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Cultura Emir,
o mártir Condenado pela Justiça,
o sociólogo Emir Sader conclama os camaradas. Mas um deles pergunta:
o que é isso, companheiro?
Fotos
Alaor Filho/AE e Fabio Motta/AE
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(mais à esquerda) e Sader: as marcas da história são indeléveis
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"Qualquer um que passe os olhos
pelos textos preparados por Emir Sader poderá reconhecer sem dificuldades
que eles transitam da nulidade à insignificância. Alguns, por excesso
de raquitismo, chegam a ser ofensivos à inteligência alheia."
César Benjamin,
cientista político | | O
sociólogo petista Emir Sader é um personagem que a esquerda brasileira
quer entronizar no seu panteão de mártires. Não que ele tenha
caído numa ação armada em prol da causa proletária.
Os tempos são outros, hão de reconhecer os companheiros. Graças
às salvaguardas da democracia burguesa, o nicho dedicado a Sader deverá
ficar, supõe-se, a meio caminho entre o de José Dirceu e o de Delúbio
Soares. Para quem chegou agora a esta página da história nacional,
um resumo: em meio à crise do mensalão, perguntaram ao senador Jorge
Bornhausen, do PFL, se ele não estava desencantado com a situação
política do país. "Desencantado? Pelo contrário. Estou é
encantado, porque estaremos livres dessa raça pelos próximos trinta
anos", respondeu Bornhausen, num desabafo que se mostraria otimista demais em
relação ao PT. Tomado de ímpetos de presidente de diretório
acadêmico (coração de estudante pode ser um perigo), Sader
escreveu um artigo no site da Agência Carta Maior, no qual chamou o senador
de "racista" e "assassino", entre outras amabilidades. Bornhausen, então,
o processou por injúria. No fim de outubro, o sociólogo foi condenado
a um ano de detenção em regime aberto e a perder o cargo de professor
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Por ser réu primário,
a pena foi convertida pelo próprio juiz em serviços comunitários.
Comunitários, não comunistas, o que deverá ser um pouco mais
complicado para o réu, caso ele seja obrigado a cumpri-la.
Como não estamos em Cuba, Sader, é claro, pode recorrer da sentença
em primeira instância. Mas seus amigos e colegas de partido, para gáudio
e orgulho do próprio interessado, partiram para a pressão sobre
a Justiça, na tentativa de reverter a decisão no grito. Lançaram
um manifesto com milhares de assinaturas e andam a escrever artigos indignados,
numa prova impressionante de como essa raça tem tempo ("raça" na
acepção nove do Aurélio, bem entendido, a mesma usada
por Bornhausen). A balbúrdia, porém, acabou trazendo à luz
um episódio que macula a biografia do mártir da sociologia petista-fidelista.
Ele foi revelado na semana passada pelo editor da Folha de S.Paulo Fernando
de Barros e Silva e esmiuçado pelo blog de Reinaldo Azevedo. O episódio
contrapõe Sader a um ícone da esquerda nacional, César Benjamin,
candidato a vice-presidente na chapa da senadora Heloísa Helena. Benjamin
acusa Sader de superfaturar um livro financiado por uma instituição
alemã, em 2004. As marcas da
história são as seguintes: Benjamin recebeu uma verba generosa
100 000 euros da Fundação Rosa Luxemburgo, dedicada à
divulgação internacional do "socialismo democrático". Encaminhou
metade do dinheiro ao MST e empregou o resto em um projeto de pesquisa e análise
da economia e da política brasileiras. Convidou Sader e sua equipe do Laboratório
de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
a participarem do projeto. Aí surgiram os problemas: bem treinado nas artes
do bolchevismo, Sader acabou tomando o lugar de Benjamin na coordenação
do projeto. Quando surgiu a idéia de publicar um livro coletando as análises
do grupo, com o título Governo Lula Decifrando o Enigma,
o sociólogo teria escanteado a editora Contraponto, de Benjamin, para abrir
uma licitação fajuta na qual venceu a Boitempo, editora de sua namorada,
Ivana Jinkings, que levou perto de 30.000 reais para fazer um livro que não
custaria mais de 10.000. Houve inflamadas trocas de e-mails. Num deles, endereçado
a Ivana, Benjamin escreveu: "A licitação que você e Emir aprontaram
foi uma fraude montada para desviar recursos da Fundação. Qualquer
averiguação mostrará isso sem dificuldade. Tenho comigo a
mensagem em que Emir combina com você a fraude". E tem mesmo: Sader mandou
por engano uma cópia do e-mail comprometedor para Benjamin. O qüiproquó,
por iniciativa de Ivana e testemunho de seu namorado, foi parar na Justiça
a Justiça burguesa que condenou Sader. "Qualquer
um que passe os olhos pelos textos preparados por Emir Sader poderá reconhecer
sem dificuldades que eles transitam da nulidade à insignificância.
Alguns, por excesso de raquitismo, chegam a ser ofensivos à inteligência
alheia", escreveu Benjamin em outro e-mail. Entrevistado por VEJA, ele contou
mais: "Certa vez, ao editar um texto do Emir, eu deparei com o nome de Getúlio
Vargas escrito com "lh". Não uma ou duas vezes, mas mais de dez. Não
era erro de digitação. Fico imaginando se o texto fosse sobre Juscelino
Kubitschek. Ele ia precisar de um pós-doutorado só para escrever
isso certo". Ou seja, a julgar pelo relato do desafeto de Sader, caso o mártir
sociólogo se veja obrigado a abandonar a universidade, o ensino público
superior dará um salto qualitativo. |