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Internacional A
nova África? Avanço do populismo
e falta de crescimento diminuem a importância da América Latina
 Diogo
Schelp Quando estudou em Paris, nos anos
60, o escritor argentino Marcos Aguinis conviveu com muitos estudantes africanos.
O continente vivia então um período de efervescência decorrente
do fim do colonialismo, e muitos desses jovens contou Aguinis num artigo
recente estavam interessados em estudar a história da América
Latina para não repetir seus erros. Infelizmente, os países africanos
não apenas replicaram descaminhos alheios como pioraram a situação
com barbaridades autóctones. O escritor lembrou de seus antigos colegas
porque, no seu entender, "a América Latina e a África estão
irmanadas na tendência de ser cada vez mais pobres em comparação
com o restante do mundo e em desperdiçar suas energias atribuindo ao exterior
a culpa por seus problemas". Esse comentário engendra uma questão
urgente: pode a América Latina estar seguindo o caminho africano em direção
à irrelevância global? A resposta é sim, ainda que a comparação
com a África deva ser tomada em termos.
O conceito América Latina designa um grupo heterogêneo de países,
de gigantes econômicos, como o Brasil, a pigmeus como a Nicarágua.
Exceto no Haiti, não se vêem entre eles o caos e a miséria
predominantes na África. O venezuelano Moisés Naím, editor-chefe
da revista Foreign Policy, publicada nos Estados Unidos, escreveu a respeito
disso que "a América Latina não compete no cenário mundial
em nenhum aspecto, nem mesmo como ameaça". Diferentemente dos inimigos
dos Estados Unidos em outros lugares, observa Naím, os latino-americanos
não estão sequer dispostos a dar a vida em nome do antiamericanismo.
A realidade é que, em comparação aos grandes mercados emergentes,
como a China e a Índia, a América Latina é um concorrente
menor, cuja importância global declina (veja
o quadro abaixo).
O atraso latino-americano ganhou, nos últimos anos, um reforço da
opção política por modelos de desenvolvimento que já
fracassaram no passado. Em graus variados, o populismo econômico retornou
à ordem do dia e agora dá as cartas da Argentina à Nicarágua.
Em toda parte, um discurso mais ou menos esquerdista serve para camuflar a constituição
de regimes autoritários. Na Bolívia, a nação mais
pobre da América do Sul, o governo empenha-se em expulsar os investidores
estrangeiros. Na Venezuela, em lugar de usar o dinheiro do petróleo para
criar empregos, Hugo Chávez optou pelo assistencialismo. Depois da década
perdida dos anos 80, com crescimentos baixos e hiperinflação, apostou-se
que as reformas liberais da década de 90 podiam colocar a América
Latina no rumo do crescimento e da diminuição da pobreza. As reformas,
no entanto, foram incompletas. "O Estado continuou grande e ineficiente, e não
se investiu em educação básica", disse a VEJA o peruano Carlos
Aquino Rodríguez, do Centro de Estudos Orientais da PUC, em Lima. Nesses
quesitos reside uma diferença profunda entre a América Latina e
a Ásia. Entre os latino-americanos, prevalece a idéia de que a solução
para seus problemas reside no capital físico (petróleo, gás,
cimento e minérios) de seus países. Presidentes populistas valem-se
dessa crença para manipular as esperanças da população.
Já na Ásia, onde os recursos naturais são mais escassos,
o foco é no capital humano a educação, fundamental
para melhorar a produtividade, é a prioridade. "Na América Latina,
os debates ideológicos tornam muito difícil encontrar uma visão
comum sobre o que é preciso fazer, como priorizar a educação
e atrair investimentos externos", disse a VEJA o vice-presidente da Colômbia,
Francisco Santos Calderón. David
Mercado/Reuters
 | | Em
Montevidéu, os ícones da esquerda latino-americana: nem todos são
iguais |
O peruano Alvaro
Vargas Llosa, do Instituto Independente em Washington, aponta três razões
para a crescente falta de importância da América Latina. A primeira
explicação é externa: os grandes temas que preocupam o mundo,
como o papel determinante reservado à China neste novo século e
a luta contra o fundamentalismo islâmico, não envolvem diretamente
a América Latina. As outras duas razões estão ligadas a fatores
internos. O primeiro é o desempenho econômico modesto. Nas últimas
três décadas, a economia latino-americana cresceu 2,8% ao ano, contra
3,3% da média mundial e 7,7% da Ásia. O segundo fator doméstico
é a incapacidade da elite pensante de definir um rumo para seus países.
"Ainda perdemos tempo debatendo questões básicas, como o tipo de
relação que queremos ter com o mundo desenvolvido, o que fazer com
nossas instituições políticas e que modelo de desenvolvimento
devemos adotar", disse Vargas Llosa a VEJA. Esse debate já foi encerrado
nos países emergentes da Ásia. Eles optaram pela democracia, pela
economia de mercado, por aumentar a produtividade e a competividade de sua indústria
e, sobretudo, pela integração à economia global.
Há 25 anos, a América Latina recebia o dobro dos investimentos externos
em comparação com os países emergentes da Ásia. Hoje
essa situação se inverteu. A América Latina passou a depender
muito mais das remessas enviadas pelos trabalhadores que exporta para os países
ricos (veja quadro).
Tradicionalmente, a América Latina é o quintal dos Estados Unidos.
Em momentos de crise política ou econômica, os americanos costumavam
interferir nos assuntos internos dos países da região. Depois dos
atentados de 11 de setembro de 2001, nem isso. Por fim, as calamidades da região
também não são páreo para aquelas que ocorrem na África
e, por isso, nem sequer despertam a compaixão de roqueiros irlandeses.
Duas décadas atrás, a América Latina tinha certa relevância
geopolítica porque, pela matemática da Guerra Fria, cada país
que caía na esfera de influência do inimigo era uma batalha perdida.
A Revolução Cubana e as guerrilhas de esquerda deram à região
destaque no conflito entre o capitalismo e o comunismo. Na década de 90,
com o fim das ditaduras na maioria dos países latino-americanos e com o
início das reformas liberais que incluíam privatizações
e abertura de mercado, o continente pareceu destinado a se tornar um lugar atraente
para negócios e investimentos. Esse interesse definhou em quase toda parte,
ainda que alguns países em especial Brasil, México, Chile
e Costa Rica tenham melhor desempenho na medida de seu grau de integração
à economia global. A irrelevância tem um preço: se o continente
afundar de vez na anarquia econômica e social, nenhum país rico se
incomodará em oferecer ajuda.

Com reportagem de
Denise Dweck e Thomaz Favaro |