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Edição 1983 . 22 de novembro de 2006

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Especial
A vida no limite

A anorexia é uma doença que desafia
a medicina e cujo tratamento é difícil
e sem garantia de cura


Anna Paula Buchalla

 
Álbum de família
Lailson Santos
Rafaela, de 22 anos, chegou a pesar 36 quilos para 1,70 metro. À esq., a jovem aos 16 anos, quando tinha 58 quilos


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os sinais que elas dão e muitos pais não vêem

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NESTA EDIÇÃO
Anorexia: Ela fez mais uma vítima
"Vá para casa e emagreça"


Um dos parâmetros usados pela psiquiatria para definir a anorexia é a pessoa estar 15% ou mais abaixo do peso ideal. Com 40 quilos, Ana Carolina ao morrer estava 13 quilos abaixo do mínimo para o seu 1,72 metro de altura – ou seja, ela pesava 25% menos do que deveria. A magreza excessiva é apenas a conseqüência mais visível da anorexia, uma doença primordialmente feminina. Para cada vinte mulheres, há apenas um homem na mesma condição. Ela afeta sobretudo garotas e jovens entre 13 e 20 anos, impingindo a suas vítimas um sofrimento físico e psíquico enorme. Na maioria dos casos, como no de Ana Carolina, o processo começa com uma dieta aparentemente inocente, para perder alguns quilinhos – e termina deflagrando a recusa sistemática em alimentar-se. Por mais que emagreça, a doente se vê gorda. Quanto mais parentes e amigos insistem para que coma, mais ela se isola do convívio social e esconde o corpo esquelético sob roupas largas. É uma experiência infernal.

Descrita pela primeira vez em 1689, pelo médico inglês Richard Morton, que a batizou de "atrofia nervosa", a anorexia ainda desafia a medicina. Sabe-se que o distúrbio tem um forte componente genético, mas não se conseguiu definir com clareza seus mecanismos. No campo estritamente psicológico, suas vítimas tendem a ser pessoas rígidas consigo próprias, competitivas e perfeccionistas. Em geral, são filhas de mulheres autoritárias e, muitas vezes, com fixação na própria imagem corporal. Existem dois tipos de doente. No primeiro grupo estão os portadores de anorexia restritiva, que reduzem a ingestão de alimentos a praticamente nada. Há relatos de meninas que ingerem somente 300 calorias diárias, cinco vezes menos do que se consome nas dietas saudáveis de perda de peso. No segundo grupo estão os anoréxicos que desenvolvem também bulimia, alternando períodos de quase completa inanição com excessos à mesa – "compensados" pela indução de vômito e pelo uso de laxantes, diuréticos e anfetaminas. Até 50% dos pacientes anoréxicos desenvolvem sintomas bulímicos. Nos últimos cinco anos, os pesquisadores têm notado um aumento de casos de pacientes entre 8 e 11 anos de idade. "Desde muito cedo as meninas são bombardeadas com o culto à magreza. Isso pode aumentar o risco de essas crianças apresentarem distúrbios alimentares quando chegarem à adolescência", afirma a psiquiatra Angélica Claudino, coordenadora do Programa de Assistência a Pacientes com Transtornos Alimentares, da Universidade Federal de São Paulo.

Da mesma forma como a depressão não é uma tristeza profunda, a magreza excessiva não é necessariamente anorexia. Existem aquelas pessoas programadas geneticamente para ser magérrimas – e saudáveis. O desejo de emagrecer também não resulta sempre em anorexia. Se fosse assim, o mundo estaria repleto de anoréxicos e bulímicos. Uma pessoa sem predisposição a essa combinação de distúrbios poderia até induzir o vômito uma ou duas vezes, para não engordar, mas a sensação lhe causaria tanto desconforto e mal-estar que dificilmente se transformaria em hábito. Para as vítimas de anorexia e de bulimia, a fome e o vômito são experiências de alívio – às vezes, até de prazer.

Uma das características mais marcantes dessa doença é que a paciente não tem uma visão clara de si mesma. Ela invariavelmente acha que está gorda, ainda que sua aparência seja cadavérica. "Há estudos em que as vítimas da doença devem apontar uma foto de mulher com a qual mais se identificam. Elas sempre apontam a imagem de uma pessoa gorda", diz Lucia Helena Grando, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, autora de uma tese de doutorado sobre o assunto. Lucia Helena já chegou a atender o caso de uma menina de 15 anos que tomava vinte comprimidos de laxante por dia e pesava 21 quilos. "A garota não tinha mais dentes, seu cabelo era ralo e ela já não conseguia andar", lembra. A coleção de sintomas causados pela anorexia é enorme: hipotensão, hipotermia, redução da atividade da tireóide, suspensão da menstruação, unhas e cabelo quebradiços, pele ressecada, áspera e coberta por lanugo (uma penugem fina e escura que pode chegar a cobrir todo o corpo). Para se ter uma idéia, a pressão arterial das pacientes fica na casa dos 8 por 4 (o normal é 12 por 8). Seu ritmo cardíaco é, em média, de 36 batimentos por minuto, quando o esperado é de 60 a 80. Um dado muito assustador é que o mercúrio do termômetro não sai do lugar quando se mede a temperatura das anoréxicas.

"Para minha mãe não perceber minha magreza, eu usava quatro, cinco calças, uma em cima da outra, para disfarçar", diz a paulistana Rafaela Sanches, de 22 anos. Em 2004, ela chegou à marca de 36 quilos distribuídos em 1,70 metro. Hoje em tratamento, Rafaela conta que escondeu a anorexia quanto pôde. "Quando minha mãe me pegou por acaso trocando de roupa, levou um susto. Ela não fazia a menor idéia do que se passava comigo." A alimentação de Rafaela resumia-se a água, queijo branco, leite desnatado e alface. Ela ia duas vezes por dia à academia e fazia abdominais de madrugada para ninguém perceber. "Na faculdade, eu tinha uma cadeira especial com almofada, porque não agüentava a dor nos ossos", lembra. "Ainda assim, eu me olhava no espelho e me achava gorda. Tomava laxantes, diuréticos e chás emagrecedores o dia inteiro." Por causa da doença, Rafaela desenvolveu osteoporose, um mal típico da meia-idade. Atualmente, ela pesa 48 quilos e não quer passar disso. "Mesmo curada, uma ex-anoréxica não se livra totalmente da relação complicada com a comida", diz a psiquiatra Angélica Claudino. O tratamento é dificílimo. A taxa de recaída é alta, em torno de 60%. A terapêutica ideal prevê uma equipe composta de psiquiatra, psicólogo e nutricionista. Normalmente, o trabalho é feito com a ajuda de antidepressivos. Mas dois estudos americanos recentes mostraram que esses medicamentos não são efetivos para tratar a anorexia nem para evitar as recaídas – eles parecem ajudar apenas as que apresentam um quadro de bulimia. Os tratamentos disponíveis até agora, que misturam psicoterapia e reeducação alimentar, levam à cura de até um terço das pacientes com anorexia. Outros 30% passam a viver num vaivém de sucessos e recaídas. O restante afunda na anorexia crônica, que as coloca sob alto risco de suicídio e morte por inanição. Foi o caso de Ana Carolina.

 

ESCRAVA DE SI MESMA

Jim Mone/AP
A americana Marya Hornbacher: no auge da doença, 23 quilos, seis internações e tentativa de suicídio

Começou de repente, sem nenhum motivo aparente. "Num minuto eu era a menina-padrão de 9 anos. No minuto seguinte, estava entrando no banheiro, fechando a porta, segurando as tranças com uma das mãos, enfiando dois dedos na garganta e vomitando até cuspir sangue." A descrição é da americana Marya Hornbacher, de 32 anos, que aos 23 escreveu a autobiografia Dissipada, lançada no Brasil pela Editora Record. É a história de uma longa batalha contra a anorexia e a bulimia. As memórias de Marya lançam luz sobre as causas mais evidentes dos distúrbios alimentares – os traços de personalidade que conduzem ao problema, o histórico familiar complicado e as influências culturais que impõem a ditadura da magreza. "Muita gente se move perfeitamente entre a bulimia e a anorexia, dividida entre dois amantes. Foi o que fiz", conta. Ao longo de treze anos, ela oscilou entre 23 e 61 quilos – seu peso aumentava um pouco, depois caía em queda livre. Foi hospitalizada seis vezes. Aos 12 anos, estava vomitando quase que diariamente havia pelo menos três. Fazia isso de duas a três vezes por dia. Aos 15 anos, estava anoréxica. Marya abusou de estimulantes e álcool, usou drogas pesadas e teve episódios de automutilação. Em 1994, aos 20 anos, tentou suicídio.

"No chuveiro, ficava sentindo os ossos na parte inferior das minhas costas. Eu segurava meus ossos pélvicos como se fossem machadinhas gêmeas", relembra. Numa das descrições mais impressionantes, ela conta alguns artifícios usados para vomitar sem ser notada e até para saber quanto de comida estava pondo para fora: "Ligo a torneira no máximo para encobrir as ânsias e o barulho do vômito, torcendo muito para que as paredes sejam grossas e ninguém consiga ouvir nada". Marya relata, ainda, como usava um tipo de salgadinho para saber se havia vomitado toda a comida ingerida pouco antes: "Os Doritos. Você os come primeiro para saber se tudo saiu". Para simular a sensação de saciedade e ao mesmo tempo manter o peso baixo, Marya bebia litros e litros de água. No auge do descontrole, comia apenas 320 calorias por dia, metade do reservado aos presos nos campos de concentração nazistas. "A certa altura, um transtorno alimentar deixa de ser 'por causa de' alguma coisa. Deixa de ser por causa da sua família ou da sua cultura. Muito simplesmente, ele se torna um vício não apenas emocional, mas químico." Escrava de si mesma, ela conseguiu finalmente escapar desse círculo aprisionante. "Cansei de ser tão chata. Ocorreu-me que era clichê morrer de fome. Todo mundo estava fazendo a mesma coisa", escreve. Marya não se considera curada. Diz que ela e a doença convivem num estado de antagonismo mútuo, num enfrentamento permanente. Com uma diferença em relação ao passado: "Sou capaz de viver dia após dia, independentemente do fato de, numa manhã, ter a impressão de que o meu traseiro aumentou drasticamente durante a noite".

 
 
 
 
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