|
|
Televisão
Vitória do nonsense Cobras
& Lagartos não tinha pé
nem cabeça. Mas o público gostou  Marcelo
Bortoloti
Fotos
divulgação
 | | Carolina
Dieckmann: sucesso em seu primeiro papel de vilã |
Quem
assistiu a Cobras & Lagartos sabe o risco que era perder um ou dois
capítulos. A trama poderia virar de cabeça para baixo nesse meio-tempo.
No intervalo de uma semana o mocinho virava bandido, uma milionária ficava
pobre e passava a trabalhar para sua empregada, um morto ressuscitava ou um pai
de quatro filhos descobria que era estéril. A novela, encerrada no último
sábado, ganhou de seu autor, João Emanuel Carneiro, um enredo completamente
enlouquecido. Aliás, nem se pode falar exatamente de enredo numa estrutura
que mais se aproximava à de um programa de humor, com esquetes independentes.
Mas funcionou. A trama começou com 31 pontos no Ibope, saltou para 37 pontos
no quarto mês, e no último já tinha 43 pontos de média,
num horário que raramente atinge índices superiores a 40. "Foi uma
novela inquieta, com texto rápido para despertar a atenção
do espectador. Um nonsense com pé no realismo", define João Emanuel
Carneiro.
 | | Marília
Pêra, como a socialite Milu: "deboche até o final" |
Cobras & Lagartos tinha um desafio a vencer. Deveria
apagar o incêndio causado por Bang Bang, a novela anterior, cujo
fiasco estava prejudicando até a audiência do Jornal Nacional.
João Emanuel garante que a emissora lhe deu liberdade total para desenvolver
a história da maneira que quisesse. E, num mesmo saco, juntou personagens
exageradamente ambiciosos, humor rasgado, clichês românticos, belas
mulheres e temática social. Sua parcela de sorte foi ter acertado em cheio
na escolha do elenco. A começar por Lázaro Ramos, que fez sua estréia
em novelas. Seu personagem, Foguinho um negro de bigodes louros ,
conseguiu encarnar um herói sem caráter surpreendentemente original
para a TV. Carolina Dieckmann, no seu primeiro papel de vilã, e Marília
Pêra, a extravagante socialite Milu, também deram combustível
à trama maluca do autor. "A novela funcionou porque não se traiu.
Tinha uma coisa de deboche, de infame, que foi levada até o final", diz
João Emanuel, de 36 anos, que estreou como autor com a bem-sucedida Da
Cor do Pecado. A Rede Globo já
amargou fracassos em suas novelas do horário das 7. As Filhas da Mãe,
de Silvio de Abreu, e Bang Bang, de Mario Prata, são exemplos clássicos.
As duas introduziram uma fórmula nova na dramaturgia, seja com histórias
de caubói, seja com uma narrativa entrecortada de música rap. E
ambas assustaram a emissora, com uma audiência menor do que 25 pontos, resultado
bem abaixo da média tradicional do horário. A justificativa dos
autores foi que o espectador é resistente a qualquer formato fora dos padrões,
principalmente na faixa das 19 horas, que reúne no sofá um público
conservador. Cobras & Lagartos teve uma linha narrativa igualmente
estranha, mas conseguiu elevar a audiência das 7 a um patamar de horário
nobre. Seu mérito é duplo: além de cativar os espectadores,
provou à Rede Globo que o formato ou a linguagem alternativa não
interferem tanto na aceitação do público. O que não
emplaca mesmo é novela ruim. |