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Edição 1983 . 22 de novembro de 2006

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Arte
Testados e aprovados

Confirmada a autenticidade de obras
perdidas de Fra Angelico e Caravaggio


Anna Carolina Mello

 

AP
O novo Caravaggio da rainha Elizabeth: achavam que fosse uma cópia

Nas últimas décadas, um novo tipo de pesquisador despontou no mundo das artes. Munido de equipamentos de raios X e laudos de laboratório, e envolvido em buscas detetivescas, ele às vezes faz pensar no seriado policial CSI. O personagem existe porque a história da arte é uma disciplina muito mais contenciosa e sujeita a surpresas do que se poderia imaginar: há centenas de obras-primas que estão desaparecidas, e outras cuja autoria é duvidosa e só pode ser estabelecida por meio de estudos detalhados. Duas notícias põem isso em evidência. No último dia 10, um quadro do pintor barroco italiano Caravaggio (1571-1610) foi autenticado, depois de ser considerado uma cópia durante décadas. Ele apanhava poeira nos depósitos da coleção de arte da rainha Elizabeth II e foi submetido a seis anos de análise técnica antes de ser dado como original. Na terça-feira, anunciou-se a descoberta de dois painéis do renascentista italiano Fra Angelico (1387-1455), perdidos há mais de 200 anos. Eles foram encontrados numa casa modesta de Oxford, também na Inglaterra.

Recém-lançado pela editora Intrinseca, o livro O Quadro Perdido, do americano Jonathan Harr, dá uma idéia do tipo de aventura em que pode se transformar a busca por uma pintura. Ele fala de um outro Caravaggio, A Traição de Judas, atualmente na Galeria Nacional de Dublin. A tela foi encontrada no começo dos anos 90. Os franciscanos que a possuíam não tinham idéia do tesouro que estava pendurado sobre sua lareira. A comprovação da autoria foi um processo delicado, que só se tornou possível graças a documentos levantados em arquivos antigos e, em última análise, ao exame químico das tintas do quadro. "Cada época usou matérias-primas diferentes para obter seus pigmentos. Detalhes como esses podem decidir se um quadro é ou não de um pintor", diz o professor de história da arte Renato Brolezzi. A autenticação do novo Caravaggio, O Chamado dos Santos Pedro e André, e dos painéis de Fra Angelico requereu o mesmo tipo de estudo em laboratório.

O "caso Fra Angelico" é um exemplo de como a história conturbada da Europa dispersou obras de arte. Originalmente, os painéis faziam parte de um retábulo do mosteiro de São Marco, em Florença. Durante as guerras napoleônicas, a obra foi dividida. Seis partes haviam sido recuperadas. Faltavam as duas que ressurgiram na Inglaterra. Propriedade dos herdeiros de uma arquivista, que os comprou de boa-fé num antiquário americano por 6 dólares, nos anos 60, elas serão leiloadas com o lance mínimo de 1,8 milhão de dólares. Estima-se que o Caravaggio da rainha Elizabeth valha mais de 90 milhões de dólares. Mas ele não pode ser vendido, pois pertence a ela em nome da nação inglesa.

 
 
 
 
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