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Edição 1983 . 22 de novembro de 2006

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Existe coisa pior do que essa fama que pára a gente na rua? Sim, é essa fortuna roubada que você tem que passar a vida explicando e administrando.

DEKALOGO

Agora que houve grande renovação (mas houve, hein?) nos nossos representantes, não podemos deixar de dar alguns conselhos básicos aos novos parlamentares.

I

Marinheiros de primeira viagem, não fiquem a sotavento da lei, nem a barlavento da indignidade humana. Mas não confiem demais na bússola das intransigências democráticas.

II

Pois Brasília, poucos sabem, é uma capital mitológica. E mitologia nunca foi democracia. Consulte a maravilhosa mitologia grega. Ou qualquer outra.

III

Preparem-se para enfrentar a experiência de alguns luminares da "coisa pública" (assim, com aspas, sublinhado, em itálico e negrito), donos de uma retórica irrepreensível, apoiada numa longa vida de lutar em benefício próprio.

IV

Tratem os adversários com o respeito que eles merecem. Mas lembrem-se de que o Regimento Interno e a Ética (agora recauchutada) não permitem palavrões.

V

E não se esqueçam também de que os adversários só podem ser convencidos com argumentos próprios, quer dizer, impróprios.

VI

Cuidado! Se a oposição combater a corrupção sem liquidá-la, o governo logo se apodera dela a custo de liquidação, isto é, sem licitação (antigamente conhecida como concorrência).

VII

Pois esta é uma das verdades mais profundas da democracia: hoje em dia só se governa com a força (já não se pode mais usar a forca).

VIII

Pois, ao fim e ao cabo, aprendam logo, se já não sabem: todo partido político é uma gang com ideologia (e até sem ela).

IX

Ah!, e nada de dente por dente e olho por olho! Isso é fazer o jogo do inimigo que, analisem o princípio, vocês deixaram que começasse. Não façam o jogo do inimigo – vão de olho por dente, dente por orelha, língua por unhas. Como no velho princípio aristotélico (que estou inventando agora), respondam a ironia na porrada e com xingamentos dirigidos às genitoras, se houver acusação dramática.

X

De vez em quando, quase imperceptível, haverá no plenário um breve instante, já medido, de 37 segundos, de silêncio. É a democracia.

 

O LADO BOM

Agora, que já avançamos pelo século XXI, podemos fazer um pequeno balanço do que o século XX nos legou.

1 O atropelamento.

2 O salto suicida do décimo andar.

3 O envenenamento pela radioatividade.

4 A estupidificação pela televisão.

5 A queda do avião.

6 A democratização da aids.

7 A poluição, tornando verdadeira a frase "O mar não tá pra peixe".

8 O escorregão na Lua.

9 A morte no CTI.

10 A possibilidade de um final feliz, todo mundo acabando junto.

 

 
 
 
 
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