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Edição 1983 . 22 de novembro de 2006

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Livros
Grisham no corredor da morte

Em seu primeiro livro de não-ficção, o autor
de thrillers jurídicos conta a história de um
inocente condenado à execução


Jerônimo Teixeira

 

James Estrin/The New York Times
John Grisham: contra a pena máxima

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Em 1976, quando a pena de morte voltou a vigorar nos Estados Unidos, houve um acalorado debate legislativo em Oklahoma para determinar qual seria a melhor forma de execução. O estado conquistou a glória duvidosa de ser o primeiro no país a adotar oficialmente a injeção letal, método considerado mais "humano" do que a cadeira elétrica, o fuzilamento ou a câmara de gás. O ex-jogador de beisebol Ronald Williamson esteve muito perto da agulha. O dia de sua morte foi marcado para 27 de setembro de 1994. A menos de um mês da data, uma corte federal revisou o seu caso e suspendeu a execução. Alcoólatra, com graves problemas mentais e dado a pequenos trambiques, Ron, como era conhecido pelos amigos, estava muito longe de ser uma personalidade modelar – mas tampouco era um assassino. Sua condenação foi resultado de uma conjunção de falhas judiciais. A triste história de Ron foi reconstituída com um detalhismo exaustivo pelo americano John Grisham, 51 anos – autor de consagrados thrillers jurídicos como O Cliente –, em seu primeiro livro de não-ficção, O Inocente (tradução de Pinheiro de Lemos; Rocco; 384 páginas; 45 reais). A obra é uma reportagem duramente objetiva, com poucos vôos ensaísticos e quase nenhuma opinião explícita do autor. A história narrada por Grisham, porém, é um argumento poderoso para os que acreditam que a pena capital é incompatível com qualquer padrão civilizado de justiça.

Grisham só tomou conhecimento do caso ao ler o obituário de Ron no The New York Times, em 2004 (o ex-condenado morreu em liberdade, de cirrose hepática). "Nem em meu momento mais criativo eu poderia conceber uma história tão rica", diz o escritor no final do livro. Apesar dessa rica história, O Inocente demora para engrenar. No primeiro capítulo, o tom de relatório policial despe de qualquer emoção o crime violento que seria atribuído a Ron – o estupro e assassinato de Debbie Carter, uma garçonete de 21 anos. O leitor brasileiro, para quem as estatísticas do beisebol podem soar esotéricas, vai se aborrecer com o segundo capítulo, no qual se resume a medíocre carreira esportiva de Ron. Mas, a partir do momento em que o caso entra nos tribunais, Grisham está no seu território. Ele demonstra como o sistema judiciário pode ser pervertido pela má-fé e pela negligência de seus profissionais.

O assassinato foi cometido em Ada, cidade de 16.000 habitantes no interior de Oklahoma, em 1982. Embora ninguém jamais houvesse visto Ron na companhia da vítima, ele foi o bode expiatório perfeito para uma polícia truculenta sob a pressão de apresentar resultados – qualquer resultado, mesmo falso. Dennis Fritz, professor de uma escola secundária e amigo de Ron, também se viu implicado injustamente. Foi condenado à prisão perpétua. O caso no tribunal se baseou em evidências fajutas e depoimentos de criminosos coagidos pela polícia. Ironicamente, o verdadeiro assassino de Debbie foi uma das ilibadas testemunhas de acusação. A facilidade com que o júri popular se deixou persuadir por argumentos claudicantes é assustadora.

Ron ficaria confinado por mais de dez anos no corredor da morte da penitenciária de McAlester, conhecida entre os presos como o Big Mac. Foi inocentado em 1999, junto com Fritz, graças a testes de DNA, que não existiam na época do primeiro julgamento. Os dois ganharam uma ação milionária de reparação contra o estado de Oklahoma. É pouco perto do que passaram. A descrição do cotidiano no corredor da morte, com sua espera angustiante por recursos judiciais que se arrastam por anos, está entre as páginas mais envolventes – e tétricas – do livro. Não existe parâmetro humano pelo qual o sofrimento psicológico imposto aos que entram na fila da morte seja admissível. Que um inocente possa passar por isso é uma monstruosidade moral.

 

A DEFESA DOS POBRES

"O condado de Pontotoc não contava com um defensor público em tempo integral. O juiz designava um advogado local. Os honorários eram tão modestos que quase todos preferiam evitar esses casos. Há quase sempre muitos advogados presentes quando um tribunal está em sessão. Mas fica logo vazio quando um réu de pena capital é apresentado com um atestado de pobreza. Os advogados fogem para seus escritórios, trancam as portas e desligam o telefone."

Trecho de O Inocente

 
 
 
 
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