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As marmanjas superpoderosas

As Panteras é kitsch e imita Matrix e
Missão Impossível. Mas tem lá sua graça

Isabela Boscov

 
Peggy Sirota
Drew, Cameron e Lucy: disseram que elas trocaram sopapos de verdade. Tudo mentira, é claro

A cena inicial parece uma daquelas seqüências de abertura dos filmes de James Bond: uma dupla de pára-quedistas salta de um jato em pleno vôo, levando consigo um bandido e uma bomba, e faz uma aterrissagem perfeita numa lancha, quilômetros abaixo. Só que a loira que pilota o barco está de biquininho dourado e, quando uma das pára-quedistas tira o capacete, a câmara esquece todo o resto para observar suas madeixas morenas se ajeitando ao vento. Se nesse momento o espectador não pegar a dica, é melhor nem insistir e trocar o cinema por outro programa. As Panteras (Charlie's Angels, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, não passa de uma grande brincadeira. Em vez de atenuar o tom kitsch de sua matéria-prima – o seriado homônimo dos anos 70, celebrizado pelo penteado "ventania" de Farrah Fawcett –, ele o abraça sem a menor cerimônia. Apreciado no devido espírito, porém, o filme funciona.

É lógico que, passadas duas décadas (o seriado deixou de ser produzido em 1981), as três superagentes do título não poderiam voltar à ativa sem um bocado de recauchutagem. Para quem não lembra, Dylan (Drew Barrymore), Natalie (Cameron Diaz) e Alex (Lucy Liu) formam um time de elite a serviço da Justiça e de Charlie, um milionário que banca suas peripécias e nunca se revela. O único contato que ele tem com suas protegidas é por meio do telefone e de seu lugar-tenente Bosley (Bill Murray). Ao contrário das aventureiras vividas por Farrah, Jaclyn Smith e Kate Jackson, contudo, as novas panteras não usam armas de fogo. Por imposição da estrela e co-produtora Drew Barrymore, que é mais chegada em margaridas e coraçõezinhos do que em pistolas, elas são obrigadas a resolver seus problemas na base da esperteza e das artes marciais. O estúdio adorou a exigência de Drew: ela é o pretexto perfeito para inúmeras cenas ao estilo de Missão Impossível e Matrix. O diretor Joseph McGinty Nichol, que saltou dos videoclipes e comerciais direto para essa superprodução, não faz questão de ocultar suas fontes de inspiração. Chega a ser engraçado o descaramento com que ele explora as idéias tiradas desses filmes.

Mas o maior trunfo do filme é mesmo o seu trio de protagonistas. Rechonchuda e com jeito de moleca, Drew Barrymore certamente não é o primeiro nome que viria à mente para viver uma pantera. Mas a atriz é uma revelação. Tem faro para a comédia, é sensual sem ser afetada e sabe parecer bonita mesmo sem sê-lo. É, de longe, a melhor das três. Logo na sua cola vem a magrinha Lucy Liu, que tem personalidade de sobra e é uma verdadeira ninja – é fácil lembrar dela como a dominatrix que surrava Mel Gibson em O Troco. A maior estrela do trio é, por ironia, quem mais deixa a desejar. Os produtores tiveram de implorar a Cameron Diaz (além de preencher um cheque de 12 milhões de dólares) para que aceitasse o papel. Se ela compensa o esforço é um ponto a ser discutido. Cameron interpreta aquele tipo de moça linda que sempre mete os pés pelas mãos – e que por isso mesmo é encantadora. Ou seja, não há nada aqui (à exceção de certos ângulos de seu derrière) que ela já não tenha mostrado em Quem Vai Ficar com Mary?. Sem falar que, nas cenas de luta, Cameron é a menos convincente. Nada, porém, que chegue a comprometer a sintonia entre as atrizes.

Dezessete roteiristas – Essa harmonia na tela foi forjada sob pressão, já que As Panteras foi uma das produções mais problemáticas dos últimos anos em Hollywood. Nada menos do que dezessete roteiristas botaram a mão na massa, alguns do primeiro time. "Nunca tanto talento foi empregado numa bobagem tão grande", diz um deles, Patrick Goldstein. Quando o set de filmagens foi aberto, o roteiro ainda não estava pronto, não havia um final escrito e a caracterização das personagens não passava de um esboço – muito do crédito pertence às atrizes, que tomaram as rédeas do problema. Para piorar, os palpites vinham de todos os lados, já que havia três times de produtores em ação ao mesmo tempo (inclusive aqueles do seriado original). Em meio a esse clima pesado, Drew, Cameron e Lucy tiveram alguns bate-bocas, que as revistas de fofoca se encarregaram de transformar em episódios de pugilato. Disseram até que elas precisaram recorrer a blusas de gola alta para esconder os arranhões resultantes das brigas. Como em geral acontece, os contratempos noticiados – e exagerados – pela imprensa ajudaram no marketing. Em apenas dez dias de exibição, o filme faturou quase 77 milhões de dólares nos Estados Unidos. Só faltam 15 milhões para o estúdio recuperar o investimento. Como diz Cameron Diaz, "aquilo que não mata fortalece". Pois é.

 
Farrah, Kate e Jaclyn: aos tropeços

O que aconteceu com elas?

Rainhas da televisão quando As Panteras foi lançado, em 1976, as atrizes do seriado não envelheceram lá muito bem. É verdade que, hoje cinqüentonas, elas continuam enxutas. A carreira é que anda tropeçando. Com dois maridos (os atores Lee Majors e Ryan O'Neal) e muitas escovas a menos, Farrah Fawcett é quem tem se saído melhor. Depois de uma desastrosa aparição no programa de David Letterman, em que parecia embriagada, ela alcançou algum prestígio em filmes como Dr T and the Women, de Robert Altman. Já Jaclyn Smith e Kate Jackson só conseguem papéis em telefilmes sem expressão.

 

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