Raízes
do caos
Obra
dos anos 60 continua atualíssima ao
detectar
os problemas das grandes cidades
Regina Meyer*
Rogerio Montenegro
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| O
trânsito infernal de São Paulo: projetos voltados apenas para
questões de trânsito romperam o tecido urbano |
Sob
a pressão do extraordinário aumento do número
de veículos em suas ruas, várias metrópoles
brasileiras executaram, nos últimos vinte anos, projetos
de ajuste viário. Em Fortaleza ou Florianópolis, no
Rio de Janeiro ou Recife, os resultados foram muito semelhantes.
A criação de vias expressas, cortando bairros já
plenamente consolidados, causou profundas perturbações.
A Avenida Tiradentes, em São Paulo, é um exemplo disso.
Em sua origem, ela era ampla, moderna e arborizada. A partir dos
anos 70, essas invejáveis características foram sendo
gradualmente destruídas. Principal eixo dos acessos norte
e sul da metrópole, a Tiradentes sofreu constantes alargamentos
de suas pistas. A imensa ilha central pouco a pouco foi eliminada,
em nome da necessidade de mais espaço para os carros. Nos
anos 90, a incorporação de um guard-rail para separar
os dois sentidos de tráfego fechou o ciclo de perdas. A avenida
transformou-se em rodovia e a travessia de pedestres tornou-se muito
problemática. Graças a projetos voltados apenas para
questões de trânsito, rompeu-se o tecido urbano. Trechos
de bairros onde o cotidiano era equilibrado até bem pouco
tempo atrás passaram por uma profunda desorganização.
O
efeito "desvitalizante" e "desurbanizador" trazido por projetos
que vão na contramão do real funcionamento das metrópoles
é o tema de Morte e Vida de Grandes Cidades (tradução
de Carlos S. Mendes Rosa; Martins Fontes; 510 páginas; 37,50
reais), clássico da urbanista americana Jane Jacobs recentemente
lançado no Brasil. Publicada originalmente nos anos 60, a
obra ainda é uma leitura indispensável. Ora situada
na posição de dona-de-casa, que observa com argúcia
o universo cotidiano que a cerca, ora utilizando uma evidente cultura
teórica, Jane trabalha num duplo registro. Discute o vigor
e a coerência da "cidade real", produto das práticas
diárias de seus habitantes, e a debilidade e irracionalidade
das experiências criadas a partir de uma visão meramente
teórica da vida nesses centros.
A
tese central de Jane é bastante clara: o grau de urbanidade
de uma cidade, de um bairro ou de uma rua depende da vitalidade
ali presente. Vitalidade e decadência não estão
no texto de Jacobs em oposição simples, menos ainda
em sucessão temporal. O próprio título do livro
dá testemunho disso. A precedência da palavra morte
indica que Jacobs não está pensando num ciclo vital
das metrópoles cujo destino inexorável é a
decomposição. A autora sabe que os processos sociais,
dos quais a cidade é uma das mais eloqüentes expressões,
não cabem em comparações simplificadas com
o modelo biológico. Para ela, manejar a complexidade urbana
por meio de projetos e planos é uma tarefa séria,
necessária e possível. Mas é preciso
discriminar bem esses projetos. Suas análises e exemplos
têm por objetivo avaliar as ações capazes de
promover ou de destruir a vitalidade primordial das cidades. O convívio
entre atividades distintas no interior de um mesmo espaço
como morar, trabalhar, passear, fazer compras, conviver e
circular é a base da vida urbana. Ruas mal iluminadas,
calçadas esburacadas, parques segregados, quarteirões
muito extensos, equacionamento equivocado do convívio entre
pedestre e automóvel, eis alguns dos elementos físicos
e espaciais que corroem a urbanidade.
Escrevendo
nos anos 60, Jane Jacobs tinha por alvo combater as teorias mais
influentes da primeira metade do século XX. Ao referir-se
de maneira irônica à "cidade-jardim-bela-radiante",
ela fere de uma só vez três autores célebres.
Um deles é o inglês Ebenezer Howard (1850-1928), fundador
do conceito de "cidade-jardim". Outro é o americano Daniel
Burnham (1846-1912), mentor do Movimento Cidade Bela. E, por fim,
o alvo principal: o arquiteto franco-suíço Le Corbusier
(1887-1965) e todo o ideário modernista contido em seu paradigmático
projeto da "Cidade Radiante". Parte do interesse no livro, para
o leitor de hoje em dia, reside em verificar que a adoção
de soluções teóricas ou normativas acabou resultando,
em muitos casos, em situações contraditórias
com a vida real. Em nome de uma ordem abstrata, elimina-se a diversidade,
um dos atributos vitais das cidades.
Mas
a comparação dos problemas das metrópoles americanas
descritas por Jane nos anos 60 com as exauridas cidades brasileiras
contemporâneas também deixa claro que o "inferno urbano"
é conseqüência de pelo menos dois processos distintos.
No caso americano, os grandes males das cidades são indissociáveis
dos projetos equivocados. No caso brasileiro, é o inverso
que acontece. Exemplos como o da Praça da Sé, em São
Paulo, na qual a ação dos urbanistas teve efeito deletério,
são mais a exceção do que a regra. Aqui, a
erosão do ambiente instalou-se por causa da ausência
não só de planos, mas até da consciência
de sua necessidade.
Poucas
cidades brasileiras estão efetivamente empenhadas na recuperação
das condições de vida urbana. Um desses raros exemplos
é Curitiba. Desde os anos 70, a capital paranaense mantém
um processo de planejamento consistente. De maneira incipiente,
outras metrópoles também se mostram, hoje, alertas
para a necessidade de combater seus problemas urbanísticos.
O controle do tráfego, a reordenação do trânsito
e, em alguns casos, a recuperação das áreas
centrais têm sido elementos-chave dessas ações.
As cidades brasileiras podem, sim, ser recuperadas. Mas isso requer
uma maior integração das atividades urbanas e a revisão
das relações com o automóvel. Nesse cenário,
Jane Jacobs, com seu Morte e Vida de Grandes Cidades, permanece
uma referência muito atual.
* Regina Meyer é urbanista e professora da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade de São Paulo (FAU-USP)
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