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Pesquisa
atesta preconceito contra
obesos, que ganham menos e penam
para arrumar emprego
Maurício
Oliveira
Os
movimentos contra os preconceitos de que são vítimas
os mais diferentes grupos sociais, étnicos e parcelas da
população prosperaram com muita vitalidade nas últimas
décadas. Uma das minorias atingidas, entretanto, nunca mereceu
maior atenção, mesmo se tratando da que ocupa mais
espaço físico. São os obesos, cuja discriminação
no mercado de trabalho começa agora a ser comprovada. Um
estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, coordenado
pelo professor de administração Mark Roehling, concluiu
que a probabilidade de uma pessoa ser preterida na hora da contratação
por estar muito acima do peso considerado ideal pela medicina pode
ser maior que a de um negro e até de um ex-presidiário,
dois segmentos historicamente colocados à margem da sociedade.
Ele pesquisou empresas da região de Michigan e constatou
restrições na hora de contratar, promover ou dar aumentos
salariais a empregados gordos. A Associação para o
Avanço da Aceitação da Obesidade, uma organização
não-governamental com sede em San Francisco, chegou a fazer
cálculos sobre os prejuízos financeiros. Os executivos
em postos de alta gerência com 20% de excesso de peso ganham
4.000 dólares a menos por ano
que os profissionais enquadrados no manequim esbelto. No caso de
mulheres muito gordas, a diferença de salários pode
chegar a 24% para a ocupação de cargos equivalentes.
Timidamente, a causa dos obesos tenta alçar vôo
a associação de San Francisco tem 5.000
afiliados, número ainda magro se comparado à abundância
de militantes que afluem aos movimentos gays, feministas ou antitabagistas.
No
Brasil, a ditadura da balança também faz suas vítimas
no mercado de trabalho, atingindo aqueles que se enquadram na classificação
de obesos, baseada em uma equação simples que leva
em conta o peso e a altura de cada indivíduo. Em um levantamento
da consultoria Catho, foi apresentada a 1 400 executivos uma lista
de razões que podem barrar um pretendente a emprego. Nada
menos do que 73% dos presidentes e diretores e 68% dos gerentes
cravaram um "x" na alternativa "ser gordo". O índice foi
superior ao de outros tradicionais motivos de rejeição,
como "estar desempregado há mais de seis meses", "ser mulher
com filhos pequenos" e "ter mais de 50 anos". "O obeso é
visto como alguém lento e não sadio, por mais que
isso não seja verdade", afirma o headhunter Marcelo Mariaca,
da consultoria Mariaca & Associates, acostumado a selecionar
executivos sob encomenda de grandes corporações. "Cabe
a ele escolher se é melhor conviver com esse preconceito
inevitável ou se vale a pena lutar para perder peso."
Já
começam a ser registrados no Brasil os primeiros casos em
que a discriminação é contestada. Um deles
deu-se em Jundiaí, no interior de São Paulo. Interessada
em uma vaga para caixa no supermercado Carrefour, Daniela Aparecida
Xavier, jovem de 21 anos, apresentou o currículo e duas semanas
depois foi chamada para a entrevista. Só que, quando a viu
pessoalmente, o encarregado pela seleção disse, na
frente das outras candidatas, que ela não seria chamada por
ser gorda. A moça saiu da sala chorando. O episódio
chegou ao conhecimento do Ministério Público do Trabalho,
que convocou o supermercado para prestar esclarecimentos. "A empresa
apresentou a justificativa de que ela não poderia ser contratada
porque não caberia no caixa, o que confirmou a discriminação",
conta o procurador Ronaldo José de Lira. Ao final do processo,
a rede varejista comprometeu-se a não repetir a atitude,
sob pena de pagar multa diária de 5.000
reais.
Já
o caso do comissário de bordo Mauro Lopes Bernardes, 43 anos,
de São Paulo, foi parar na Justiça do Trabalho. Ex-funcionário
da Transbrasil, depois de uma década de profissão
ele começou a engordar e a ser pressionado por seus
superiores. "Havia até colegas que me deduravam, contando
que eu tinha repetido o prato", diz Mauro Lopes. Quando chegou aos
115 quilos, distribuídos em 1,80 metro de altura, pediu demissão
e entrou com processo trabalhista. "Só havia cobrança
e nenhuma ajuda", ele se queixa. Sua reclamação maior
era que a atividade estressante, os horários irregulares
das refeições e as noites mal dormidas, típicas
em sua profissão, facilitaram o crescimento horizontal. Hoje,
tem 25 quilos a menos, performance obtida e mantida enquanto aguarda
o desfecho do processo. Nos Estados Unidos, já há
escritórios de advocacia especializados em causas similares.
"Lá, como aqui, o grande problema é conseguir uma
prova consistente, porque a discriminação sempre vem
disfarçada em outras alegações", diz o presidente
da Associação Brasileira dos Advogados Trabalhistas,
Luís Carlos Moro.
Em
determinadas circunstâncias, o preconceito pode ser escorado
em motivos médicos. Obesos têm maior propensão
a doenças e isso é uma grande preocupação
para as empresas, porque faz aumentar os períodos de licença,
o índice de faltas ao trabalho e as despesas com tratamentos
médicos. "As companhias estão cada vez mais valorizando
profissionais que cultivam um estilo de vida saudável, e
a obesidade sugere justamente o oposto disso", diz o médico
Ricardo De Marchi, autor do livro Saúde e Qualidade de
Vida no Trabalho. Preocupadas com o excesso de quilos dos funcionários,
problema que já atinge 30 milhões de brasileiros,
muitas empresas estão tomando atitudes práticas para
ajudá-los a manter a forma, convidando, por exemplo, representantes
da organização Vigilantes do Peso para palestras ocasionais
e atividades de conscientização que se estendem por
até dez semanas. É o caso da IBM, Dow Química,
Varig, Gillette e do BankBoston. Na Eli Lilly, um programa conseguiu
reduzir a obesidade em 80% dos participantes. Na Xerox, depois que
uma pesquisa entre os funcionários revelou que 75% eram sedentários
e 17% obesos, iniciou-se um projeto emergencial de promoção
da qualidade de vida. O restaurante passou a informar as calorias
de cada prato e uma balança foi colocada bem na porta de
entrada uma estratégia nada sutil para desencorajar
exageros.
O
estudo da Universidade de Michigan concluiu que um dos fatores que
contribuem para ampliar o preconceito nas firmas é a falta
de mobilização dos obesos, que não se enxergam
como um grupo. Outras categorias obtiveram avanços significativos
já existe lei nos Estados Unidos que assegura parte
das vagas nas grandes empresas aos negros, por exemplo. Até
agora, no entanto, o único Estado que prevê punição
para a discriminação por peso é Michigan, justamente
onde foi realizada a pesquisa que revelou a rejeição
explícita aos profissionais obesos. No Brasil, a criação
de leis semelhantes ainda não é sequer cogitada. "O
obeso sofre preconceito desde criança e desenvolve uma autocensura
que o atrapalha pela vida afora", admite a gerente dos Vigilantes
do Peso em São Paulo, Cleide Guimarães.
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