'
 


    

 
Edição 1983 . 22 de novembro de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
VEJA.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
O papagaio de Verissimo

Uma comédia que mistura Shakespeare
e Flaubert – e que é narrada por uma ave


Rinaldo Gama

Agência RBS
Verissimo: inspirado por Noite de Reis
EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro


Escrita por William Shakespeare, provavelmente em 1601, a peça Noite de Reis é uma obra-prima da comédia romântica. É ela que inspira A Décima Segunda Noite (150 páginas; 28,90 reais), o novo livro de Luis Fernando Verissimo, feito sob encomenda para a coleção Devorando Shakespeare, da editora Objetiva. Foi o próprio Verissimo que escolheu Noite de Reis quando aceitou o desafio de recriar um trabalho shakespeariano. "Eu me lembrei do final do filme Shakespeare Apaixonado, quando ele começa a escrever a peça pensando na amada que perdeu, e quis falar de escritores apaixonados por suas personagens", disse a VEJA.

Quem narra o romance de Verissimo é um papagaio. Henri é francês, de Paris, onde se passa a ação do livro. Não se limita a repetir o que lhe ensinam: ele conversa. Sabe português porque teve donos brasileiros, contudo deixa às vezes escapar frases inteiras no idioma de Gustave Flaubert. Aliás, "entende" de Flaubert – o que permite digressões divertidas sobre o escritor francês (que deu papel central a um pássaro da mesma espécie no conto Um Coração Simples) e outras brincadeiras literárias.

Henri desfia o enredo do livro porque virou enfeite de um salão de beleza – núcleo da trama – decorado com "motivos brasileiros". Pintado de verde e amarelo para esconder a plumagem cinza, o papagaio sente que está sendo envenenado pelas camadas de tinta e grava preocupado o testemunho da comédia de erros que presenciou. Seguindo de perto a trama de Noite de Reis, Verissimo põe em cena um casal de gêmeos, Sebastião e Violeta, que aterrissa na capital francesa para tentar a vida e é separado no aeroporto (na peça de Shakespeare, Sebastian e Viola se perdem num naufrágio). As confusões começam quando a bela Violeta – por quem Henri se apaixona – tem de se disfarçar de homem para conseguir emprego no salão.

Dono de um estilo lapidado e de uma irresistível ironia, Verissimo empenha-se para que seu humor – reforçado pelo de Shakespeare – não se perca, mesmo quando a arte de escrever está no centro das atenções da narrativa. Bom exemplo é a passagem na qual Henri fica sabendo que um de seus antigos proprietários, candidato a romancista, se tornou professor. Sarcástico, ele bica: "É professor? De quê? De literatura, claro. Como não conseguia escrever, ensina como se faz".

 
 
 
 
topovoltar