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Sob fogo cerrado

Igreja e Justiça atacam Laços de Família
e Globo reclama de censura

Silvia Rogar

 
Cristiana Isidoro/ divulgação TV Globo
José Mayer em momento caliente com Deborah Secco: "conotação sexual e violência"

Desde que a versão original da novela Roque Santeiro foi impedida de ir ao ar pelo regime militar, 25 anos atrás, a Rede Globo não enfrentava problemas tão sérios com sua programação. Primeiro foi a Igreja Católica, que há cerca de um mês proibiu que seus altares fossem usados na gravação de um casamento da novela das 8, Laços de Família. Alegação: a trama seria contrária aos valores religiosos, por abordar temas como prostituição e gravidez fora do matrimônio. Na semana passada, a Globo tentou driblar o boicote utilizando como cenário uma capela da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Não deu certo. O padre responsável pela igrejinha ficou ameaçado de perder seu posto e, para não prejudicá-lo, a emissora jogou fora todo o material gravado. No plano secular também surgiram dificuldades. Por causa de uma ação do Ministério Público, à qual a 1ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro concedeu liminar, Laços de Família passou a ser exibida às 9 da noite. O programa não estaria adequado a seu horário original por ter "cenas com conotação sexual e imagens de violência". Todos os atores menores de 18 anos foram afastados das filmagens. A Justiça considerou prejudicial a presença do menino Andrey Beltrão, de 1 ano, em cenas de discussão violenta. Nem a filha do autor Manoel Carlos, Julia Almeida, de 17 anos, foi poupada. Como os demais atores mirins, ela não tinha alvará do Juizado de Menores para atuar. A Rede Globo recorreu da decisão, mas a briga certamente terá outros capítulos.


Fernando Martinho
Julia Almeida: impedida
de atuar


O responsável pelo julgamento da ação da semana passada foi o juiz Siro Darlan, que de tanto criar imbróglios deveria constar dos créditos das novelas da emissora na condição de artista especialmente convidado. Agora ele trombeteia, fazendo eco à Igreja, que "o enredo da novela da Globo destrói os valores da família". Não é isso o que dizem diversos estudos sobre televisão. Eles mostram que as novelas estabelecem uma agenda para debates domésticos sobre temas como sexualidade, infidelidade ou divórcio. Mas não têm o poder de mudar o comportamento dos espectadores. Até porque a esmagadora maioria dos brasileiros vive muito, muito longe do microcosmo em que a maior parte dos folhetins é encenada: a Zona Sul do Rio de Janeiro, cujo padrão moral é bem mais elástico do que a média nacional. As novelas que tratam de assuntos mais fortes causam constrangimento em parte da audiência, isso sim. Muitos pais que têm filhos pequenos e não conseguem evitar que eles assistam a cenas lúbricas, violentas ou pontuadas por diálogos grosseiros tendem a achar que as novelas andam carregadas demais. Mas nada que dê motivo a alarme.

A Rede Globo também recorreu a argumentos exagerados nos últimos dias. Editoriais no Jornal Nacional e comentários de Arnaldo Jabor e Jô Soares davam a entender que a censura estava de volta. Em entrevistas, o autor de Laços de Família, Manoel Carlos, disse que toda a confusão decorria de "saudades da época de autoritarismo". Não é bem assim. Primeiro, porque há muita diferença entre uma decisão judicial, mesmo que questionável, e a arbitrariedade de um regime ditatorial. Tanto isso é verdade que a emissora recorreu das decisões da Justiça – algo que não pôde fazer na época de Roque Santeiro. Por enquanto, também não houve impedimento para que assuntos polêmicos fossem abordados na novela. Temas como prostituição, violência, doenças e relacionamento entre pessoas de idades diferentes não tiveram de ser cortados da história. A briga está restrita ao problema com os menores que trabalham no folhetim e à adequação entre conteúdo e horário (por sinal, há nove Estados brasileiros que não estão participando do horário de verão, o que significa que continuam veiculando a novela às 8 da noite). Deixando de lado os equívocos das partes envolvidas, o fato é que seria ótimo se as emissoras implementassem de verdade o que vivem defendendo: a auto-regulamentação. Essa medida talvez fizesse a Globo resgatar um antigo procedimento: o de veicular novelas mais pesadas no horário das 10 da noite.

 

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