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Roberto Pompeu de Toledo

A peruca e o povo

A trapalhada eleitoral americana resulta dos truques e temores dos tão amados
pais da pátria

Nunca os homens se vestiram com tanto apuro quanto no século XVIII. Pense-se nas calças culote terminadas abruptamente pouco abaixo do joelho e complementadas por meias compridas. Ou nas casacas, sob as quais se usavam coletes ornados com esplêndidos jogos de botões. Ao redor do pescoço amarrava-se um pano grosso, laboriosamente enlaçado, perto do qual a gravata, sua sucessora, pareceria simples trapo. Na face, os homens, assim como as mulheres – mas os homens é que nos interessam –, aplicavam grossas camadas de pó-de-arroz. E ainda havia, para culminar, a peruca. Não se usava peruca para esconder a calvície, mas porque era bonito – perucas brancas, de preferência, com caprichosos cachos a quebrar a monotonia dos pêlos lisos. Assim era na corte dos infaustos Luís XVI e Maria Antonieta, mas também entre os próceres da Revolução que, em nome do povo, na França, os degolaram e sucederam a eles. Nem Robespierre, o mais puro revolucionário, deixou de enfeitar a cabeça, enquanto a pôde conservar no pescoço, com vistosas perucas.

Do outro lado do Atlântico, entre aquele povo de agricultores escravistas que, rompidos os laços coloniais que o prendiam à Inglaterra, elaborava uma Constituição para viver por sua própria conta e risco, vigorava a mesma moda. Estamos falando dos Estados Unidos, claro, e o leitor sabe por quê: a enrascada eleitoral em que se meteram. A culpa é deles, daqueles senhores de peruca. Foram eles que inventaram o sistema pelo qual o povo é convidado a eleger mas não elege. Antes, elege os eleitores que, estes sim, elegerão. Atente-se para o paradoxo histórico que envolveu esses senhores. Ao mesmo tempo que empoavam o rosto e franziam as perucas, eles – e esse mérito ninguém lhes rouba – introduziram o moderno conceito de "povo" na política. Se não queriam mais reis, e condenavam ao descrédito o conceito de direito divino que sustentava as monarquias, alguma coisa tinham de arrumar para pôr no lugar. Arrumaram o povo. Mas como trazer o povo para o processo sem que ele atrapalhasse? Um dos remédios encontrados, no caso dos Estados Unidos, foi o "colégio eleitoral".

Ninguém, nesta era democrática em que vivemos, inaugurada no tempo dos senhores de peruca, é contra o povo. Pelo contrário, todos o amam. Alguns até se inebriam com seu cheiro. Maior do que o amor pelo povo, só o desamor. Ou, pelo menos, o temor por ele. No Brasil, um par de antológicas frases define tal sentimento. Uma delas é de Hipólito da Costa, que escreveu no Correio Braziliense, jornal em que fazia a propaganda da Independência: "Ninguém deseja mais do que nós as reformas úteis, mas a ninguém aborrece mais que essas reformas sejam feitas pelo povo. Desejamos as reformas, mas feitas pelo governo, e urgimos que o governo as deve fazer enquanto é tempo, para que se evite sejam feitas pelo povo". A outra, mais conhecida, uma espécie de reverberação da primeira, é do então governador (ou "presidente", como se dizia na época) de Minas Gerais Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, ao aderir à Revolução de 30: "Façamos a revolução antes que o povo a faça".

Pelo menos, ao reconhecer que o povo podia fazer alguma coisa, era um progresso em relação a outra frase, esta de um governante do México colonial, o marquês de Croix (1716-1788): "De uma vez por todas, devem saber os súditos do grande monarca que ocupa o trono da Espanha que nasceram para calar e obedecer, não para discutir nem opinar sobre os altos assuntos do governo".

Um dos heróis da Independência dos EUA, Alexander Hamilton, nos clássicos comentários à Constituição daquele país conhecidos como Federalist Papers, justi-ficou o sistema do colégio eleitoral com dupla argumentação. Por um lado, escreveu, "era desejável que o julgamento do povo atuasse na escolha". Por outro, "era igualmente desejável que a eleição fosse feita pelos mais capazes". Daí a necessidade de, entre o povo e o eleito, interpor um filtro, uma instância purificadora e corretora da manifestação primitiva.

Em outras palavras, mais toscas, Hamilton desconfiava que o povo não sabe votar. Pelé disse a mesma coisa e não é perdoado até hoje.

No final da semana passada, delineava-se final pouco alentador para qualquer um dos contendores nos EUA. Ganhasse um, e ia-se dizer que é porque roubou. Ganhasse o outro, e se diria que é porque não quis aceitar a vitória do adversário e apelou para recursos extra-eleitorais. Era a indesejada surpresa que os founding fathers, os "pais fundadores" tão invocados pelos americanos, aqueles senhores que, uma pena na mão e uma peruca na cabeça, rabiscaram a mais velha Constituição ainda em vigor no mundo, haviam armado para os descendentes do limiar do século XXI.

O vencedor, qualquer que fosse, ficaria com cara de perdedor. E o perdedor, qualquer que fosse, ficaria com cara de ganhador.

 

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