'
 


    

 
Edição 1983 . 22 de novembro de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
VEJA.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
Vitória do nonsense

Cobras & Lagartos não tinha pé
nem cabeça. Mas o público gostou


Marcelo Bortoloti

Fotos divulgação
Carolina Dieckmann: sucesso em seu primeiro papel de vilã

Quem assistiu a Cobras & Lagartos sabe o risco que era perder um ou dois capítulos. A trama poderia virar de cabeça para baixo nesse meio-tempo. No intervalo de uma semana o mocinho virava bandido, uma milionária ficava pobre e passava a trabalhar para sua empregada, um morto ressuscitava ou um pai de quatro filhos descobria que era estéril. A novela, encerrada no último sábado, ganhou de seu autor, João Emanuel Carneiro, um enredo completamente enlouquecido. Aliás, nem se pode falar exatamente de enredo numa estrutura que mais se aproximava à de um programa de humor, com esquetes independentes. Mas funcionou. A trama começou com 31 pontos no Ibope, saltou para 37 pontos no quarto mês, e no último já tinha 43 pontos de média, num horário que raramente atinge índices superiores a 40. "Foi uma novela inquieta, com texto rápido para despertar a atenção do espectador. Um nonsense com pé no realismo", define João Emanuel Carneiro.

Marília Pêra, como a socialite Milu: "deboche até o final"

Cobras & Lagartos tinha um desafio a vencer. Deveria apagar o incêndio causado por Bang Bang, a novela anterior, cujo fiasco estava prejudicando até a audiência do Jornal Nacional. João Emanuel garante que a emissora lhe deu liberdade total para desenvolver a história da maneira que quisesse. E, num mesmo saco, juntou personagens exageradamente ambiciosos, humor rasgado, clichês românticos, belas mulheres e temática social. Sua parcela de sorte foi ter acertado em cheio na escolha do elenco. A começar por Lázaro Ramos, que fez sua estréia em novelas. Seu personagem, Foguinho – um negro de bigodes louros –, conseguiu encarnar um herói sem caráter surpreendentemente original para a TV. Carolina Dieckmann, no seu primeiro papel de vilã, e Marília Pêra, a extravagante socialite Milu, também deram combustível à trama maluca do autor. "A novela funcionou porque não se traiu. Tinha uma coisa de deboche, de infame, que foi levada até o final", diz João Emanuel, de 36 anos, que estreou como autor com a bem-sucedida Da Cor do Pecado.

A Rede Globo já amargou fracassos em suas novelas do horário das 7. As Filhas da Mãe, de Silvio de Abreu, e Bang Bang, de Mario Prata, são exemplos clássicos. As duas introduziram uma fórmula nova na dramaturgia, seja com histórias de caubói, seja com uma narrativa entrecortada de música rap. E ambas assustaram a emissora, com uma audiência menor do que 25 pontos, resultado bem abaixo da média tradicional do horário. A justificativa dos autores foi que o espectador é resistente a qualquer formato fora dos padrões, principalmente na faixa das 19 horas, que reúne no sofá um público conservador. Cobras & Lagartos teve uma linha narrativa igualmente estranha, mas conseguiu elevar a audiência das 7 a um patamar de horário nobre. Seu mérito é duplo: além de cativar os espectadores, provou à Rede Globo que o formato ou a linguagem alternativa não interferem tanto na aceitação do público. O que não emplaca mesmo é novela ruim.

 
 
 
 
topovoltar