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Música
Eminências pardas
Como os produtores negros contratam, treinam, reinventam artistas brancos
e lucram com eles  Sérgio
Martins A cantora americana Stacy Ferguson,
a Fergie, é a estrela do quarteto Black Eyed Peas. Por onde passa o grupo,
que se apresentou em São Paulo há duas semanas e deve voltar ao
país no fim do ano para animar o réveillon no Rio, ela monopoliza
as atenções. Linda e curvilínea, Fergie provoca ao entoar
canções como My Humps (título que evita totalmente
a sutileza e cuja tradução é algo como Meu Lombo).
Se a face glamourosa do Black Eyed Peas é Fergie, seu cérebro é
o produtor Will.i.am. Foi ele quem convidou a loira para assumir os vocais do
grupo, em 2003, e é ele quem está por trás de seu primeiro
disco-solo, The Dutchess, que acaba de ser lançado. Mais do que
um astro do rap, Will.i.am pertence a uma casta poderosa na música pop
dos Estados Unidos: a dos produtores negros que contratam, treinam, reinventam
artistas brancos e lucram com eles (veja
quadro). Produtores
como Timbaland (que cuida da carreira de Justin Timberlake e Nelly Furtado), Pharrell
Williams (de Mariah Carey e Britney Spears), Jimmy Jam e Terry Lewis (ligados
a Gwen Stefani) são as eminências pardas do pop. Alguns são
enciclopédias musicais ambulantes. Mas todos operam numa freqüência
semelhante. O estilo que criaram e que vêm lapidando pode ser rotulado de
"hip hop soul" uma mescla da sonoridade da música negra dos anos
70 com as batidas eletrônicas do rap. Trata-se da linguagem musical dominante
no pop atual. Na medida em que converteram ao novo som os seus pupilos (que, em
muitos casos, haviam atingido um ponto cego em sua carreira), esses produtores
também os ajudaram a mudar de imagem. Sob sua batuta, artistas brancos
tornam-se invariavelmente mais sensuais e provocantes.
A metamorfose de Britney Spears, de menininha em devoradora de homens, foi fruto
de sua associação com Pharrell Williams. O mesmo se aplica a Justin
Timberlake: em seu clipe mais recente ele brinca de agente secreto é
uma espécie de James Bond do hip hop, ameaçadoramente sedutor. Até
mesmo Nelly Furtado, que estreou com um pop suave e melódico no qual se
enxergavam inclusive suas raízes portuguesas, pôs o umbigo de fora
e aprendeu a chacoalhar seus "humps" depois de ligar-se a Timbaland. Tudo sempre
controlado e sem excessos. Afinal, não faria sentido Gwen Stefani falar
do gueto ou Justin Timberlake posar de integrante de uma gangue de rua. Um toque
de humor mais pesado é permitido em alguns casos. Uma sombra do escracho
de cantoras negras como Lil' Kim e Missy Elliott aparece, por exemplo, em Fergie,
quando ela canta, na primeira faixa do CD The Dutchess: "Toda vez que você
chega perto / Minha Ponte de Londres fica a ponto de desabar".
O fascínio da juventude americana branca e de classe média pela
cultura negra vem de longe. Ele se traduz nos wiggas gíria
que é um amálgama de white (branco) e nigger (crioulo,
um xingamento que rappers e comediantes descolados começaram a usar com
ironia). Fergie, por exemplo, é uma wigga de primeira hora. Na adolescência
ela já gostava genuinamente de rap e nas versões mais pesadas.
"Quando comecei a cantar músicas que incitavam à violência
e ao uso de drogas, meus pais ficaram muito preocupados. Pensaram até em
me mandar para um colégio interno", disse ela em entrevista a VEJA. Sua
própria música no Black Eyed Peas e na carreira-solo, porém,
não tem traços desse tipo de apologia. A atual aliança entre
os produtores negros e os artistas brancos resultou em algo menos agressivo
e mais palatável. Pais como os de Fergie podem até achar horrível
e de mau gosto. Mas não vão se apavorar.
Ébano e marfim
As parcerias mais bem-sucedidas
do pop atual são "multirraciais"
JUSTIN TIMBERLAKE Ex-ídolo
teen, ressurgiu mais ousado na música e no comportamento. Para isso, contou
com o produtor Timbaland (que também trabalha com a rapper Missy
Elliott e com a cantora canadense Nelly Furtado)  | FERGIE
Ex-atriz infantil, a cantora foi recrutada pelo
produtor Will.i.am para dar um toque mais pop ao grupo de rap Black Eyed
Peas. Boa parte do sucesso atual deles se deve à presença esfuziante
de Fergie |
GWEN
STEFANI Em seu primeiro disco-solo, Love.Angel.Music.Baby,
a vocalista do grupo de música pop No Doubt se arrisca no rhythm'n'blues.
Vários produtores lhe mostraram o caminho entre eles a dupla Jimmy
Jam e Terry Lewis, que tem no currículo trabalhos ao lado de
Michael e Janet Jackson MARIAH
CAREY O renascimento artístico da cantora
se deve à produção do rapper Pharrell Williams. Ele
trabalhou nas melhores faixas de The Emancipation of Mimi, disco que recolocou
Mariah nas paradas de sucesso Montagem
com fotos de Robert E.Klein/AP, Mark J.Terril/AP, Mj Kim/Getty Images, Alexander
Tamargo/Getty Images, Frederick M.Brown/Getty Images, Fethi Belaid/AFP e Dave
Hogan/Getty Images | | |