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Servido debaixo da cúpula projetada pelo arquiteto Frank Lloyd Wright, um picadinho com couve e feijão-preto foi o cardápio oficial de uma festa brasileira no museu Guggenheim de Nova York, na quarta-feira passada. Mas a grande atração da noite, descrita pelo diretor da instituição Thomas Krens "como a celebração de um namoro cada vez mais firme com o Brasil", foram os preparativos para a construção de uma filial brasileira do Guggenheim, ao que tudo indica, no píer da Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Na verdade, o jantar deu a largada para um estudo de viabilidade que o museu promove em quatro cidades brasileiras: Curitiba, Salvador e Recife, além do Rio. Esse estudo, que levantará o potencial turístico, econômico e as vantagens fiscais a ser oferecidas por essas cidades ao Guggenheim, será concluído em 2001. Daí em diante, depois de aprovar oficialmente o endereço do Guggenheim brasileiro, haverá um concurso para definir quem assinará o projeto arquitetônico. A filial brasileira deverá ser a primeira empreitada do Guggenheim no Hemisfério Sul. Dirigido como se fosse uma empresa por Krens, que aliás é formado em administração pela Universidade Yale, o museu está se transformando numa espécie de McDonald's da arte, abrindo uma cadeia de filiais em vários pontos do planeta. Além de sua estupenda porém acanhada matriz na Quinta Avenida e outra no Soho, o Guggenheim hoje tem unidades em Berlim, Veneza e Bilbao. Planeja também uma nova sede em Nova York projetada por Frank Gehry o mesmo arquiteto do mirabolante projeto de Bilbao para o sul da Ilha de Manhattan. A obra está orçada em mais de 1 bilhão de dólares. Como se não bastasse, o Guggenheim constrói uma nova galeria junto a um cassino e a um hotel em Las Vegas.
Assédio Desde que o Guggenheim espanhol foi inaugurado, em 1997, Krens tem sido assediado por governos do mundo todo. "O chamado efeito Bilbao é mesmo impressionante", diz ele. "Eu e o Frank já recebemos mais de sessenta pedidos para filiais do museu." Recentemente, Áustria, Austrália, África do Sul, Argentina e Chile tentaram seduzir Krens. Mas nenhum desses países conseguiu ultrapassar o Brasil na corrida pelo Guggenheim. Além da festa em Nova York, o grande trunfo brasileiro foi a visita que Krens e Gehry, que o assessora no estudo de viabilidade, fizeram ao Brasil no começo do mês. Ambos têm se desmanchado em elogios sobre o país (veja entrevista com Gehry). Como se vê, a corrida por uma filial do museu se parece cada vez mais com a competição para escolha da cidade-sede das Olimpíadas. "O contrato do Guggenheim no Brasil estabelecerá que o museu não vai poder erguer nenhuma outra filial na América do Sul", diz o banqueiro Edemar Cid Ferreira, pai da idéia de trazer a instituição para o Brasil e seu principal articulador. É fácil entender o "efeito Bilbao". Uma cidade decadente do País Basco, Bilbao renasceu depois do Guggenheim. Desde 1997, ele gerou para o lugar uma atividade econômica de 514 milhões de dólares, entre serviços de hotelaria, transportes e entretenimento. Nos últimos três anos, o governo local, que investiu cerca de 100 milhões de dólares na construção do prédio, já recuperou todo o investimento na forma de impostos. Agora, é a vez de os políticos brasileiros brigarem entre si. O futuro prefeito do Rio, Cesar Maia, já teria oferecido a Krens uma verba de 100 milhões de dólares para o projeto. O vice-presidente Marco Maciel, um pernambucano, também tem feito um lobby pesado para que o Guggenheim vá para o Recife. Por sua vez, o governador paranaense Jaime Lerner se dispôs a ceder um edifício público já pronto, de autoria de Oscar Niemeyer, para levar o museu para Curitiba. São Paulo foi descartada numa fase anterior da seleção por não ter vocação turística. É justamente por ser o cartão-postal brasileiro mais conhecido no exterior que o Rio desponta como o favorito na corrida. Também é possível que o Brasil possa abrigar dois Guggenheim, um de grande porte, estimado em 300 milhões de dólares, e uma galeria menor. Nesse caso, o Rio ficaria com o museu maior e Curitiba, Salvador e Recife brigariam pelo menor. De acordo com Edemar Cid Ferreira, o principal endereço do Guggenheim no Brasil incluirá, além do museu, uma casa de espetáculos e um shopping center. "Os museus em si nunca são uma atividade lucrativa", diz ele. Dono de um pequeno banco, o Santos, cujo patrimônio é de 250 milhões de reais, Edemar é um mecenas agressivo, com uma mentalidade empresarial rara no Brasil. Nos anos 90, ficou célebre por presidir a Bienal de São Paulo, reerguendo-a depois de um longo período de declínio. Sem se deter em conceitos estéticos, tem conseguido levantar fortunas com grandes empresas, que deduzem do imposto de renda parte do dinheiro gasto para patrocinar as exposições que ele promove. Sua última iniciativa, a Mostra do Redescobrimento, custou 24,5 milhões de dólares e atraiu um público de 1,9 milhão de pessoas. Foi justamente a partir de um convite feito a Thomas Krens para conhecer a mostra em São Paulo que Edemar jogou o anzol sobre o Guggenheim brasileiro. Agora, Edemar parte para um vôo bem mais ousado. Ele acaba de fundar uma sociedade privada sem fins lucrativos em Nova York, o Brazil-U.S. Council, para conseguir patrocínios entre pessoas físicas e jurídicas americanas. "Temos autorização legal do governo americano para pleitear patrocínios que dêem direito à isenção fiscal", diz. A organização ocupa um amplo conjunto de salas na caríssima Avenida Madison, em Nova York. O dinheiro a ser levantado servirá tanto para ajudar a custear o Guggenheim no Brasil como para bancar outras iniciativas. A primeira da lista é uma exposição de 8,5 milhões de dólares sobre arte barroca e o modernismo brasileiro a ser inaugurada pelo Guggenheim de Nova York em setembro de 2001. A segunda, uma mostra sobre arqueologia e a natureza amazônica, que será aberta no British Museum, de Londres, na mesma época. O banqueiro jura não querer ganhar dinheiro com seu lado mecenas nem sonhar com uma carreira política. "Faço isso tudo porque acho que chegou a hora de projetar uma imagem positiva do Brasil no exterior", ele diz. "Boa parte do noticiário sobre nosso país só fala de miséria e violência." Do próprio bolso, Edemar pagou a conta de 82.000 dólares da festa em Nova York na semana passada. Sua história lembra, em menor escala, a de magnatas americanos, como o banqueiro Nelson Rockefeller, um dos criadores do MoMA, e o industrial Andrew Carnegie, fundador da casa de espetáculos que leva seu nome em Nova York. Em comum, todos eram empreendedores de sucesso, cujo gosto pela arte, junto com uma bela dose de vaidade, os moveu a construir grandes museus, bibliotecas e casas de espetáculos.
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