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Passos tristes

Dançando no Escuro é um musical estranho,
que manipula as emoções do espectador

Isabela Boscov

O diretor dinamarquês Lars von Trier, de 44 anos, é um tipo raro. Desde que começou a carreira, em 1977, mostrou ser um experimentador arrojado, que subverte sem dó as regras do cinema. Isso não significa que faça filmes chatos ou inacessíveis. É dele, por exemplo, o suspense O Elemento do Crime, um dos filmes europeus mais surpreendentes dos anos 80. Von Trier é também um dos fundadores do Dogma, o movimento que prega a simplicidade absoluta no cinema e resultou em fitas celebradas, como Festa de Família e Os Idiotas – este de sua autoria. Seu mais recente trabalho, Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, Dinamarca/Suécia, 2000), estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro. Vencedor do Festival de Cannes deste ano, o filme preserva alguns mandamentos básicos do Dogma – a câmara está quase sempre na mão, e praticamente não se usa luz artificial. De resto, porém, o diretor manda para o espaço as regras que ele próprio ajudou a criar.

Dançando no Escuro é, para começar, um filme de época. Ele se passa nos Estados Unidos dos anos 60, onde a imigrante checa Selma (interpretada pela cantora islandesa Björk) é operária numa fábrica e enfrenta um mundo de adversidades. Selma está ficando cega e sabe que transmitiu sua doença ao filho. Para dar a ele a chance de uma cirurgia salvadora, trabalha todas as horas do dia e leva uma vida espartana, na qual não há lugar nem mesmo para as atenções do admirador Jeff (o extraordinário Peter Stormare), que a venera. Selma só tem duas alegrias: a amizade de Kathy (a bela e competente Catherine Deneuve) e os musicais de Hollywood, que recria em sua mente. Como as melhores heroínas de melodrama, Selma é uma santa – e o enredo logo cuidará para que ela se torne uma mártir também, colocando em seu caminho provações inimagináveis.

A imagem esquálida do vídeo digital incomoda, mas é uma tradução fiel da vida de Selma. Os números de dança, musicados pela própria Björk, são o oposto do que o gênero americano prega. Melancólicos e estranhos, eles revelam o tumulto interior da protagonista. É simplesmente arrasadora a cena em que, ao som de um trem que passa, ela canta que já viu tudo o que havia para ver neste mundo. A própria Björk (também premiada em Cannes) é um caso à parte. Sem treinamento de atriz, ela não sabe projetar seus sentimentos. Por isso são melhores os momentos em que contracena com atores que sabem "amplificá-la", como Stormare e Catherine. Mas é evidente que ela sofre ao interpretar sua personagem e que não tem meios de se defender dela. Talvez por isso Björk tenha acusado Von Trier de ser um "pornógrafo emocional". Dançando no Escuro às vezes beira o obsceno na maneira como explora o tormento de Selma, obrigando a platéia a odiar sua passividade e amar sua santidade. É uma espécie de experiência religiosa compulsória. Não há dúvida de que Lars von Trier tem um talento descomunal. É um manipulador e tanto.

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