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Livros Grisham
no corredor da morte Em seu primeiro
livro de não-ficção, o autor de thrillers jurídicos
conta a história de um inocente condenado à execução
 Jerônimo
Teixeira James
Estrin/The New York Times
 | | John
Grisham: contra a pena máxima |
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Em 1976, quando
a pena de morte voltou a vigorar nos Estados Unidos, houve um acalorado debate
legislativo em Oklahoma para determinar qual seria a melhor forma de execução.
O estado conquistou a glória duvidosa de ser o primeiro no país
a adotar oficialmente a injeção letal, método considerado
mais "humano" do que a cadeira elétrica, o fuzilamento ou a câmara
de gás. O ex-jogador de beisebol Ronald Williamson esteve muito perto da
agulha. O dia de sua morte foi marcado para 27 de setembro de 1994. A menos de
um mês da data, uma corte federal revisou o seu caso e suspendeu a execução.
Alcoólatra, com graves problemas mentais e dado a pequenos trambiques,
Ron, como era conhecido pelos amigos, estava muito longe de ser uma personalidade
modelar mas tampouco era um assassino. Sua condenação foi
resultado de uma conjunção de falhas judiciais. A triste história
de Ron foi reconstituída com um detalhismo exaustivo pelo americano John
Grisham, 51 anos autor de consagrados thrillers jurídicos como O
Cliente , em seu primeiro livro de não-ficção,
O Inocente (tradução de Pinheiro de Lemos; Rocco;
384 páginas; 45 reais). A obra é uma reportagem duramente objetiva,
com poucos vôos ensaísticos e quase nenhuma opinião explícita
do autor. A história narrada por Grisham, porém, é um argumento
poderoso para os que acreditam que a pena capital é incompatível
com qualquer padrão civilizado de justiça.
Grisham só tomou conhecimento do caso ao ler o obituário de Ron
no The New York Times, em 2004 (o ex-condenado morreu em liberdade, de
cirrose hepática). "Nem em meu momento mais criativo eu poderia conceber
uma história tão rica", diz o escritor no final do livro. Apesar
dessa rica história, O Inocente demora para engrenar. No primeiro
capítulo, o tom de relatório policial despe de qualquer emoção
o crime violento que seria atribuído a Ron o estupro e assassinato
de Debbie Carter, uma garçonete de 21 anos. O leitor brasileiro, para quem
as estatísticas do beisebol podem soar esotéricas, vai se aborrecer
com o segundo capítulo, no qual se resume a medíocre carreira esportiva
de Ron. Mas, a partir do momento em que o caso entra nos tribunais, Grisham está
no seu território. Ele demonstra como o sistema judiciário pode
ser pervertido pela má-fé e pela negligência de seus profissionais.
O assassinato foi cometido em Ada,
cidade de 16.000 habitantes no interior de Oklahoma, em 1982. Embora ninguém
jamais houvesse visto Ron na companhia da vítima, ele foi o bode expiatório
perfeito para uma polícia truculenta sob a pressão de apresentar
resultados qualquer resultado, mesmo falso. Dennis Fritz, professor de
uma escola secundária e amigo de Ron, também se viu implicado injustamente.
Foi condenado à prisão perpétua. O caso no tribunal se baseou
em evidências fajutas e depoimentos de criminosos coagidos pela polícia.
Ironicamente, o verdadeiro assassino de Debbie foi uma das ilibadas testemunhas
de acusação. A facilidade com que o júri popular se deixou
persuadir por argumentos claudicantes é assustadora.
Ron ficaria confinado por mais de dez anos no corredor da morte da penitenciária
de McAlester, conhecida entre os presos como o Big Mac. Foi inocentado em 1999,
junto com Fritz, graças a testes de DNA, que não existiam na época
do primeiro julgamento. Os dois ganharam uma ação milionária
de reparação contra o estado de Oklahoma. É pouco perto do
que passaram. A descrição do cotidiano no corredor da morte, com
sua espera angustiante por recursos judiciais que se arrastam por anos, está
entre as páginas mais envolventes e tétricas do livro.
Não existe parâmetro humano pelo qual o sofrimento psicológico
imposto aos que entram na fila da morte seja admissível. Que um inocente
possa passar por isso é uma monstruosidade moral.
A DEFESA DOS POBRES
"O condado de Pontotoc não contava com um defensor público
em tempo integral. O juiz designava um advogado local. Os honorários eram
tão modestos que quase todos preferiam evitar esses casos. Há quase
sempre muitos advogados presentes quando um tribunal está em sessão.
Mas fica logo vazio quando um réu de pena capital é apresentado
com um atestado de pobreza. Os advogados fogem para seus escritórios, trancam
as portas e desligam o telefone." Trecho
de O Inocente | | |