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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo O
irresistível charme da guerra civil
Os
conselhos de um sábio americano
para o Iraque e o que seus argumentos representam para o Brasil
Feliz do país que pode revigorar-se nessa saudável, criativa e depuradora
atividade que é a guerra civil. Não foi com essas palavras que o
americano Edward Luttwak, reputado especialista em questões militares,
se expressou, em entrevista publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo
(na edição do domingo 12), mas elas não estão longe
de lhe traduzir o pensamento. O repórter Lourival Sant'Anna pergunta, no
ponto mais interessante da entrevista, se a retirada americana do Iraque não
mergulhará o país na guerra civil. Luttwak responde: "Guerras civis
são boas para separar populações e estabelecer a paz civil.
Os americanos e os britânicos tiveram suas guerras civis. Agora, os iraquianos
vão ter a sua". Obrigado, doutor Luttwak,
pela franqueza. O senhor é a favor de os Estados Unidos caírem fora
quanto antes do melê iraquiano, e já há algum tempo, para
combater o principal argumento contrário, vem enaltecendo as virtudes da
guerra civil. Um artigo recente de sua autoria no inglês Daily Telegraph
tinha um título que já dizia tudo: "Guerra civil: a única
maneira de trazer a paz ao Iraque". Num trabalho anterior, o senhor havia condenado
a persistência americana em entregar-se a "fúteis combates contra
facções que, em vez disso, deveriam estar se confrontando umas contra
as outras". Luttwak lembra o Doutor Fantástico,
aquele que, segundo o subtítulo do famoso clássico do cinema, "deixou
de se preocupar e passou a amar a bomba". Os acadêmicos que, como ele, escolheram
o caminho de passar a vida pensando em guerras sempre têm um quê de
Doutor Fantástico. Eles escrevem livros e prestam serviços a órgãos
governamentais recomendando um bombardeio aqui, uma invasão ali, ou, como
agora é o caso, uma guerra civil acolá. Mas não sejamos assim
tão óbvios. Tiremos o Doutor Fantástico do caminho. A argumentação
de Luttwak é na verdade preciosa primeiro pelo que revela da situação
dos americanos no Iraque, e segundo porque toca num mito que diz respeito inclusive
ao Brasil. Quanto ao primeiro ponto, o que Luttwak
revela é o estado irremediável da posição dos EUA
no Iraque. Para começar, falar em "risco" de guerra civil soa a piada.
Se já não é guerra civil o que se passa por lá, é
o quê? A questão é tirar os americanos do meio. Para evitar
a humilhação de uma retirada total, a proposta de Luttwak
e de um crescente número de pessoas em Washington é retirar-se
dos centros habitados e recolher-se a posições no deserto, a fim
de manter alguma presença inibidora. Eis o grande achado: os americanos
passariam da posição de partícipes para a de espectadores
da guerra civil, em lugares tão privilegiados como os dos romanos ilustres
no Coliseu, para ver os gladiadores se trucidar. Não é que a guerra
civil seja recomendável, como quer Luttwak. Ela foi, desde sempre, inevitável.
A alternativa seria chamar Saddam Hussein de volta para reenquadrar o país,
mas isso é pouco recomendável, dada a reputação desse
cavalheiro. O que no fundo Luttwak está dizendo é que, se a guerra
civil é inevitável, então relaxemos, gozemos e, como o Doutor
Fantástico (vá lá: é a última vez que invocamos
tão deplorável personagem), aprendamos a amá-la.
O segundo ponto que ressalta das posições de Luttwak é o
argumento ou melhor, o mito da guerra civil como força revitalizadora
das nações. A tese nos é familiar. A suposta "conciliação"
que teria caracterizado a história do Brasil seria um dos males que danaram
o país. Se ao menos nos tivéssemos trucidado uns aos outros, em
certos momentos, se nos tivéssemos arrancado a pele, mordido as mandíbulas
e torcido os pescoços... Não faltaram pequenas guerras, na história
brasileira, e a violência nos acompanha desde sempre. Mas faltou aquele
enfrentamento amplo, geral, definitivo e definidor às vezes chamado
de revolução que premia os povos com uma nova aurora.
Assim corre o mito. Contra ele, para ficar nos casos citados por Luttwak, ainda
está para ser provado ou melhor, nunca será provado
que os Estados Unidos e a Inglaterra são o que são por causa das
respectivas guerras civis. Se a guerra civil fosse realmente tudo isso de bom,
a África seria o mais feliz dos continentes. Agora mesmo transcorre uma
no Sudão, envolvendo a região de Darfur. Pela teoria de Luttwak,
é de esperar que do conflito saia um Sudão mais saudável,
com as populações separadas e a paz civil instaurada. Ocorre que
esta é a terceira guerra civil no Sudão, e nada de esse impenitente
país deixar-se purificar pelo sangue derramado. Nada de abraçar
a trilha de justiça e de progresso aberta pela luta fratricida. Desculpe,
doutor Luttwak, o senhor é muito instruído e é muita pretensão
querer ensinar-lhe qualquer coisa, mas a única certeza com que acena uma
guerra civil é a própria guerra civil. Ou seja: a matança,
a doença, a invalidez, a viuvez e a orfandade. Se um país sai dela
mais forte e no bom rumo é questão aberta a todas as apostas e todos
os acasos. |