Artes e Espetáculos Livros

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Corações Sujos, de Fernando Morais

Morte e Vida de Grandes Cidades, de Jane Jacobs
A versão cinematográfica de As Panteras
Dançando no Escuro, com Catherine Deneuve e Björk
Roberto Carlos
A ofensiva contra a novela Laços de Família

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Gestapo oriental

Os imigrantes japoneses que não aceitavam
a
derrota na II Guerra

Flávio Moura

 
Eduardo Ortega
Fotos da revista Life fraudadas para fingir que o Japão venceu o conflito: outra reportagem de Morais (foto ao lado)

Terminada a II Guerra, os americanos temiam que os japoneses, traumatizados pela derrota, se tornassem intratáveis, hostis, vingadores que sabotariam qualquer programa de paz. Em relação aos japoneses do Japão, esse comportamento não se verificou. Já com muitos japoneses que imigraram para o Brasil, a história foi bem outra. Intratáveis, hostis, vingadores – foi exatamente nisso que se transformaram integrantes da colônia nipônica no país. Incapazes de aceitar a derrota do Japão na guerra, eles fundaram uma seita no Estado de São Paulo, cujo propósito era levar ao extremo a lealdade ao imperador e ao "espírito japonês". Entre suas práticas estava até mesmo o extermínio de compatriotas "traidores", que aceitavam a derrota. É a história dessa seita, a Shindo Renmei, que o jornalista Fernando Morais relata em Corações Sujos (Companhia das Letras; 344 páginas; 31,50 reais).

O livro mostra como os kachigumi, ou "vitoristas" da seita Shindo, aterrorizavam a vida dos makegumi, os "derrotistas" ou "corações sujos", geralmente japoneses de classe mais alta já integrados à sociedade brasileira. Eles mandavam cartas sugerindo a seus adversários que se suicidassem, pichavam as paredes de suas casas e escalavam matadores para executá-los. Chegaram até a fraudar várias reportagens que falavam sobre a rendição japonesa na guerra. Num período em que moravam 200.000 japoneses no país, a "Ku Klux Klan nipônica" ou "Gestapo oriental", como a Shindo passou a ser chamada pelos jornalistas da época, tinha 100.000 sócios e 60.000 simpatizantes. Comandada por homens obcecados, a seita atuou entre os anos de 1946 e 1947, matou 23 pessoas e feriu outras 147.

Do mesmo modo que em seus drabalhos anteriores, A Ilha, Olga e Chatô, em Corações Sujos Fernando Morais optou pela apuração minuciosa e relato sóbrio, que raras vezes deriva para digressões e julgamentos. Tendo em vista o tema, contudo, a forma se mostra insuficiente. Por que, afinal de contas, 80% da comunidade japonesa no Brasil começou a apoiar uma causa sem pé nem cabeça? Termos como "lunáticos", "delírio" e "fanáticos", por vezes utilizados por Morais, simplificam a questão e eximem o autor de procurar os motivos que levaram ao fenômeno. Tudo bem que a intenção era contar uma história, e não fazer um tratado sociológico ou qualquer coisa que o valha. Mas um trecho que tentasse analisar a questão mais a fundo não faria mal nenhum. A única explicação dada pelo autor é de que a derrota era inconcebível para os kachigumi, porque, em 2.600 anos, o Japão nunca havia perdido uma guerra.

De início, o episódio dos kachigumi e dos makegumi deveria figurar como capítulo de um trabalho maior, sobre fatos desconhecidos do século XX. No meio da pesquisa, Morais apaixonou-se pelo assunto e preferiu dedicar-se exclusivamente a ele. Naturalmente, o resultado tem foco mais circunscrito do que em Olga e Chatô, cuja ampla reconstrução de contexto histórico permitiu que se transformassem em referência para estudos sobre a política, a cultura e mesmo a economia brasileira do século XX. Ainda assim, Morais conseguiu levantar dados interessantes sobre a situação dos imigrantes no Brasil dos anos 40 e a participação do país na II Guerra. Fez mais do que muitos historiadores, que papagueiam sempre as mesmas teses sobre assuntos já estudados à exaustão.

 
Saiba mais
Da internet
  Entrevista com o escritor Fernando Morais - Rádio Veja

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco