Gestapo oriental
Os
imigrantes japoneses
que não aceitavam
a derrota
na II Guerra
Flávio
Moura
Eduardo Ortega

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Fotos
da revista Life fraudadas para fingir que o Japão venceu
o conflito: outra reportagem de Morais (foto ao lado)
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Terminada
a II Guerra, os americanos temiam que os japoneses, traumatizados
pela derrota, se tornassem intratáveis, hostis, vingadores
que sabotariam qualquer programa de paz. Em relação
aos japoneses do Japão, esse comportamento não se
verificou. Já com muitos japoneses que imigraram para o Brasil,
a história foi bem outra. Intratáveis, hostis, vingadores
foi exatamente nisso que se transformaram integrantes da
colônia nipônica no país. Incapazes de aceitar
a derrota do Japão na guerra, eles fundaram uma seita no
Estado de São Paulo, cujo propósito era levar ao extremo
a lealdade ao imperador e ao "espírito japonês". Entre
suas práticas estava até mesmo o extermínio
de compatriotas "traidores", que aceitavam a derrota. É a
história dessa seita, a Shindo Renmei, que o jornalista Fernando
Morais relata em Corações Sujos (Companhia
das Letras; 344 páginas; 31,50 reais).
O
livro mostra como os kachigumi, ou "vitoristas" da seita
Shindo, aterrorizavam a vida dos makegumi, os "derrotistas"
ou "corações sujos", geralmente japoneses de classe
mais alta já integrados à sociedade brasileira. Eles
mandavam cartas sugerindo a seus adversários que se suicidassem,
pichavam as paredes de suas casas e escalavam matadores para executá-los.
Chegaram até a fraudar várias reportagens que falavam
sobre a rendição japonesa na guerra. Num período
em que moravam 200.000 japoneses no país,
a "Ku Klux Klan nipônica" ou "Gestapo oriental", como a Shindo
passou a ser chamada pelos jornalistas da época, tinha 100.000
sócios e 60.000 simpatizantes.
Comandada por homens obcecados, a seita atuou entre os anos de 1946
e 1947, matou 23 pessoas e feriu outras 147.
Do
mesmo modo que em seus drabalhos anteriores, A Ilha, Olga
e Chatô, em Corações Sujos Fernando
Morais optou pela apuração minuciosa e relato sóbrio,
que raras vezes deriva para digressões e julgamentos. Tendo
em vista o tema, contudo, a forma se mostra insuficiente. Por que,
afinal de contas, 80% da comunidade japonesa no Brasil começou
a apoiar uma causa sem pé nem cabeça? Termos como
"lunáticos", "delírio" e "fanáticos", por vezes
utilizados por Morais, simplificam a questão e eximem o autor
de procurar os motivos que levaram ao fenômeno. Tudo bem que
a intenção era contar uma história, e não
fazer um tratado sociológico ou qualquer coisa que o valha.
Mas um trecho que tentasse analisar a questão mais a fundo
não faria mal nenhum. A única explicação
dada pelo autor é de que a derrota era inconcebível
para os kachigumi, porque, em 2.600
anos, o Japão nunca havia perdido uma guerra.
De
início, o episódio dos kachigumi e dos makegumi
deveria figurar como capítulo de um trabalho maior, sobre
fatos desconhecidos do século XX. No meio da pesquisa, Morais
apaixonou-se pelo assunto e preferiu dedicar-se exclusivamente a
ele. Naturalmente, o resultado tem foco mais circunscrito do que
em Olga e Chatô, cuja ampla reconstrução
de contexto histórico permitiu que se transformassem em referência
para estudos sobre a política, a cultura e mesmo a economia
brasileira do século XX. Ainda assim, Morais conseguiu levantar
dados interessantes sobre a situação dos imigrantes
no Brasil dos anos 40 e a participação do país
na II Guerra. Fez mais do que muitos historiadores, que papagueiam
sempre as mesmas teses sobre assuntos já estudados à
exaustão.
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