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Os Jardins de ouro

Com supergrifes de luxo enfileiradas na
calçada, o quadrilátero comercial mais
chique do Brasil ganha sua maior loja

Maria Rita Alonso

Mário Rodrigues
Os sócios André Brett e Michelle Nasser na nova Emporio Armani: café, CDs, livros e um estoque de 18 000 peças no terceiro maior endereço da grife no mundo

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A região de São Paulo conhecida como Jardins espalha-se por uma vasta área limitada por quatro das mais conhecidas avenidas da cidade: Paulista, Faria Lima, Nove de Julho e Rebouças. Nela se encontram alguns dos melhores restaurantes do Brasil, como Fasano, Laurent, Massimo e Antiquarius, prédios com apartamentos de 6 milhões de reais e mansões que têm entre seus moradores a prefeita eleita, Marta Suplicy, e o ex-prefeito Paulo Maluf. É um fascinante mundo de riquezas e atrações. Há, porém, algo ainda mais surpreendente que isso para quem só associa a maior metrópole do país a altos índices de criminalidade, trânsito caótico, enchentes e escândalos na administração municipal. Trata-se de um pequeno território encravado no amplo quadrilátero: um trecho de 200 metros na Rua Oscar Freire e quatro curtos quarteirões de suas transversais Bela Cintra e Haddock Lobo (veja mapa). Ficam ali, enfileiradas nas calçadas, as lojas de 46 grifes nacionais e estrangeiras. É a maior concentração de comércio de luxo da América Latina. Podem-se comprar por lá bolsas de 20.000 reais e vestidos de festa de 30.000 reais. Pense nas mais reluzentes marcas internacionais de moda ou joalheria. Elas provavelmente estarão brilhando nas fachadas, uma quase encostada na outra: Cartier, MontBlanc, Louis Vuitton, Christian Dior, Versace, Hugo Boss, Gai Mattiolo... No próximo ano, terão a companhia da Hermès e da Fendi.


Maria Fernanda com Armani: garota-propaganda da marca

Nesta segunda-feira, com uma festa para 2.000 convidados, será inaugurado o maior de todos esses templos de consumo: a nova Emporio Armani, que ocupa 1.600 metros quadrados distribuídos em três andares. A Emporio é, digamos assim, a linha mais acessível do estilista italiano Giorgio Armani, com óculos de 325 reais, sapatos de 800, ternos de 1.700 e vestidos de 2.300. Fabricados exclusivamente na Itália (não há o menor risco de encontrar em qualquer uma das 18.000 peças do estoque uma etiqueta "made in China", como é normal no varejo da moda), os produtos são oferecidos em 2.000 pontos-de-venda instalados no mundo inteiro e 124 endereços próprios. Em tamanho, a loja número 1 é a da Via Manzoni, em Milão. A da Madison Avenue, em Nova York, é a segunda. E a de São Paulo passa a ser a terceira. Quase tudo lá dentro impressiona. Os espelhos de cristal afinam a silhueta. O chão de mármore e os 78 spots dão ao ambiente o ar clean que caracteriza as lojas da grife. Há um elevador para deficientes físicos. Uma ala foi reservada para as roupas infantis (tem vestidinhos de 600 reais e terninhos de 1.000). Outra é destinada à venda de CDs e livros, a começar pelo catálogo (253 reais) da grande exposição que, até janeiro, celebra no Museu Guggenheim de Nova York os 25 anos de carreira de Armani. No térreo funcionará o Caffè Emporio, com 36 lugares, montado sob a supervisão do restaurateur Rogério Fasano, cujas duas principais casas, o Fasano e o Gero, ficam a poucos passos de distância.

Só com a reforma e as luvas pagas pelo ponto, segundo cálculos do mercado, foram gastos perto de 8 milhões de reais. Na vizinhança, o aluguel de uma loja do mesmo porte está cotado em pelo menos 30.000 reais por mês. "É um investimento garantido", acredita o empresário André Brett, um dos donos da Armani no Brasil. Embora os números não sejam revelados, no ano passado a loja anterior do Emporio Armani, que ocupava na Bela Cintra um espaço equivalente a um terço da nova, teve um faturamento tão alto que fez o estilista se derreter. "Durante um desfile em Milão, ele beijou minhas mãos e agradeceu tanto que me deixou pasma", conta Patricia Gaia, gerente-geral da Armani em São Paulo.

 
Célia Thomé
Consumidores cadastrados ganham convites para desfiles das novas coleções, como os da Dior (à esq.) e da Versace, em que o nadador Xuxa foi um dos modelos: champanhe e sossego para escolher

No antigo ponto da grife, deverá ser aberta no próximo ano a Giorgio Armani – segmento top da marca –, em que estarão à venda um vestido bordado com cristais de 50.000 reais, que no mês passado apareceu na capa da edição americana da revista Vogue, e roupas que celebridades como Sophia Loren, Michelle Pfeiffer, Robert De Niro, Ronaldinho e Maria Fernanda Cândido ajudaram a tornar objetos de desejo. "Os italianos estão bobos com o poder dos consumidores brasileiros mais sofisticados, endinheirados e receptivos a novas tendências", diz a suíça Michelle Nasser, cunhada do banqueiro Ezequiel Nasser e sócia de Brett. Comprador com tal perfil é o que não falta no pedaço mais dourado dos Jardins. Na semana passada, a atriz Silvia Pfeifer, falando sem parar no celular, percorria despreocupadamente as vitrines das três ruas. Conhecida por seus trombadinhas, São Paulo é, nesse ponto, uma cidade bem vigiada. Os comerciantes empregam cerca de cinqüenta seguranças armados, ou um a cada 22 metros. Com a chegada da temporada de Natal, serão contratados mais vinte. Há ainda quarenta manobristas. "Isto aqui é uma delícia", diz a economista Paola Mansur, filha do empresário Ricardo Mansur, acusado de provocar a falência do Mappin e da Mesbla, populares lojas de departamentos das quais a maioria da clientela das grifes dos Jardins nem sequer passava perto. Na última segunda-feira, flanando na Rua Haddock Lobo, Paola exibia no corpo algumas de suas compras mais recentes: óculos Dior, relógio Cartier e botas de cano alto do Emporio Armani.


Mário Rodrigues
Paola, filha de Ricardo Mansur, com suas aquisições mais recentes – botas Armani, óculos Dior e relógio Cartier –, vai às compras no trecho em que há um segurança armado a cada 22 metros de rua para proteger a clientela: "Isto aqui é uma delícia"


Para escolher os modelos com certo sossego, consumidores como a filha de Mansur são convidados para os desfiles em petit comité que acontecem duas vezes por ano, no lançamento das coleções de inverno e verão, em lojas como Versace, Dior, Louis Vuitton e Hugo Boss. Na Versace, em outubro, o nadador Fernando Scherer, o Xuxa, arrancou aplausos da pequena platéia que bebia champanhe francês ao exibir um terno preto de lã. Em muitas dessas lojas, os fregueses indecisos podem ouvir uma pergunta direta: quanto você pretende gastar? "Os preços variam muito e, para apresentar as roupas, a gente precisa de um parâmetro", explica Ester Passamai, gerente da Hugo Boss. Mesmo quando o dinheiro não é a questão, entretanto, os clientes podem enfrentar um problema que lembra vagamente as agruras do Plano Cruzado: a falta de certas mercadorias. Na Louis Vuitton, há 145 pessoas inscritas numa lista de espera por uma pochetezinha de 300 reais. Ufa! Como é dura a batalha.

 

 

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