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A vida na linha de tiro

As vítimas mais freqüentes da violência
nas grandes metrópoles brasileiras são
os próprios policiais

Ronaldo França

 
Oscar Cabral
Conjunto de apartamentos para PMs, no Rio: hoje cercado pelas favelas e pelo tráfico

Todos os dias se repetem, no Rio de Janeiro, cenas de guerrilha. Policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) fortemente armados invadem uma ou duas das 600 favelas da cidade para combater o tráfico de drogas. Os PMs entram nas vielas muito tensos. Em cada beco, podem levar um tiro. Os cachorros latem freneticamente. Os moradores, assustados, gritam para que as crianças entrem em casa. Os policiais se comunicam por breves sons guturais. Quando a presença deles é percebida, um dos vigias do tráfico solta fogos de artifício, avisando aos outros que tem polícia no terreno. O combate vai começar e não será fácil. Os dois lados têm fuzis de grosso calibre, mas os bandidos são mais bem equipados.

Se esses combates fossem excepcionais, até que seria razoável para os fardados neles envolvidos. O problema é que dar tiro e levar tiro tornou-se rotina. Elmo Moreira, tenente carioca, comanda uma dessas equipes que enfrentam traficantes e não descansa nem quando vai para casa. Com 39 anos, salário de 1.500 reais, há dezoito anos não faz outra coisa senão arriscar-se. No caminho para casa, num subúrbio distante 80 quilômetros do local de trabalho, Moreira mantém a atenção redobrada. A entrada no ônibus é precedida de uma análise das saídas possíveis e do melhor ângulo de visão. Na van, o transporte alternativo entre o centro e o subúrbio, não entra sem estudar a fisionomia de cada passageiro. No contato com a vizinhança, os mesmos cuidados. "É uma vida de eterna vigilância", diz Moreira.

Não é um caso isolado. Entre os integrantes das polícias Civil e Militar de todos os Estados, o Brasil tem 470.000 policiais. São profissionais para quem a taxa de mortalidade supera em muito a de todos os outros ofícios. Nesta década, 7.200 policiais foram mortos ou feridos somente no Estado do Rio de Janeiro. Em 1998, a taxa de homicídios em São Paulo, segundo dados da Fundação Seade, foi de 3,9 pessoas para cada 10 000 habitantes. Entre os policiais militares, o número foi mais que o dobro.

É uma profissão arriscada por natureza, mas especialmente perigosa num país que foi tomado de assalto pela violência urbana. Vive-se um cotidiano cujos valores foram estranhamente invertidos, numa fábula macabra: a caça quer matar o caçador; quer a sua cabeça como simples troféu. Se andar pelas ruas, fardado ou não, já é um ato de risco para o policial, morar próximo a uma favela dominada pelo tráfico transforma-se numa aventura diária. Esse desafio se repete por todo o país, mas ganha proporções maiores no Rio de Janeiro, com suas favelas e comunidades pobres dominadas pela marginalidade. Para o policial que mora ali, torna-se tênue a linha entre a obediência à lei e a conivência com bandidos que moram na sua vizinhança. À sua frente surgem três alternativas. Pode tentar combater a criminalidade no bairro em que vive, numa atitude que, sem o planejamento de uma operação militar, soa como tática suicida. Outra opção é fechar os olhos. Neste caso, parece um paradoxo. No estatuto dos funcionários públicos, deixar de cumprir uma obrigação funcional – como, no caso, prender um bandido – é considerado crime de prevaricação. Mas, na realidade da vida policial, pode ser uma questão de sobrevivência. A terceira opção é a conivência com os criminosos. O policial passa a colaborar com informações em troca da segurança e tranqüilidade de sua família. "O segredo é evitar o contato", ensina o tenente Moreira.

Essa é a lição mais importante no manual de sobrevivência dos moradores do Conjunto Habitacional da PM, em Olaria, subúrbio do Rio de Janeiro. São 2.300 apartamentos pequenos, construídos na década de 70 especialmente para os policiais militares, num local que na época era seguro para morar. Com o tempo, o conjunto dos PMs foi cercado pelos barracos e pelo tráfico de drogas. Formou-se lá o Complexo do Alemão, um conjunto de favelas interligadas que é hoje a região mais perigosa do Rio. Esta é também a área onde mais policiais morrem ou são feridos. Visto do alto, o conjunto, encurralado, parece querer saltar em meio aos barracos. O "bonde", como foi batizado o comboio de bandidos que se deslocam juntos por algumas ruas da cidade, passa pela avenida principal do conjunto pelo menos duas vezes por dia.

O cabo PM Francisco Barreto mora em Bangu, subúrbio carioca. Sua casa situa-se próximo de cinco favelas perigosas. "Nos fins de semana, fico dentro de casa com minha mulher e os filhos. Para sair, tenho de evitar certos lugares e sempre ter atenção redobrada", diz o cabo Barreto, há quinze anos na PM. Esse tipo de insegurança, muito comum na vida dos policiais militares brasileiros, é péssimo para eles e também desastroso para a segurança pública. Profissionais inseguros tornam-se presas fáceis de seus próprios erros. O primeiro deles é se tornarem mais violentos. Na crença de que se pode produzir paz com mais violência, sucessivas políticas de segurança pública foram assentadas sobre a prática do enfrentamento. Policiais cada vez mais bem armados passaram a caçar bandidos dotados de arsenais bélicos inacreditáveis. "Sabemos que nosso trabalho é enxugar gelo. Mas é isso ou uma inundação", reconhece o comandante geral da PM do Rio, coronel Wilton Ribeiro. Em estado de guerra declarada, os bandidos não hesitam em matar um policial quando o reconhecem. Em meados do mês passado, o sargento Júlio Cesar da Silva, de 37 anos, cumpria a rotina de rondas num bairro do subúrbio, revistando dois homens. Bandidos passaram na rua, viram a cena e atiraram. Morreram Júlio Cesar e um dos homens que revistava.

A rotina de viver entre o risco do combate direto e o medo da emboscada é uma das principais causas do elevado número de suicídios nas corporações. Na cidade do Rio de Janeiro, o número de policiais que tiraram a própria vida é sete vezes maior que o da média da população em geral. "A atividade policial no Brasil é uma das mais complexas que existem e pela própria natureza produz elevado nível de stress", afirma a antropóloga Jacqueline Muniz, que é, junto com a socióloga Bárbara Soares, a autora do principal estudo feito no país sobre o tema. "Nos Estados Unidos, onde existe uma política de mais eficiência e menos confronto, a taxa de suicídio de policiais se equipara à de mineradores e agricultores, profissões bem menos estressantes."

Para enfrentar essa espécie de desafio, que tipo de profissional existe? Um policial mal pago, que vive em péssimas condições e não tem formação adequada para a função que desempenha. Um soldado ganha, no Rio e em São Paulo, entre 600 e 900 reais por mês. Para ser "soldado do tráfico", pode receber três vezes mais, em média – e seguramente arriscando a vida do mesmo modo. Quanto à escolaridade, na maioria dos Estados exige-se apenas o 1º grau para o ingresso na polícia. Em qualquer ramo, profissionais despreparados são os que mais se desgastam para realizar as tarefas mais simples. Se o trabalho já é neurotizante, é nas folgas que acontece o maior número de mortes e ferimentos. O trânsito é o principal responsável pelas mortes, como de resto acontece com toda a população brasileira. Mas não é o único motivo. Para complementar os baixos soldos, os policiais fazem serviços extras de segurança. Na maioria dos casos, em condições de segurança muito menos favoráveis que as fornecidas pelo Estado. Há também os policiais que morrem por se envolver com o mundo do crime. Não há estatísticas que mostrem o tamanho dessa promiscuidade, embora aos olhos da população o envolvimento de policiais com o crime já se tenha tornado um problema grave.

Há quatro anos preso na Polinter, o inspetor José Carlos Bravo, 47 anos, tem ainda 79 anos a cumprir. Ele foi condenado por integrar um grupo de extermínio formado por policiais que atuavam na Zona Oeste do Rio e alega que o verdadeiro chefe da quadrilha era um delegado. Na Polícia Militar, onde um rigoroso código de conduta pune até mesmo quem deixa de oferecer sua cadeira a um superior, a cadeia tem a porta de entrada mais larga. Apanhado em flagrante, o PM pode ser expulso em menos de dois meses. Em 1999, a PM do Rio entregou 598 de seus homens à Justiça. Em São Paulo, foram 478. Na Polícia Civil, esse mesmo processo pode se arrastar por anos. Mesmo presos, os policiais custam a se desfazer da imagem de poderosos e dificilmente admitem seu erro.

É na divisão de captura da polícia fluminense, a Polinter, que ficam detidos os policiais expulsos que aguardam o momento de ingressar de vez no sistema penal. "O policial é diferente dos outros presos. Ele tem uma crença acima da média na impunidade", diz Álvaro Lins, o delegado titular da Polinter. Em tese, os policiais deveriam acreditar na Justiça para todos. Se os próprios agentes da lei não crêem em seu rigor, algo está errado. Somem-se a isso problemas estruturais mais graves: a altíssima taxa de risco profissional e o elevado índice de banditismo entre os próprios policiais. O que fazer? Fica difícil imaginar o sucesso de qualquer política de segurança pública que não tenha como ponto principal uma especial atenção para que se saiba quem é, com quem anda e como vive o policial brasileiro. Caso contrário, quem corre perigo de fato é o cidadão.

 

 

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