Luiz
Felipe de Alencastro
Nossos novos
diplomatas
"Longe
da estratégia dos diplomatas,
dos fricotes dos grã-finos e da afetação
dos intelectuais, os jogadores de futebol e
missionários difundem no exterior a imagem
do que há de melhor no povo brasileiro"
A
"imagem do Brasil no exterior" tem sido uma preocupação
obsessiva em nosso país. A coisa vem de longe. "Nós
somos brancos!", escrevia José Bonifácio ao governo
inglês logo após a Independência. Depois disso,
diferentes grupos de brasileiros expatriaram-se, alterando a imagem
de nosso país que os diplomatas e as elites brasileiras
pretendiam difundir nas capitais ocidentais. Do contingente de
fazendeiros do Império que iam torrar em Paris o dinheiro
tirado do trabalho escravo, ficou o personagem do "brasileiro",
em A Vida Parisiense (1866), opereta de Offenbach. Uma
exposição feita em Paris há alguns anos mostrou
que o figurinista de Offenbach concebera um personagem bastante
exótico: para os franceses da época, o "brasileiro"
rico levava mais jeito de passista de escola de samba que de janota
bronzeado. Na segunda metade do século XX, desfilaram nas
capitais européias os pracinhas vencedores da FEB, em 1945,
os exilados da ditadura entre 1964 e 1979. Agora, há a
massa de trabalhadores de todos os tipos oriundos do Brasil, de
top models, no alto da escala social, até os travestis,
na outra ponta. No meio desses expatriados, duas categorias estão
destinadas a ganhar destaque, alterando novamente a imagem do
Brasil no exterior: os jogadores de futebol e os missionários.
O futebol da seleção e das diversas equipes brasileiras
que vêm jogar na Europa rola dentro de um padrão
definido e apreciado. Um jogo coletivo e inventivo que transmite
a idéia de um país bastante organizado nas coisas
que toma a sério. Diferente poderá ser a impressão
deixada a médio prazo pelos jogadores brasileiros isolados,
espalhados por dezenas de times europeus e asiáticos. Um
dossiê publicado recentemente pela revista parisiense France
Football faz o ponto sobre o assunto. As cifras mais confiáveis
indicam que perto de 3.000 jogadores
deixaram o Brasil desde 1988 para jogar numa equipe estrangeira.
O pico foi registrado em 1997, quando cerca de 500 jogadores saíram
do país. Setenta e quatro jogam nos cinco grandes campeonatos
europeus (Alemanha, Inglaterra, Espanha, França e Itália).
Mais da metade chegou antes de 1999, entre os quais Aldair, do
Roma, atualmente o jogador há mais tempo em atividade.
A maioria trouxe a família e muitos estão decididos
a ficar. Qual sua imagem? Embora assinale a preocupação
com o tráfico de jogadores providos de falsos passaportes
europeus como ficou patenteado em incidentes na Itália
, a revista francesa demonstra apreço pela presença
dos profissionais brasileiros: "A França sente-se honrada
em abrir largamente suas portas a (esses atletas) que valorizam
suas competições e melhoram o jogo de suas equipes",
escreve France Football no editorial.
O segundo grupo de brasileiros que desempenha um papel importante
no exterior é formado pelos missionários. Uma reportagem
do jornalista Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo,
chamou a atenção sobre o assunto. Conforme os dados
do Centro Cultural Missionário, filiado à Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil, perto de 2.000
missionários católicos brasileiros (padres, freiras,
seminaristas e leigos) atuam no exterior. Cerca de 750 se encontram
na África, geralmente nos países lusófonos.
Quanto aos missionários evangélicos brasileiros,
seu número já atinge 1.500
no estrangeiro. Trata-se de gente mais tolerante diante de outras
religiões e sem vínculo com as grandes empreitadas
colonialistas e dominadoras que marcaram a atividade missionário-cristã
européia ou americana. Longe da estratégia dos diplomatas,
dos fricotes dos grã-finos e da afetação
dos intelectuais, os jogadores de futebol e missionários
difundem, em sua generalidade, a imagem do que há de melhor
no povo brasileiro: a imagem da sociabilidade e da tolerância.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador
(lfa@workmail.com)