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CINEMA

Jogo Duro (Reindeer Games, Estados Unidos, 2000. Estréia nesta sexta-feira no Rio de Janeiro e outras capitais) – Quando já não se dava nada pelo veterano diretor John Frankenheimer, que nos anos 70 fez o clássico Operação França, ele ressurgiu com força em Ronin (1998), mostrando vigor no suspense e orquestrando uma das mais memoráveis perseguições de carro do cinema. Jogo Duro é sua nova investida. O herói da fita (Ben Affleck) é um condenado que acaba de sair da prisão. Trata-se de um sujeito de moral um tanto flexível. Tanto que pouco reluta em se fazer passar por seu colega de cela, que mal acabou de morrer, e ficar com a namorada dele (a beldade Charlize Theron). Como os pombinhos só trocavam cartas, sem nunca se terem visto, a artimanha não parece ser das mais complicadas – até que entra em cena o irmão mau-caráter da moça, e as coisas degringolam. Bem que poderia haver em Jogo Duro uma cena como aquela de Ronin, em que Robert De Niro dirige na contramão pelas ruelas de Paris. Mas Frankenheimer compensa a falta de um grande clímax com uma série de reviravoltas.

 

TELEVISÃO

Divulgação
Gilmore Girls: lar "alternativo"


The Gilmore Girls
(quintas, às 21h e 1h, no canal Warner) – Dentre as várias séries que estréiam neste mês na TV por assinatura, The Gilmore Girls é uma aposta certeira. Por vezes delicadamente dramática, por vezes engraçadíssima, narra as dificuldades e alegrias do relacionamento entre mãe e filha. Não se trata de uma dupla comum. Aos 32 anos, Lorelai (Lauren Graham) enfrenta a barra de ter engravidado na adolescência e de criar a filha sozinha, contra a vontade dos pais, numa cidadezinha conservadora da Nova Inglaterra. Rory (Alexis Bledel), por sua vez, passa pela fase da rebeldia e da iniciação amorosa. O seriado focaliza esse lar "alternativo" com naturalidade e alto-astral. No episódio de estréia, há uma seqüência divertidíssima: mãe e filha são paqueradas pelo mesmo sujeito num bar.

 

LIVRO

Garotos Incríveis, de Michael Chabon (tradução de Alves Calado; Record; 336 páginas; 30 reais) – Quando lançou seu primeiro livro, aos 24 anos, Michael Chabon foi saudado pela crítica americana como "a maior novidade desde J.D. Salinger". Mais recentemente, o jornal The New York Times o comparou a Philip Roth, gigante da literatura dos Estados Unidos. Elogios merecidos. Em Garotos Incríveis, Chabon conta a história de um romancista em crise, que tem compulsão pela escrita e não consegue colocar o ponto final num romance que já tem mais de 2. 000 páginas. Com humor digno de um veterano, o autor cria personagens e situações impagáveis, além de satirizar os meios intelectuais e a vida literária. Recentemente adaptado para o cinema pelo diretor Curtis Hanson, Garotos Incríveis é leve sem ser superficial. Roth que se cuide.

 

DISCO

Lovers Rock, Sade (Sony Music) – A nigeriana Helen Folasade Adu ganhou projeção em meados da década de 80 ao lançar o álbum Diamond Life. O disco – que rendeu o megassucesso Smooth Operator – continha a fórmula que iria caracterizar todos os trabalhos da cantora nos anos seguintes: baladas entoadas com voz de veludo, intercaladas com faixas mais dançantes. Nos últimos oito anos, Sade andou meio sumida. Foi presa em 1997 na Jamaica, por dirigir em alta velocidade, mas fora isso esteve ausente do noticiário. Com Lovers Rock, ela retoma sua receita romântica com alguns acréscimos: flerta timidamente com os ritmos eletrônicos na faixa By Your Side e até com o reggae, em Every Word. Sade continua a ser a trilha ideal para um encontro a dois. Seja no seu, seja no meu.

 

LITERATURA BRASILEIRA

A Máquina do Mundo Repensada

Haroldo de Campos
Ateliê Editorial
102 páginas,
30 reais

O que primeiro salta aos olhos no novo livro-poema de Haroldo de Campos é a ambição. A poesia brasileira contemporânea tem horizontes modestos. Fixou-se no cotidiano, nas pequenas coisas, nos pequenos dramas. A "grandeza" não está em seus planos. Haroldo, porém, mira bem alto. Em A Máquina do Mundo Repensada, seu tema é a estrutura do universo, abordado sob a ótica da física mais atual. Não bastasse a matéria difícil, o autor ainda se obriga a manejar um complicado instrumental poético. Seu texto tem 152 estrofes, cada uma com três versos decassílabos. A estrutura é a da "terza rima", forma celebrizada pelo italiano Dante Alighieri em sua Divina Comédia, no século XIV.

O livro de Haroldo divide-se em três partes. A primeira homenageia poetas que fizeram alegorias sobre a "máquina do mundo": o próprio Dante, o português Camões e o brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Para Haroldo, o que reúne esses autores tão diversos é o fato de todos haverem suposto um universo regido pela mão divina. Haroldo propõe trocar esse pensamento religioso por um pensamento científico. Assim, a segunda parte do poema compõe uma breve história da cosmologia, de Galileu a Einstein. Finalmente, no terceiro canto, Haroldo dá o pulo-do-gato. Lança-se numa descrição poética do Big Bang, a explosão que teria dado origem ao universo, segundo os físicos. Em seguida, discute duas teorias rivais sobre o destino final do cosmos: a tese da expansão contínua e a da retração. Não, o poema não oferece resposta definitiva sobre o enigma da realidade. A não ser que se aceite a idéia de que Haroldo é o princípio e o fim de todas as coisas.

Ao descrever a "máquina do mundo", Dante propôs um caminho de redenção moral. Camões expressou maravilhamento diante da criação. Drummond lamentou a incapacidade do homem do século XX de lidar com o sublime. Já Haroldo procura louvar, antes de mais nada, a curiosidade. Declarando-se agnóstico, ele diz que sua sina é "questionar e perquirir". Mas cabe perguntar: será que a poesia pode ter algum papel produtivo nesse tipo de investigação? No caso de A Máquina do Mundo Repensada, a resposta é negativa. Haroldo não oferece um novo mito poético de origem. Ele simplesmente resume o conhecimento disponível nos compêndios de física. E faz isso de maneira arrevesada. Sua mistura de verso metrificado e jargão científico mais complica do que clarifica. Ao adotar a "terza rima" – essa novidade de 700 anos –, o escritor optou pelo virtuosismo, não pela invenção. Ficaram longe os tempos do Haroldo vanguardista, cujo lema era inovar. Curioso. O autor sempre zombou dos "mestres" do verso artesanal. Mas foi no pedestal de mestre de uma arte antiga que ele se aboletou.

Carlos Graieb

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.

 

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