calor recebido do Sol seja
refletida para o espaço assim como em uma estufa o vidro deixa passar
a luz do Sol mas impede a saída do calor. Segundo
as contas do físico e astrônomo James Hansen, diretor do Instituto
Goddard, da Nasa (a agência espacial americana), essa sobrecarga de calor
é de cerca de 1 watt por metro quadrado. Isso equivale a manter acesa por
150 anos, em cada metro quadrado da superfície do planeta, uma lâmpada
de enfeite de Natal. Parece pouco, mas não é. "Os estudos da história
do clima mostram que pequenas forças, mantidas por muito tempo, podem causar
grandes mudanças", explica Hansen. A maior parte do coeficiente energético
gerado pelas "lâmpadas" de Hansen é absorvida pelo mar. Medições
do oceanógrafo Sydney Levitus, do serviço de meteorologia americano,
mostram que a quantidade de calor nos oceanos aumentou 10 watts por metro quadrado
nos últimos cinqüenta anos. Levitus afirma que, mesmo que se venham
a reduzir as emissões e controlar o efeito estufa, a atmosfera terrestre
continuará esquentando por no mínimo 100 anos, devido à absorção
do calor emitido pelos oceanos. É que, assim como a água demora
para se aquecer, também demora para perder calor. As conseqüências
são facilmente imagináveis. "A elevação de apenas
1 grau onde a temperatura era zero significa que, ali, tudo o que é gelo
vai derreter e fazer aumentar a quantidade de água escorrendo para os oceanos",
lembra o físico Edmo Campos, coordenador do Laboratório de Modelagem
dos Oceanos, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
Para completar, como qualquer corpo aquecido, o mar se expande. Esse fenômeno,
combinado com mais água, faz avançar as marés. O que se vê
agora, para muitos cientistas, é apenas o começo de uma tendência
que vai se agravar ao longo das décadas.

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