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Brasil
Alguém quer comprar?
Em viagens lá fora e em contatos com líderes estrangeiros, Lula
atua como um bom vendedor  Otávio
Cabral Ricardo
Stucket/PR
 | | Lula
com Chávez, na inauguração da ponte entre os dois países |
Em sua 63ª viagem internacional, realizada na semana passada, o presidente
Lula inaugurou uma ponte que liga o Brasil à Venezuela e voltou a subir
no palanque eleitoral. Os 20.000 venezuelanos, o palanque, o clima de campanha...
e Lula não resistiu: voltou a atacar a imprensa, as elites, os empresários
e os banqueiros. A idéia era ajudar seu colega venezuelano Hugo Chávez
a reeleger-se pela terceira vez consecutiva. Como a campanha no Brasil já
acabou e não há mais novidade nem sequer no comportamento ambíguo
do presidente em relação aos alvos de seus ataques de palanque,
mais adequado agora é examinar outro aspecto de sua viagem internacional
e sobretudo porque viagens internacionais se tornaram um hábito
marcante de seu primeiro governo. Até agora, Lula fez uma média
de 1,35 visita ao exterior por mês, contra a média mensal de 0,85
viagem do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a quem o PT acusava de viver
mais no estrangeiro do que aqui. O aspecto positivo é que, nas suas viagens
para fora do país, Lula tem agido com boa dose de pragmatismo e se comportado
como um defensor exaltado dos interesses de empresas brasileiras no exterior.
Nisso ele se alinha com o que faz a diplomacia e os chefes de Estado dos países
que estão dando certo. A ponte
de 3,2 quilômetros entre o Brasil e a Venezuela custou 1 bilhão de
dólares, levou cinco anos para ser construída e só foi concluída
graças a gestões de Lula, que pressionou Hugo Chávez para
que quitasse os débitos do governo venezuelano com a construtora
a brasileira Odebrecht. Lula tem feito o papel de mascate brasileiro no exterior
com gosto e eficácia. Em junho passado, por exemplo, atuou como representante
comercial da Gerdau, a maior produtora de aço do Brasil, comandada por
seu amigo Jorge Gerdau que chegou a aparecer na lista de ministeriáveis
do segundo governo. A Gerdau tinha interesse em participar do leilão de
privatização da Siderperú, a empresa de siderurgia do Peru,
mas a venda estava ameaçada por falta de concorrentes. Informado disso,
Lula ligou para o então presidente do Peru, Alejandro Toledo, garantiu
que uma grande empresa brasileira daria um lance na compra e pediu que o leilão
fosse mantido. Dias depois, Lula tratou do assunto em audiências em Brasília
uma com Gerdau e outra com o próprio presidente peruano. Deu tudo
certo. No dia 28 de junho, o leilão foi realizado e a Gerdau arrematou
a Siderperú por 60 milhões de dólares. Fotos
Liane Alves/José Cruz/ABR
 |  | | Gerdau,
que recorreu a Lula para um negócio no Peru, e Amorim (à dir.):
mudanças |
Há
duas semanas, na entrega de um prêmio para empresas em São Paulo,
Lula fez questão de lembrar seu papel de abre-alas para empresas brasileiras
lá fora. "Quem viaja comigo para o exterior sabe que eu sou um verdadeiro
mascate", disse. Há casos em que nem é preciso viajar. Em abril
passado, o diretor presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, esteve
com Lula em Brasília e fez uma queixa objetiva: o governo de Moçambique
oferecera incentivos fiscais a mineradoras chinesas para explorar jazidas próximas
à explorada pela Vale e pela qual, sem incentivo algum, a Vale pagou
120 milhões de dólares ao governo moçambicano. A empresa
achava que estava sendo discriminada, pois concorria com os chineses em condições
desiguais, mas o governo de Moçambique não lhe dava ouvidos. É
sabido que Lula telefonou para o presidente de Moçambique, Armando Guebuza,
mas não se conhece o conteúdo da conversa que tiveram. O certo é
que, depois do telefonema, os benefícios fiscais concedidos às mineradoras
da China foram cancelados e a Vale, agradecida pelo restabelecimento da
igualdade na concorrência, doou 6 milhões de dólares a programas
sociais destinados à população pobre na região das
jazidas. O recurso a negociações
diretas, sem a intermediação dos diplomatas, decorre da personalidade
de cada líder. O ex-presidente Bill Clinton fazia a mesma coisa. Quando
o governo brasileiro estava discutindo a bilionária construção
do Sivam, o sistema de vigilância da região amazônica, Clinton
telefonou para o então presidente Fernando Henrique e fez gestões
diretas em favor da Raytheon, a empresa americana interessada no negócio
e que acabou vencendo a concorrência. Seu sucessor na Casa Branca,
o presidente George W. Bush, é avesso a esse tipo de abordagem e limita-se
a ouvir quem o aborda. O primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, tem comportamento
parecido com o de Lula, e telefona diretamente para seus colegas. A primeira-ministra
da Alemanha, Angela Merkel, não tem o hábito de ligar para chefes
de governo em defesa de empresas alemãs, mas faz contatos diretos sempre
que entra em pauta algum assunto de interesse de seu país em organismos
multilaterais. Lula faz as duas coisas: defende empresas brasileiras e também
pontos de vista do governo em órgãos internacionais. Em várias
ocasiões, na tentativa de amolecer o protecionismo agrícola dos
países ricos, Lula já telefonou para Bush e Blair antes de reuniões
da Organização Mundial do Comércio (OMC). Marcos
d'Paula/AE
 | | Agnelli,
da Vale: ajuda de Lula em Moçambique |
No Itamaraty, sempre cioso de seu espaço, não surgiram sinais de
insatisfação com o estilo Lula de negociar e o chanceler
Celso Amorim parece estar entre os poucos nomes cotados para ficar no cargo no
segundo mandato. Ele já tomou a iniciativa de promover mudanças
em postos-chave, como a substituição do embaixador brasileiro em
Washington Roberto Abdenur, desafeto de Amorim, deixará o cargo
em favor de Antônio Patriota, braço-direito do chanceler. Outra mudança
prevista é mandar para a embaixada de Buenos Aires o secretário-geral
do Itamaraty, Samuel Guimarães, que construiu uma fama de bedel bolchevique
em Brasília. Em seu lugar, deverá ficar José Mauricio Bustani,
hoje servindo em Londres. O chanceler Amorim, se realmente ficar no segundo mandato,
quer acabar com a prática pouco disseminada no Brasil, mas ainda
viva de dar postos de embaixador a políticos que perdem as eleições.
Sua idéia é que todos os cargos de embaixador passem a ser ocupados
por diplomatas de carreira, o que significaria o fim do exílio de Paes
de Andrade, o peemedebista embaixador em Lisboa, e Tilden Santiago, o petista
em Havana. Com diplomatas ou políticos nas embaixadas, o fato é
que, como prova a atuação de Lula como mascate, o Brasil só
ganha com a ampliação de suas fronteiras econômicas. |