Edição 1885 . 22 de dezembro de 2004

Índice
Millôr
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Cartas
Contexto
Veja essa
Gente
Memória
VEJA Recomenda
 
 

Especial
Sinais de mudança

A questão não é mais se haverá
aquecimento global: o processo já
está em andamento e o que se vê
agora são apenas seus primeiros efeitos


NASA

Susto no litoral do Brasil
Em março de 2004, os satélites de observação meteorológica captaram uma imagem jamais registrada na costa brasileira: um ciclone se aproximando da Região Sul. A temperatura da água nessa área costuma ser fria demais para que se forme tal tipo de fenômeno. O Catarina, como foi apelidado, fez algum estrago no litoral, mas o principal legado de sua passagem foi uma dúvida: se não passou de um turista acidental ou se é o primeiro de muitos visitantes.

A Terra passa regularmente por períodos frios, as eras glaciais, e amenos, chamados de interglaciais. São mudanças climáticas severas que redesenham a paisagem global. Até agora, essas transformações se processavam no ritmo natural: de tão lentas, eram imperceptíveis no espaço de uma geração. Os sinais recentes do aquecimento do planeta, porém, acumulam-se em uma velocidade considerada inédita pelos cientistas. O ciclone Catarina, que se formou neste ano no litoral sul do Brasil, foi considerado por um grupo de cientistas ingleses como sinal antecipado da mudança do clima. Pelas contas dos especialistas, tormentas assim serão normais nessa região do Atlântico daqui a uma década. Blocos de gelo de tamanho inusitado têm se desprendido dos pólos. Em 1998, um deles, do tamanho do Distrito Federal, se soltou de uma geleira na Antártica. Outro, com 720 bilhões de toneladas de gelo e três vezes maior que a cidade do Rio de Janeiro, desprendeu-se em 2002. Dois séculos atrás, a Praça de São Marcos, em Veneza, era inundada uma ou duas vezes por ano. Agora é interditada quase toda semana por causa do avanço das águas. No sul dos Estados Unidos, o estado de Louisiana perde cerca de 16 hectares de terra por dia. Os Everglades, turísticos pântanos da Flórida, podem desaparecer até o fim deste século. Países asiáticos, como Bangladesh e China, estão perdendo faixas de terra férteis usadas para o cultivo do arroz.

São mudanças que afetam a vida de todas as espécies, inclusive o homem. Globalmente, a década mais quente já registrada foi a de 1990. Essa tendência é observada também nos últimos cinco anos. Atribuem-se a uma inédita onda de calor 30 000 mortes na Europa Ocidental, no verão de 2003. Um estudo da Organização Mundial de Meteorologia, ligada às Nações Unidas, estima que pelo menos 160 000 pessoas morram por ano em conseqüência das mudanças no clima. Entre as causas da mortandade está a elevação das marés, que inviabiliza fontes de água na foz de rios. No Egito, o avanço do mar está deixando a água do Nilo salobra e afetando o abastecimento da região. A febre do oeste do Nilo chegou aos Estados Unidos em um ano de fortes secas, por meio de aves migratórias infectadas, e nos últimos cinco anos matou 500 americanos.


Fotos NASA

ASA
O monstro de gelo
Um dos maiores icebergs já observados, o A-38 – de 144 por 48 quilômetros – nasceu ao se desprender da camada de gelo antártica em 1998. Desde então se dividiu em vários pedaços, que vagam pelo Atlântico Sul, representam perigo para a navegação e são por esse motivo continuamente monitorados. A seqüência ao lado, que cobre um período de uma semana, acompanha uma de suas subdivisões. Uma montanha de gelo com a área aproximada da cidade de São Paulo partiu-se em duas em abril deste ano. Icebergs desse porte tendem a se tornar cada vez mais comuns com a aceleração do derretimento do gelo polar.

A camada de neve em todo o planeta diminuiu 10% desde a década de 1960, e houve um recuo significativo dos glaciares. As neves eternas que cobrem o Himalaia recuam cerca de 30 metros por ano. As estimativas apontam que, se for mantido esse ritmo, até 2035 não haverá mais gelo nas partes central e oriental da cadeia de montanhas. O gelo do Ártico perdeu 40% de seu volume em cinco décadas. No final deste século, a região não terá mais cobertura congelada no verão, acreditam os especialistas. Uma conseqüência do encolhimento da calota polar é o surgimento de ursos anões. Com a redução das áreas de caça e, conseqüentemente, da oferta de alimentos, eles desmamam mais tarde e crescem menos a cada geração. Também no Ártico, as raposas vermelhas estão perdendo espaço para suas parentes que viviam em latitudes mais baixas e migraram em direção ao norte em busca de temperaturas mais frias. Na Inglaterra, certas espécies de borboletas e pássaros não são mais vistas no seu habitat. Na Costa Rica, uma espécie de sapo foi extinta depois que uma seca jamais observada interrompeu seu ciclo de reprodução.

Até dois séculos atrás, havia na atmosfera uma quantidade natural de poluentes, resultado basicamente das erupções vulcânicas, da decomposição orgânica e da fumaça de grandes incêndios. Depois que a humanidade começou a queimar carvão para alimentar as chaminés da Revolução Industrial, o volume de gases e partículas tóxicas dispersos no ar aumentou 30%, segundo calculam cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. A análise de bolhas de ar presas há milênios no subsolo gelado da Antártica comprovou que a atual concentração de CO2 na atmosfera é a maior já registrada nos últimos 440 000 anos. É um terço a mais do que a natureza é capaz de reciclar. Em setembro, cientistas japoneses do Instituto Nacional de Pesquisa Polar revelaram que os níveis de CO2 já interferem na qualidade do ar dos lugares mais remotos do planeta. Com o auxílio de balões que coletaram amostras do ar, descobriram que a quantidade do poluente cresceu 2,6% em seis anos no continente gelado. É a primeira vez que um gás causador do efeito estufa aumenta a ponto de influenciar a qualidade do ar nos pólos.

NASA

AP
Ameaça à cidade dos canais
A frágil Veneza atravessou os séculos convivendo com inundações e erosão. Nunca o problema foi tão grave quanto agora. Calcula-se que as águas em torno da cidade alcancem o ritmo de elevação de 6 milímetros por ano. O solo instável cedeu uma dezena de centímetros nas últimas décadas. A Praça de São Marcos, símbolo da cidade, era inundada dez vezes por ano no início do século XX. Hoje (foto menor) chega a enfrentar sessenta enchentes anuais.

Esse saldo, resultado do desequilíbrio entre o que é emitido e o que é absorvido pela natureza, cria a condição básica para o fenômeno chamado de efeito estufa. O excedente de fumaça e de partículas na atmosfera atua como uma cúpula – que, além do CO2, é composta de metano e enxofre, entre outros gases. Essa cobertura é que impede que parte do calor recebido do Sol seja refletida para o espaço – assim como em uma estufa o vidro deixa passar a luz do Sol mas impede a saída do calor.

Segundo as contas do físico e astrônomo James Hansen, diretor do Instituto Goddard, da Nasa (a agência espacial americana), essa sobrecarga de calor é de cerca de 1 watt por metro quadrado. Isso equivale a manter acesa por 150 anos, em cada metro quadrado da superfície do planeta, uma lâmpada de enfeite de Natal. Parece pouco, mas não é. "Os estudos da história do clima mostram que pequenas forças, mantidas por muito tempo, podem causar grandes mudanças", explica Hansen. A maior parte do coeficiente energético gerado pelas "lâmpadas" de Hansen é absorvida pelo mar. Medições do oceanógrafo Sydney Levitus, do serviço de meteorologia americano, mostram que a quantidade de calor nos oceanos aumentou 10 watts por metro quadrado nos últimos cinqüenta anos. Levitus afirma que, mesmo que se venham a reduzir as emissões e controlar o efeito estufa, a atmosfera terrestre continuará esquentando por no mínimo 100 anos, devido à absorção do calor emitido pelos oceanos. É que, assim como a água demora para se aquecer, também demora para perder calor. As conseqüências são facilmente imagináveis. "A elevação de apenas 1 grau onde a temperatura era zero significa que, ali, tudo o que é gelo vai derreter e fazer aumentar a quantidade de água escorrendo para os oceanos", lembra o físico Edmo Campos, coordenador do Laboratório de Modelagem dos Oceanos, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Para completar, como qualquer corpo aquecido, o mar se expande. Esse fenômeno, combinado com mais água, faz avançar as marés. O que se vê agora, para muitos cientistas, é apenas o começo de uma tendência que vai se agravar ao longo das décadas.



 

 

NESTA EDIÇÃO
O clima está mudando rapidamente
As transformações em todo o planeta
Os limites da exploração de recursos naturais
O paradoxo da abundância
Cada um destes incêndios tem 15 km²
O mar está perdendo fôlego
1 000 toneladas de lixo por segundo
Artigo: O que o El Niño pode nos ensinar
Entrevista: David King
Até onde o homem contribui para a degradação
O que os cientistas dizem sobre o futuro
Como podemos melhorar esse cenário
A solução chamada transgênicos

 

 
 
 
 
topovoltar