|
|
História
O que eles diziam em segredo
Diálogos entre os caciques soviéticos revelam que temiam a Alemanha
reunificada  Diogo
Schelp AP
 | | Alemães
tomam o Muro de Berlim, em 1989: Gorbachev recusou-se a reprimir |
O Politburo soviético sempre foi um território de intrigas e traições.
O que acontecia a portas fechadas, quando a cúpula comunista se reunia,
era um segredo tão bem guardado que nem sequer havia um taquígrafo
para fazer as atas das reuniões. Parte do mistério só agora
foi desvendada, quinze anos depois de a União Soviética virar fumaça.
Dois volumes com documentos inéditos, publicados neste ano na Rússia,
revelam detalhes das discussões travadas no coração do poder
soviético durante o governo de Mikhail Gorbachev, entre 1985 e 1991. São
anotações feitas por três membros do Politburo com o conteúdo
dos debates. Elas revelam a tensão crescente entre Gorbachev e a linha
dura comunista, que tentaria derrubá-lo com golpe de Estado em 1991, quatro
meses antes do desmanche da União Soviética. Com a notável
exceção de alguns poucos aliados, como o ministro de Relações
Exteriores, Eduard Shevardnadze, os caciques vermelhos estavam em pânico
com o projeto de glasnost (abertura política) e perestroika (reestruturação
econômica) de Gorbachev. Criado
por Vladimir Lenin em 1917, o Politburo era o núcleo central do poder bolchevique,
com total autoridade para decidir as questões de Estado. "As resoluções
do Politburo deveriam ser tomadas de maneira colegiada", diz o russo Alexander
Zhebit, professor de política internacional da Universidade Federal do
Rio de Janeiro. "O fato de nos derradeiros anos elas terem ocorrido em meio a
um racha entre seus membros, como parecem indicar as atas recém-divulgadas,
é um claro sinal do enfraquecimento do poder de Gorbachev", completa Zhebit.
As discordâncias são evidentes nas discussões sobre o destino
da Alemanha dividida. As atas mostram que Shevardnadze chegou a sugerir que os
próprios soviéticos tomassem a iniciativa de pôr abaixo o
Muro de Berlim, cujo fim parecia inevitável, o que revoltou o chefe da
KGB (veja o quadro abaixo).
Os soviéticos não chegaram a tanto, mas avisaram que não
usariam mais a força para manter o comunismo no Leste Europeu, e o Muro
foi derrubado pela população alemã-oriental.
Scott
Stewart/AP
 | | Ronald
Reagan com Gorbachev, em 1985: o Exército Vermelho se opôs à redução dos mísseis |
Em uma reunião de janeiro de 1990, quando os pedaços do Muro
já estavam sendo vendidos como suvenir aos turistas, o premier Nicolai
Rizhkov expressa a preocupação soviética com a possibilidade
da reunificação: "Se permitirmos isso, a Alemanha será capaz
de começar a III Guerra Mundial daqui a vinte ou trinta anos". Rizhkov
estava em sintonia com as preocupações de alguns dos principais
líderes do Ocidente, como mostram as anotações feitas por
Anatoli Cherniaiev, o assessor para política externa de Gorbachev. Em outubro
de 1989, um mês antes da queda do Muro, Cherniaiev anotou em seu diário:
"Todos, de François Mitterrand (presidente francês) aos prefeitos
europeus, nos dizem: ninguém precisa de uma Alemanha reunificada. Em uma
conversa com Gorbachev, Margaret Thatcher (primeira-ministra inglesa) pediu,
de supetão: não anote o que vou dizer agora sou completamente
contra a reunificação da Alemanha, mas não posso dizer isso
publicamente em casa ou na Otan".
Nos assuntos internos, as divergências mais sérias diziam respeito
às questões militares e às reformas políticas e econômicas
pretendidas por Gorbachev. Um ponto crítico era decidir se as manifestações
nacionalistas nas repúblicas soviéticas e no Leste Europeu deveriam
ser permitidas ou esmagadas com tropas, como a União Soviética sempre
fizera no passado. Esses protestos acabaram por precipitar o fim do império
soviético, mas Gorbachev não aceitava usar a força para impedi-los.
Em uma reunião de abril de 1989, ele deu um puxão de orelha em Vladimir
Alexandrovich Kriuchkov, chefe da KGB, o serviço de inteligência
soviético. Gorbachev estava furioso com a repressão a tiros de uma
manifestação em Tbilisi, na Geórgia, que matou vinte pessoas:
"Vladimir Alexandrovich! Sim, estou olhando para você. Veja o episódio
em Tbilisi: o que significa isso? Era realmente necessário? Claro que não".
Dois anos depois, Kriuchkov foi um dos conspiradores do golpe contra Gorbachev.
A principal fonte de atrito com os
militares, segundo mostram os documentos do Politburo, era a insistência
de Gorbachev em reduzir o arsenal nuclear. "Vocês querem transformar o país
inteiro em um acampamento militar?", perguntou Gorbachev em uma reunião
em maio de 1987. A economia soviética não era capaz de sustentar
a corrida armamentista com os Estados Unidos, mas o Exército Vermelho sabotava
os projetos para reduzir os gastos militares. "A grande discussão daquele
período, na União Soviética, era se os gastos militares eram
um fardo ou, ao contrário, ajudavam a estimular a economia", diz o historiador
Angelo Segrillo, do Rio de Janeiro, autor do livro O Fim da URSS e a Nova Rússia.
Os diálogos mostram como Gorbachev tinha dificuldade em colocar em prática
decisões já tomadas, como a retirada das tropas soviéticas
do Afeganistão. "Por que vocês não fazem isso?", reclama o
líder soviético numa reunião em julho de 1986. "Quem está
se recusando a colocar em prática as decisões que tomamos aqui no
Politburo?" |