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Edição 1983 . 22 de novembro de 2006

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Arquitetura
O mínimo é o máximo

Um mosteiro na República Checa,
em estilo minimalista, traz para
o século XXI o ambiente de clausura
dos monges trapistas


Leoleli Camargo

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Em 1508, quando andava à procura de quem pintasse o teto da Capela Sistina, o papa Julio II pediu a Michelangelo uma prova de sua competência para a tarefa. Como resposta, o genial artista da Renascença desenhou um círculo perfeito – a mão livre. Só mesmo Michelangelo – que nos anos seguintes transformaria o teto da capela numa das mais estupendas obras de arte da história – poderia imaginar uma solução tão simples para o desafio que lhe foi imposto. Até hoje, no mundo das artes e do design, vale a lição de Michelangelo: às vezes, o mínimo é o máximo. Na arquitetura religiosa atual, essa lição está evidente numa construção recém-erguida nos arredores de Praga, capital da República Checa – o mosteiro de Nossa Senhora de Novy Dvur. O local é habitado por 25 monges trapistas, que se submetem a um rígido conjunto de preceitos criados no século VI para orientar a vida monástica. Através da história cristã, os mosteiros em sua maioria, diferentemente do que ocorre com as catedrais, sempre foram construções simples, adequadas à vida de austeridade dos monges. A missão do arquiteto inglês John Pawson, que assina o projeto do mosteiro de Novy Dvur, foi interpretar essa tradição à luz da arquitetura de hoje.

O resultado é impressionante. A igreja onde rezam os monges, embora quase despida de móveis e sem ornamentos, tem uma atmosfera monumental. A biblioteca é uma lição de beleza e funcionalidade. A simplicidade elaborada dos ambientes é resultado do credo de Pawson. Ele é um dos nomes mais célebres da chamada corrente minimalista da arquitetura. Para os arquitetos que seguem essa tendência, tanto as fachadas quanto os ambientes devem se reduzir a seus elementos básicos. Nada de enfeites, móveis volumosos e objetos supérfluos. Devem-se valorizar os espaços abertos e criar impacto com a incidência da luz sobre eles. Entre outros projetos, Pawson assina o da loja-mãe da marca Calvin Klein na Madison Avenue, em Nova York. Ao construírem casas, os arquitetos costumam se inteirar dos hábitos de seus futuros moradores, mas não foi fácil para Pawson imaginar um prédio para ser habitado por monges trapistas. Esses religiosos, que devotam a vida a Deus, acordam às 3h15, cumprem sete sessões de orações por dia e dormem às 8 da noite. Fazem votos de pobreza, falam apenas o necessário e só saem do mosteiro quando chega a hora de trocá-lo pelo cemitério. Para conhecer de perto os hábitos de clientes tão incomuns, Pawson passou cinco dias morando com os monges. "Só quando compreendi a seqüência de movimentos que eles fazem durante o dia consegui projetar a disposição dos ambientes", contou Pawson a VEJA.

Os monges de Novy Dvur conheceram o trabalho de Pawson através do livro Minimum, de autoria do arquiteto, contendo fotos de seus projetos e textos que explicam as bases do estilo minimalista. Convidaram-no a projetar o novo mosteiro e quase caíram para trás ao ver que o orçamento batia nos 5 milhões de dólares, quantia exorbitante para uma congregação que se mantém com a venda de produtos artesanais. Mas, afinal, o dinheiro se materializou. Parte foi obtida com outras comunidades trapistas e ordens interessadas em restaurar a fé cristã na Europa Oriental pós-comunismo. O restante foi doado por empresas privadas e filantropos que tomaram conhecimento da empreitada dos monges. Os religiosos também conseguiram descontos em materiais de construção, transporte e mão-de-obra. O estilista Calvin Klein, por intermédio de Pawson, chegou a se oferecer para confeccionar novos hábitos para os monges, mas acabou se desentendendo com eles.

A atual corrente minimalista da arquitetura retoma em parte as idéias dos arquitetos modernistas que, a partir da primeira metade do século XX, criaram movimentos como a Bauhaus. Eles pregavam o fim dos ornamentos – que até então sinalizavam a elegância das construções e o poder aquisitivo de seus proprietários – e a supremacia da função sobre a forma. "Menos é mais", decretou o americano, nascido na Alemanha, Mies van der Rohe, um de seus nomes mais destacados. Os minimalistas de hoje, como Pawson, combatem inimigos diferentes: o pós-modernismo e o high-tech, duas correntes arquitetônicas em voga. A primeira promove uma salada de estilos e de ornamentos destinada a surpreender e criar impacto a qualquer preço. Muitos monstrengos foram construídos nas últimas duas décadas em seu nome. A arquitetura high-tech se inspira nas inovações tecnológicas, como os materiais compostos, para criar prédios que parecem flutuar, com linhas e curvas dramáticas – e muitas fachadas de vidro para que se enxergue da rua o que acontece nos ambientes. Um bom exemplo é a nova loja da Apple, em Nova York. A essas tendências, o minimalismo contrapõe uma volta à simplicidade. Evidentemente, nem todo mundo se adapta ao estilo espartano de suas construções. O próprio John Pawson admite: "Quando as pessoas conhecem minha casa, acham tudo muito bonito, mas perguntam como eu consigo morar lá".

 
 
 
 
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