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Especial A
vida no limite A anorexia é uma
doença que desafia a medicina e cujo tratamento é difícil
e sem garantia de cura  Anna
Paula Buchalla Álbum
de família
 | Lailson
Santos
 | | Rafaela,
de 22 anos, chegou a pesar 36 quilos para 1,70 metro. À esq., a jovem aos 16 anos,
quando tinha 58 quilos |
Um dos parâmetros usados
pela psiquiatria para definir a anorexia é a pessoa estar 15% ou mais abaixo
do peso ideal. Com 40 quilos, Ana Carolina ao morrer estava 13 quilos abaixo do
mínimo para o seu 1,72 metro de altura ou seja, ela pesava 25% menos
do que deveria. A magreza excessiva é apenas a conseqüência
mais visível da anorexia, uma doença primordialmente feminina. Para
cada vinte mulheres, há apenas um homem na mesma condição.
Ela afeta sobretudo garotas e jovens entre 13 e 20 anos, impingindo a suas vítimas
um sofrimento físico e psíquico enorme. Na maioria dos casos, como
no de Ana Carolina, o processo começa com uma dieta aparentemente inocente,
para perder alguns quilinhos e termina deflagrando a recusa sistemática
em alimentar-se. Por mais que emagreça, a doente se vê gorda. Quanto
mais parentes e amigos insistem para que coma, mais ela se isola do convívio
social e esconde o corpo esquelético sob roupas largas. É uma experiência
infernal.
Descrita pela primeira vez
em 1689, pelo médico inglês Richard Morton, que a batizou de "atrofia
nervosa", a anorexia ainda desafia a medicina. Sabe-se que o distúrbio
tem um forte componente genético, mas não se conseguiu definir com
clareza seus mecanismos. No campo estritamente psicológico, suas vítimas
tendem a ser pessoas rígidas consigo próprias, competitivas e perfeccionistas.
Em geral, são filhas de mulheres autoritárias e, muitas vezes, com
fixação na própria imagem corporal. Existem dois tipos de
doente. No primeiro grupo estão os portadores de anorexia restritiva, que
reduzem a ingestão de alimentos a praticamente nada. Há relatos
de meninas que ingerem somente 300 calorias diárias, cinco vezes menos
do que se consome nas dietas saudáveis de perda de peso. No segundo grupo
estão os anoréxicos que desenvolvem também bulimia, alternando
períodos de quase completa inanição com excessos à
mesa "compensados" pela indução de vômito e pelo uso
de laxantes, diuréticos e anfetaminas. Até 50% dos pacientes anoréxicos
desenvolvem sintomas bulímicos. Nos últimos cinco anos, os pesquisadores
têm notado um aumento de casos de pacientes entre 8 e 11 anos de idade.
"Desde muito cedo as meninas são bombardeadas com o culto à magreza.
Isso pode aumentar o risco de essas crianças apresentarem distúrbios
alimentares quando chegarem à adolescência", afirma a psiquiatra
Angélica Claudino, coordenadora do Programa de Assistência a Pacientes
com Transtornos Alimentares, da Universidade Federal de São Paulo.
Da mesma forma como a depressão não é uma tristeza profunda,
a magreza excessiva não é necessariamente anorexia. Existem aquelas
pessoas programadas geneticamente para ser magérrimas e saudáveis.
O desejo de emagrecer também não resulta sempre em anorexia. Se
fosse assim, o mundo estaria repleto de anoréxicos e bulímicos.
Uma pessoa sem predisposição a essa combinação de
distúrbios poderia até induzir o vômito uma ou duas vezes,
para não engordar, mas a sensação lhe causaria tanto desconforto
e mal-estar que dificilmente se transformaria em hábito. Para as vítimas
de anorexia e de bulimia, a fome e o vômito são experiências
de alívio às vezes, até de prazer.
Uma das características mais marcantes dessa doença é que
a paciente não tem uma visão clara de si mesma. Ela invariavelmente
acha que está gorda, ainda que sua aparência seja cadavérica.
"Há estudos em que as vítimas da doença devem apontar uma
foto de mulher com a qual mais se identificam. Elas sempre apontam a imagem de
uma pessoa gorda", diz Lucia Helena Grando, do Instituto de Psiquiatria do Hospital
das Clínicas, em São Paulo, autora de uma tese de doutorado sobre
o assunto. Lucia Helena já chegou a atender o caso de uma menina de 15
anos que tomava vinte comprimidos de laxante por dia e pesava 21 quilos. "A garota
não tinha mais dentes, seu cabelo era ralo e ela já não conseguia
andar", lembra. A coleção de sintomas causados pela anorexia é
enorme: hipotensão, hipotermia, redução da atividade da tireóide,
suspensão da menstruação, unhas e cabelo quebradiços,
pele ressecada, áspera e coberta por lanugo (uma penugem fina e escura
que pode chegar a cobrir todo o corpo). Para se ter uma idéia, a pressão
arterial das pacientes fica na casa dos 8 por 4 (o normal é 12 por 8).
Seu ritmo cardíaco é, em média, de 36 batimentos por minuto,
quando o esperado é de 60 a 80. Um dado muito assustador é que o
mercúrio do termômetro não sai do lugar quando se mede a temperatura
das anoréxicas. "Para minha
mãe não perceber minha magreza, eu usava quatro, cinco calças,
uma em cima da outra, para disfarçar", diz a paulistana Rafaela Sanches,
de 22 anos. Em 2004, ela chegou à marca de 36 quilos distribuídos
em 1,70 metro. Hoje em tratamento, Rafaela conta que escondeu a anorexia quanto
pôde. "Quando minha mãe me pegou por acaso trocando de roupa, levou
um susto. Ela não fazia a menor idéia do que se passava comigo."
A alimentação de Rafaela resumia-se a água, queijo branco,
leite desnatado e alface. Ela ia duas vezes por dia à academia e fazia
abdominais de madrugada para ninguém perceber. "Na faculdade, eu tinha
uma cadeira especial com almofada, porque não agüentava a dor nos
ossos", lembra. "Ainda assim, eu me olhava no espelho e me achava gorda. Tomava
laxantes, diuréticos e chás emagrecedores o dia inteiro." Por causa
da doença, Rafaela desenvolveu osteoporose, um mal típico da meia-idade.
Atualmente, ela pesa 48 quilos e não quer passar disso. "Mesmo curada,
uma ex-anoréxica não se livra totalmente da relação
complicada com a comida", diz a psiquiatra Angélica Claudino. O tratamento
é dificílimo. A taxa de recaída é alta, em torno de
60%. A terapêutica ideal prevê uma equipe composta de psiquiatra,
psicólogo e nutricionista. Normalmente, o trabalho é feito com a
ajuda de antidepressivos. Mas dois estudos americanos recentes mostraram que esses
medicamentos não são efetivos para tratar a anorexia nem para evitar
as recaídas eles parecem ajudar apenas as que apresentam um quadro
de bulimia. Os tratamentos disponíveis até agora, que misturam psicoterapia
e reeducação alimentar, levam à cura de até um terço
das pacientes com anorexia. Outros 30% passam a viver num vaivém de sucessos
e recaídas. O restante afunda na anorexia crônica, que as coloca
sob alto risco de suicídio e morte por inanição. Foi o caso
de Ana Carolina.
ESCRAVA DE SI MESMA
Jim
Mone/AP
 | | A
americana Marya Hornbacher: no auge da doença, 23 quilos, seis internações e tentativa
de suicídio |
Começou
de repente, sem nenhum motivo aparente. "Num minuto eu era a menina-padrão
de 9 anos. No minuto seguinte, estava entrando no banheiro, fechando a porta,
segurando as tranças com uma das mãos, enfiando dois dedos na garganta
e vomitando até cuspir sangue." A descrição é da americana
Marya Hornbacher, de 32 anos, que aos 23 escreveu a autobiografia Dissipada,
lançada no Brasil pela Editora Record. É a história de uma
longa batalha contra a anorexia e a bulimia. As memórias de Marya lançam
luz sobre as causas mais evidentes dos distúrbios alimentares os
traços de personalidade que conduzem ao problema, o histórico familiar
complicado e as influências culturais que impõem a ditadura da magreza.
"Muita gente se move perfeitamente entre a bulimia e a anorexia, dividida entre
dois amantes. Foi o que fiz", conta. Ao longo de treze anos, ela oscilou entre
23 e 61 quilos seu peso aumentava um pouco, depois caía em queda
livre. Foi hospitalizada seis vezes. Aos 12 anos, estava vomitando quase que diariamente
havia pelo menos três. Fazia isso de duas a três vezes por dia. Aos
15 anos, estava anoréxica. Marya abusou de estimulantes e álcool,
usou drogas pesadas e teve episódios de automutilação. Em
1994, aos 20 anos, tentou suicídio. "No
chuveiro, ficava sentindo os ossos na parte inferior das minhas costas. Eu segurava
meus ossos pélvicos como se fossem machadinhas gêmeas", relembra.
Numa das descrições mais impressionantes, ela conta alguns artifícios
usados para vomitar sem ser notada e até para saber quanto de comida estava
pondo para fora: "Ligo a torneira no máximo para encobrir as ânsias
e o barulho do vômito, torcendo muito para que as paredes sejam grossas
e ninguém consiga ouvir nada". Marya relata, ainda, como usava um tipo
de salgadinho para saber se havia vomitado toda a comida ingerida pouco antes:
"Os Doritos. Você os come primeiro para saber se tudo saiu". Para simular
a sensação de saciedade e ao mesmo tempo manter o peso baixo, Marya
bebia litros e litros de água. No auge do descontrole, comia apenas 320
calorias por dia, metade do reservado aos presos nos campos de concentração
nazistas. "A certa altura, um transtorno alimentar deixa de ser 'por causa de'
alguma coisa. Deixa de ser por causa da sua família ou da sua cultura.
Muito simplesmente, ele se torna um vício não apenas emocional,
mas químico." Escrava de si mesma, ela conseguiu finalmente escapar desse
círculo aprisionante. "Cansei de ser tão chata. Ocorreu-me que era
clichê morrer de fome. Todo mundo estava fazendo a mesma coisa", escreve.
Marya não se considera curada. Diz que ela e a doença convivem num
estado de antagonismo mútuo, num enfrentamento permanente. Com uma diferença
em relação ao passado: "Sou capaz de viver dia após dia,
independentemente do fato de, numa manhã, ter a impressão de que
o meu traseiro aumentou drasticamente durante a noite". | |
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