Edição 1885 . 22 de dezembro de 2004

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Roberto Pompeu de Toledo
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Retrospectiva 2004: Morreram

RONALD REAGAN
(93 ANOS) POLÍTICO

A maior conquista atribuída ao presidente americano Ronald Reagan foi o nocaute econômico, tecnológico e moral da União Soviética, que resultou na derrota do comunismo e no conseqüente fim da Guerra Fria. Sua convicção de que governo demais atrapalha foi a tônica da política econômica nos anos que se seguiram a seu governo. (Em junho)

"Ronald Reagan, mais do que qualquer outro líder, pode reivindicar a vitória da liberdade na Guerra Fria. E ele fez isso sem que um único tiro fosse disparado."
Margaret Thatcher,
ex-primeira-ministra britânica

 

JANET LEIGH
(77 ANOS) ATRIZ

Estrela de épicos do cinema, como Sob o Domínio do Mal, de John Frankenheimer, foi Psicose que lhe deu fama, além da indicação para o Oscar e um Globo de Ouro. No filme de Alfred Hitchcock, a atriz americana protagonizou uma das cenas clássicas do suspense, em que expressou o terror de ser morta sob o chuveiro pelas facadas de um psicopata. Sua beleza encantadora foi registrada nesta foto de 1954. (Em outubro)

"Janet Leigh não foi apenas uma mulher incrivelmente linda, mas uma atriz maravilhosa. E era muito alegre, carinhosa e humana com todos. Uma atriz de classe."
Bruce Crawford,
historiador do cinema

 

NORBERTO BOBBIO
(94 ANOS) FILÓSOFO

O italiano Norberto Bobbio foi um dos grandes intelectuais do século XX. A partir dos anos 60 se tornou um expoente do socialismo democrático e teórico das instituições democráticas. Sua obra mais conhecida é O Futuro da Democracia. (Em janeiro)  

"A experiência do fascismo, a divisão ideológica da Guerra Fria e a transformação da sociedade italiana nos anos 60 e 70 o despertaram para a defesa apaixonada da ordem constitucional contra aqueles que lhe negavam relevância ou queriam subvertê-la à sua conveniência pragmática."
Richard Bellamy,
no jornal inglês The Guardian

 

HILDA HILST
(73 ANOS) ESCRITORA

Fernando Abrunhosa


A paulista Hilda Hilst publicou obras com forte teor erótico, como A Obscena Senhora D, e manteve a linha provocadora até o fim da vida. Na juventude, foi uma mulher que desafiava os preconceitos da época. A foto ao lado é de 1974, quando lançou os versos de Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (Em fevereiro)

"Hilda Hilst teve a coragem de virar a mesa e romper com o falso moralismo no Brasil. Isso, junto com sua obra, é suficiente para colocar seu nome na nossa literatura."
Moacyr Scliar,
escritor e membro da ABL

 

JORGINHO GUINLE
(88 ANOS) PLAYBOY

Chico Nelson


O mais famoso playboy do Brasil, o carioca Jorginho Guinle (fotografado aqui aos 63) viveu sem trabalhar, com exceção de breves experiências como modelo e como guia de turismo, no fim da vida. (Em março)

"Jorginho foi um dos últimos símbolos de charme, elegância e educação de um Rio mais tranqüilo, mais civilizado. Ele amou o Rio tanto quanto as mulheres que teve."
José Eduardo Guinle,

ex-presidente da Riotur

 

RAY CHARLES
(73 ANOS) CANTOR

Jorge Rosemberg


Ray Charles pertenceu a uma categoria rara de artista: a dos legítimos inventores. O gênero que ele forjou foi a soul music, e fez isso ao secularizar o gospel, ao transportar a vibração e o fervor das canções religiosas negras para o âmbito da música popular. Com seu piano endiabrado e sua peculiar voz rouca, o artista americano também deu nova energia a gêneros como o blues e o jazz. Em 1961 comemorou o sucesso de Hit the Road Jack. (Em junho)

"Era um homem fabuloso, cheio de talento e humor. Um artista colossal que desde cedo introduziu no mundo o canto secular do soul. Certamente o mundo da música sentirá sua falta. Ele foi a voz de seu tempo."
Aretha Franklin,
cantora

 

NINO MANFREDI
(83 ANOS) ATOR

O último grande comediante do período de ouro do cinema italiano, Nino Manfredi (em foto de 1971) formou-se na Academia de Arte Dramática de Roma. Atuou em clássicos como Nós que Nos Amávamos Tanto e Feios, Sujos e Malvados. Integrou, ao lado de Alberto Sordi e Vittorio Gassman, o seleto grupo dos reis do riso. (Em junho)

"Graças a suas habilidades artísticas e a sua criatividade, Nino Manfredi conseguiu alternar suas atividades como ator, autor e diretor, retratando a evolução da sociedade italiana com ironia e sabedoria."
Carlo Azeglio Ciampi, presidente da Itália

 

FRANÇOISE SAGAN
(69 ANOS) ESCRITORA

Aos 19 anos (foto), a romancista francesa publicou o best-seller Bom Dia, Tristeza, um clássico do niilismo da geração do pós-guerra, que provocou escândalo pela abordagem franca da sexualidade adolescente. (Em setembro)

"Com a morte de Françoise Sagan, a França perde uma de suas mais brilhantes autoras, uma eminente figura da vida literária."
Jacques Chirac,
presidente francês

 

LEONEL BRIZOLA
(82 ANOS) POLÍTICO

Irmo Celso


Populista e nacionalista, o gaúcho Leonel Brizola era um homem com idéias fora do lugar e fora de época. Mas que isso não manche sua reputação pessoal. Ele sempre esteve acima das médias de inteligência e honestidade de seus pares. Exilado depois do golpe de 64, voltou ao Brasil em 1979 (foto) para marcar, com seu estilo mordaz, a política nacional e sobretudo a carioca. (Em junho)

"A morte de Leonel Brizola é uma grave perda para toda a família do socialismo internacional e para todos os democratas. Foi um expoente de grande popularidade e indiscutível expressão, que soube combinar o valor da social-democracia com o nacionalismo brasileiro."
Vittorio Craxi,
deputado do Partido Socialista Italiano

 

FRANCIS CRICK
(87 ANOS) CIENTISTA

Quando sugeriu, em 1953, uma estrutura para a molécula do DNA, o cientista britânico Francis Crick anunciava uma das mais notáveis revoluções científicas do século XX. Em 1962, Crick ganhou o Prêmio Nobel de Medicina por seus trabalhos na Universidade de Cambridge, ao lado do americano James Watson e do neozelandês Maurice Wilkins, cujo resultado deu origem à genética moderna. (Em julho)

"Francis Crick será lembrado como um dos cientistas mais brilhantes e influentes de todos os tempos."
Richard Murphy,
presidente do Instituto Salk

 

PETER USTINOV
(82 ANOS) ATOR

Ator, diretor, produtor e roteirista, o inglês Peter Ustinov foi vencedor de dois Oscar por sua atuação em Spartacus, de 1960, e Topkapi, de 1964. Entre seus papéis de destaque em sessenta anos de carreira e 83 filmes estão o do imperador Nero em Quo Vadis? e o do detetive Charlie Chan, de 1981. Era também embaixador do Unicef. (Em março)  

"Ele tinha essa grande excentricidade, podia dizer um texto muito tedioso com uma sutileza que o fazia ficar interessante. Um grande contador de histórias, é claro, e totalmente irascível."
Michael Winner, diretor

 

MARLON BRANDO
(80 ANOS) ATOR

Divulgação/Columbia Pictures


Marlon Brando era um gênio sem rédeas, e por isso mesmo viveu uma vida alucinada, que se confundiu por vezes com o rebelde de O Selvagem. O americano encarnou como ninguém as dúvidas e incertezas da geração do pós-guerra. Excêntrico e imprevisível, o maior ator da história do cinema chegou ao fim da vida obeso e psicologicamente instável. Morreu sem deixar herdeiros artísticos. Marlon Brando era único. (Em julho)

"Ao morrer, Marlon Brando se tornou imortal. No set de O Último Tango em Paris, toda a equipe ficou totalmente hipnotizada por sua presença. Nenhum deles jamais havia estado diante de uma lenda."
Bernardo Bertolucci, cineasta italiano

 

CHRISTOPHER REEVE
(52 ANOS) ATOR

Warner Bros


Christopher Reeve interpretou o Super-Homem em quatro filmes. O ator americano ficou tetraplégico em 1995, ao cair de um cavalo. Desde então, dirigia sua própria fundação de caridade e liderava campanhas pela legalização da pesquisa com células-tronco de embriões humanos. (Em outubro)

"Ele foi uma inspiração para todos nós e deu esperanças a milhões de americanos que acreditam que a pesquisa e a ciência podem salvar vidas."
John Kerry, senador democrata americano

 

YASSER ARAFAT
(75 ANOS) POLÍTICO

AFP


No intrincado cenário do conflito no Oriente Médio, nenhuma figura teve mais impacto que Yasser Arafat, o homem que moldou uma causa e uniu os palestinos em torno dela. (Em novembro)

"Ao assinar o acordo de Oslo, em 1993, Arafat deu um passo enorme rumo à realização de seu sonho. É trágico que não tenha vivido para ver isso acontecer."
Kofi Annan,
secretário-geral da ONU

 

 

JACQUES DERRIDA
(74 ANOS) FILÓSOFO

O francês Jacques Derrida, fotografado aqui em 1985, foi o criador da teoria da desconstrução, que causou furor nos departamentos de ciências humanas a partir dos anos 60. Baseado em leituras idiossincráticas dos textos filosóficos e literários, o desconstrucionismo foi visto por muitos como um amontoado de absurdos e, nos Estados Unidos, ajudou a lançar a voga do politicamente correto. Apesar das muitas polêmicas, Derrida manteve a reputação de pensador original e independente. (Em outubro)

"Derrida teve uma enorme, embora não incontestável, influência no estudo literário na última metade do século XX. Embora não gostasse do termo filósofo, foi um dos mais importantes pensadores de seu tempo."
Do jornal inglês The Times

 

FERNANDO SABINO
(80 ANOS) ESCRITOR

Pedro Henrique


Do grupo de escritores mineiros que inclui Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, Fernando Sabino (em foto de 1970) pintou, em seu romance O Encontro Marcado, um retrato daquela geração. Foi um cronista inimitável e um dos autores mais populares do país. (Em outubro)

"Teve uma vida exemplar, voltada para sua vocação literária. Foram sessenta anos devotados à literatura brasileira. É impressionante como, tão jovem, sintetizou no livro O Encontro Marcado os desejos de uma geração inteira."
Nélida Piñon, escritora

 

HELMUT NEWTON
(83 ANOS) (FOTÓGRAFO)

Poucos souberam retratar em preto-e-branco o corpo da mulher como o fotógrafo alemão Helmut Newton, aqui em retrato de 1979. De origem judaica, ele deixou Berlim, em 1938, fugindo do nazismo, para se tornar um dos mestres da fotografia de moda. Publicou imagens de modelos e atrizes como Kim Basinger em revistas como Vogue, Playboy e Elle. (Em janeiro)  

"Ele foi um gigante. O talento maior, que expandiu os limites da fotografia e influenciou muitos outros profissionais das novas gerações."
Hugh Hefner, fundador da Playboy

 

RICHARD AVEDON
(81 ANOS) FOTÓGRAFO

AFP


Um dos mais importantes fotógrafos do século XX, o americano Richard Avedon celebrizou-se pelas fotos de moda, mas sua obra também incluía retratos de celebridades e anônimos e grandes reportagens. No auge da carreira, surpreendia pelos ângulos e cortes inusitados de suas imagens, todas elas cuidadosamente planejadas. Avedon mudou a cara da fotografia moderna. (Em outubro)

"A morte de Richard Avedon representa o encerramento de um capítulo na história da fotografia. Quem morre, afinal, é um símbolo da modernidade na fotografia: alguém que ousou questionar, de uma forma radical, cânones e verdades estabelecidas."
Henrique Marques-Samÿn, filósofo e ensaísta

 

HENRI CARTIER-BRESSON
(95 ANOS) FOTÓGRAFO

O francês Cartier-Bresson ficou conhecido como "o olho do século XX". Ele ajudou a criar o que hoje se conhece como fotojornalismo e foi um dos fundadores da agência Magnum, que produziu imagens célebres de guerras e eventos políticos. Como poucos, Cartier-Bresson soube tirar riqueza e significado de cenas do dia-a-dia, além de ter gravado retratos icônicos de artistas como Henri Matisse. (Em agosto)

"Cartier-Bresson registrou imagens de alguns dos mais extraordinários momentos do século XX, como a Guerra Civil Espanhola, a libertação de Paris e o funeral de Mahatma Gandhi. Ao mesmo tempo, registrou eventos do cotidiano, nos quais capturou a essência da própria vida."
Da revista inglesa The Economist

 
 
 
 
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