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Especial Anorexia
Ela fez mais uma vítima
A modelo Ana Carolina passou a ter sintomas da doença depois de ser
chamada de obesa. Tinha, então, 51 quilos
 Juliana
Linhares Fotos
Reuters e Fabiano Accorsi
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Carolina Reston, morta na última semana: a foto menor foi feita no ano
passado, quando a modelo tinha 19 anos e pesava 42 quilos |
A modelo Ana Carolina Reston Macan,
morta na última terça-feira em decorrência de problemas causados
por uma anorexia, viveu seus últimos anos sob pressão. À
angústia causada pelo excesso de vaidade e autocrítica que costuma
acometer grande parte das adolescentes e pós-adolescentes somaram-se problemas
no trabalho e em casa. Aos 21 anos, Carol, como era conhecida, passava por uma
fase crucial na carreira e difícil na família que, desde
os 18 anos, ajudava a sustentar. A
modelo morava com os pais, Narciso e Miriam Macan, e o irmão, Rafael, de
19 anos, em uma pequena chácara em Jundiaí, no interior de São
Paulo. A propriedade fica distante da cidade e os Macan não têm carro.
Para ir ao supermercado, sair à noite ou ir à escola, Carol tinha
de percorrer a pé uma trilha de 2 quilômetros, cercada de mato alto,
até chegar ao ponto do ônibus que a levaria ao centro. A família
já viveu com mais conforto. Há quatro anos, meses antes de Carol
ir para a China a trabalho, a casa de seus pais foi assaltada. Ladrões
surraram Narciso, portador de Parkinson e, hoje, também de Alzheimer, e
levaram 4 quilos de ouro matéria-prima para o trabalho da mãe,
ourives. A situação financeira dos Macan cujo único
rendimento fixo vem da aposentadoria de Narciso, de 880 reais complicou-se.
Miriam começou a vender bijuterias para amigos, e Carol, que já
ajudava no orçamento da casa, acumulou ainda mais responsabilidades. "Ela
passou a sustentar a família quase sozinha. Ligava da China, preocupada
se a mãe havia pago as contas de luz e de água", conta Ektan Strauss,
prima da modelo e uma de suas melhores amigas.
A viagem para a China, em 2003, prometia ser o grande vôo inicial da menina
que, desde pequena, sonhava em ser modelo. Na primeira agência que visitou,
aos 12 anos, foi recusada por causa de seu 1,70 metro, considerado insuficiente.
Disseram-lhe que, para trabalhar, ela teria de ganhar pelo menos 2 centímetros.
Diante dos pedidos da filha, Miriam levou-a a um ortopedista, que observou que
Carol andava ligeiramente curvada. "Ela começou a fazer sessões
de alongamento e ginástica para fortalecer os músculos do dorso",
conta a prima Ektan. Um ano depois, voltou à agência. Media 1,72
metro. Fotos
Rubens Cardia/Folha Imagem
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Foi recebida pelo mercado como uma promessa de sucesso. Aos 18 anos, a convite
de uma agência de São Paulo, deixou a pequena Jundiaí para
aterrissar em Guangzhou, a duas horas de Hong Kong. Foi lá que a doença
deu os primeiros sinais. "Quando chegou, ela pesava 51 quilos. Era uma magra bonita",
lembra Ana Paula Smolinsky, modelo gaúcha que dividiu um apartamento com
Carol na cidade. Ela conta que, no início, a amiga se alimentava à
maneira da maioria dos adolescentes que passam a viver fora de casa: comia salgadinhos,
macarrão e tomava refrigerantes. Tudo mudou depois que, segundo conta a
prima Ektan, "um agente de moda chinês disse que ela estava 'obesa'". Em
cerca de dois meses, a modelo perdeu 4 quilos. "Passou a falar só de regime
e ficava o dia inteiro com um pratinho de macarrão no estômago",
diz Ana Paula. De volta da China,
alguns meses depois, Carol foi contratada por uma pequena agência de Brasília,
que a levou para o México. A essa altura, a modelo já estava com
42 quilos. Mesmo assim, lembra a mãe, não parava de reclamar da
existência de "pneuzinhos". Lá, conseguiu poucos trabalhos. "O mercado
do México prefere as meninas mais curvilíneas", afirma Lica Kohlrausch,
dona da agência brasileira de modelos L'Equipe. Foi por meio da L'Equipe,
e por sugestão de Lica, que Carol viajou, em 2005, para o Japão.
"Eu disse a ela que o país era famoso pelas modelos magérrimas",
lembra a empresária. Lica conta que, nessa fase, não sabia que Carol
estava doente. Quando fazia seu primeiro trabalho em Osaka, para uma confecção
local, Carol desmaiou e teve de ser levada ao hospital.
Retornou ao Brasil no fim de 2005. Ao vê-la no aeroporto, a mãe teve
uma crise de choro: a filha apresentava olheiras escuras, cabelo ralo e os ossos
do corpo aparentes. A família fez uma feijoada para recepcioná-la.
Carol recusou-se a comer. Diante da insistência da mãe, ingeriu um
pedaço de pão. Foi o suficiente para que vomitasse na frente de
todos. Ela não conseguia mais se alimentar, um sintoma clássico
da doença em seu estágio avançado. "Minha sobrinha dizia
que a comida não entrava", conta Mirtes Reston. A L'Equipe sugeriu que
a modelo procurasse um psicólogo. Chegou a marcar duas consultas para ela
com um especialista, mas Carol nunca compareceu às sessões. "Ela
chorava e dizia que não precisava de médico", lembra a mãe.
"Eu aceitava porque não sabia que anorexia podia matar."
Lailson
Santos
 | | Miriam,
a mãe: "Eu não sabia que anorexia matava" |
No
currículo de Carol constam trabalhos para grifes famosas, como Armani,
Fendi e Dior. Em seus últimos meses de vida, no entanto, ela ganhou pouquíssimo
dinheiro como modelo. De novembro de 2005, quando voltou ao Brasil, até
o dia em que morreu, recebeu apenas 988 reais por três trabalhos: um desfile,
um editorial e um catálogo de moda. Para continuar ajudando em casa (era
responsável pelas compras de supermercado, algumas das contas e metade
do pagamento do convênio de saúde do pai), distribuía panfletos
em portas de boates e trabalhava como recepcionista em casas noturnas na região
de Jundiaí. Por esses trabalhos, recebia cerca de 50 reais por noite. A
mãe conta que, quando voltou do Japão, Carol trouxe um iPod de presente
para o irmão. Havia comprado um para ela também, mas este durou
pouco. "Assim que chegou, ela viu que a despensa estava vazia. No dia seguinte,
vendeu o aparelho para podermos fazer duas compras de supermercado", conta Miriam.
Quando foi internada, Carol estava
sem comer havia dois dias. Pesava 40 quilos e vestia calça número
34. "Antes de ir para o hospital, ela sentia muita dor nas costas e chegou a tomar
dez Buscopan (analgésico) de uma só vez", diz sua prima Ektan.
Internada pela família, sofreu uma parada respiratória ainda na
enfermaria. Morreu depois de ficar 21 dias na UTI, vítima de insuficiência
de múltiplos órgãos, septicemia e infecção
urinária. Carol tinha dois projetos para 2007: fazer uma viagem de navio
pelas praias brasileiras com o namorado (já havia pago algumas parcelas)
e deixar a profissão de modelo. "Ela adorava o mar e dizia que queria prestar
vestibular para oceanografia", conta a mãe. Pobre menina. |