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Edição 1983 . 22 de novembro de 2006

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Música
Eminências pardas

Como os produtores negros contratam,
treinam, reinventam artistas brancos
– e lucram com eles


Sérgio Martins

A cantora americana Stacy Ferguson, a Fergie, é a estrela do quarteto Black Eyed Peas. Por onde passa o grupo, que se apresentou em São Paulo há duas semanas e deve voltar ao país no fim do ano para animar o réveillon no Rio, ela monopoliza as atenções. Linda e curvilínea, Fergie provoca ao entoar canções como My Humps (título que evita totalmente a sutileza e cuja tradução é algo como Meu Lombo). Se a face glamourosa do Black Eyed Peas é Fergie, seu cérebro é o produtor Will.i.am. Foi ele quem convidou a loira para assumir os vocais do grupo, em 2003, e é ele quem está por trás de seu primeiro disco-solo, The Dutchess, que acaba de ser lançado. Mais do que um astro do rap, Will.i.am pertence a uma casta poderosa na música pop dos Estados Unidos: a dos produtores negros que contratam, treinam, reinventam artistas brancos – e lucram com eles (veja quadro).

Produtores como Timbaland (que cuida da carreira de Justin Timberlake e Nelly Furtado), Pharrell Williams (de Mariah Carey e Britney Spears), Jimmy Jam e Terry Lewis (ligados a Gwen Stefani) são as eminências pardas do pop. Alguns são enciclopédias musicais ambulantes. Mas todos operam numa freqüência semelhante. O estilo que criaram e que vêm lapidando pode ser rotulado de "hip hop soul" – uma mescla da sonoridade da música negra dos anos 70 com as batidas eletrônicas do rap. Trata-se da linguagem musical dominante no pop atual. Na medida em que converteram ao novo som os seus pupilos (que, em muitos casos, haviam atingido um ponto cego em sua carreira), esses produtores também os ajudaram a mudar de imagem. Sob sua batuta, artistas brancos tornam-se invariavelmente mais sensuais e provocantes.

A metamorfose de Britney Spears, de menininha em devoradora de homens, foi fruto de sua associação com Pharrell Williams. O mesmo se aplica a Justin Timberlake: em seu clipe mais recente ele brinca de agente secreto – é uma espécie de James Bond do hip hop, ameaçadoramente sedutor. Até mesmo Nelly Furtado, que estreou com um pop suave e melódico no qual se enxergavam inclusive suas raízes portuguesas, pôs o umbigo de fora e aprendeu a chacoalhar seus "humps" depois de ligar-se a Timbaland. Tudo sempre controlado e sem excessos. Afinal, não faria sentido Gwen Stefani falar do gueto ou Justin Timberlake posar de integrante de uma gangue de rua. Um toque de humor mais pesado é permitido em alguns casos. Uma sombra do escracho de cantoras negras como Lil' Kim e Missy Elliott aparece, por exemplo, em Fergie, quando ela canta, na primeira faixa do CD The Dutchess: "Toda vez que você chega perto / Minha Ponte de Londres fica a ponto de desabar".

O fascínio da juventude americana branca e de classe média pela cultura negra vem de longe. Ele se traduz nos wiggas – gíria que é um amálgama de white (branco) e nigger (crioulo, um xingamento que rappers e comediantes descolados começaram a usar com ironia). Fergie, por exemplo, é uma wigga de primeira hora. Na adolescência ela já gostava genuinamente de rap – e nas versões mais pesadas. "Quando comecei a cantar músicas que incitavam à violência e ao uso de drogas, meus pais ficaram muito preocupados. Pensaram até em me mandar para um colégio interno", disse ela em entrevista a VEJA. Sua própria música no Black Eyed Peas e na carreira-solo, porém, não tem traços desse tipo de apologia. A atual aliança entre os produtores negros e os artistas brancos resultou em algo menos agressivo – e mais palatável. Pais como os de Fergie podem até achar horrível e de mau gosto. Mas não vão se apavorar.

 

Ébano e marfim

As parcerias mais bem-sucedidas
do pop atual são "multirraciais"

 

JUSTIN TIMBERLAKE
Ex-ídolo teen, ressurgiu mais ousado na música e no comportamento. Para isso, contou com o produtor Timbaland (que também trabalha com a rapper Missy Elliott e com a cantora canadense Nelly Furtado)

 
FERGIE
Ex-atriz infantil, a cantora foi recrutada pelo produtor Will.i.am para dar um toque mais pop ao grupo de rap Black Eyed Peas. Boa parte do sucesso atual deles se deve à presença esfuziante de Fergie

 

GWEN STEFANI
Em seu primeiro disco-solo, Love.Angel.Music.Baby, a vocalista do grupo de música pop No Doubt se arrisca no rhythm'n'blues. Vários produtores lhe mostraram o caminho – entre eles a dupla Jimmy Jam e Terry Lewis, que tem no currículo trabalhos ao lado de Michael e Janet Jackson

 

MARIAH CAREY
O renascimento artístico da cantora se deve à produção do rapper Pharrell Williams. Ele trabalhou nas melhores faixas de The Emancipation of Mimi, disco que recolocou Mariah nas paradas de sucesso

Montagem com fotos de Robert E.Klein/AP, Mark J.Terril/AP, Mj Kim/Getty Images, Alexander Tamargo/Getty Images, Frederick M.Brown/Getty Images, Fethi Belaid/AFP e Dave Hogan/Getty Images

 
 
 
 
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