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Vexame, nunca mais

A bíblia dos manuais de boas maneiras
ensina como agir à
mesa, em festas e
até enterros

Marcelo Camacho

Por muito tempo, etiqueta foi, para a maioria das pessoas, simplesmente assunto de piadas em livros, filmes e novelas. Nos últimos anos, porém, com o aumento da mobilidade social, a proliferação das viagens de negócios ou o mero desejo de colocar um pouco de glamour na aridez do cotidiano, o panorama mudou. Dúvidas sobre questões banais, como lidar com a fileira de talheres nos flancos do prato (sempre de fora para dentro), ou detalhes quase iniciáticos (qual a maneira certa de cumprimentar uma senhora no Japão? Só uma inclinação de cabeça), aproximaram-se da vida real de muita gente. Na busca de uma maior familiaridade com tantos e tão intrincados mandamentos, os manuais de boas maneiras vieram preencher um promissor nicho do mercado. A pioneira das cartilhas modernas de etiqueta foi a colunista Danuza Leão, que, em 1992, resolveu pôr modos no Brasil da era Collor com seu livro Na Sala com Danuza, um descontraído manual de boa conduta, hoje na 40ª edição, com 200.000 exemplares vendidos. Depois dele, pipocaram dezenas de outros lançamentos do gênero. Junta-se a eles, agora, aquele que é considerado a bíblia mundial do assunto: O Livro Completo de Etiqueta de Amy Vanderbilt, um calhamaço de 944 páginas que chega nesta semana às livrarias.

Escrito em 1952 pela socialite americana Amy Vanderbilt, integrante de uma das famílias mais ricas do mundo, o livro sofreu várias atualizações – a última delas em 1995 – e chega pela primeira vez ao Brasil recheado de comentários de Carmen Mayrink Veiga, a reciclada decana da sociedade carioca. Algumas regras do livro são totalmente dispensáveis para a esmagadora maioria dos brasileiros (embora deliciosas para os adeptos do conhecimento inútil). Coisas como a roupa apropriada para participar da caça à raposa, quanto se deve dar de gorjeta a cada funcionário do transatlântico Queen Elizabeth II e a recomendação de que, à aula de dança, se comparece em traje passeio completo. Inutilidades como essas, entretanto, vêm acompanhadas de dicas muito práticas sobre vida em família, recepções de casamento, relações de trabalho, até enterros (se o caixão for aberto, vista o morto com um bom terno; se for fechado, um pijama resolve a questão). O manual também ensina, claro, a se portar num jantar cerimonioso. Colocou na boca algo impossível de mastigar? Tire com a ajuda do garfo, deposite no prato e cubra com um pedaço de alface. Se derramar o vinho e quebrar a taça, seque a mesa com seu guardanapo e, no dia seguinte, dê uma taça nova de presente à anfitriã.

Cordiais demais – São dicas úteis que facilitam a vida de pessoas que precisam aprender os códigos de comportamento de variados círculos sociais. Tampouco é coisa só de mulheres, e daquelas bem fúteis, como poderiam pensar os preconceituosos. Suzana Doblinski, que dá aula de etiqueta empresarial em São Paulo e nos últimos quatro anos formou cerca de 3.500 executivos de grandes empresas, sabe que isso é assunto sério. "O comportamento à mesa é o que mais gera dúvidas", diz ela, que opina até no visual de sua clientela, 90% masculina. Homens de negócios, hoje, viajam muito para o exterior, fazem transações com empresas estrangeiras estabelecidas no Brasil e precisam saber as regras de comportamento em vários lugares do mundo. "Pior que não saber manusear os talheres é falar coisas desagradáveis, como ficar criticando alguém que está comendo carne vermelha", diz Claudia Matarazzo, autora de seis livros de etiqueta, com 200.000 exemplares vendidos, e titular de um quadro semanal sobre o assunto no programa Mais Você, da Rede Globo.

O embaixador Augusto Estellita Lins, autor do livro Etiqueta, Cerimonial e Protocolo, afirma que o cerimonial é uma arma política que pode trazer muitos êxitos para um país. "Ou fracassos", alerta. Cita como exemplo a malograda candidatura do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2004. "O Comitê Olímpico Internacional tem protocolos muito rigorosos. Uns dez membros do COI são da alta aristocracia européia. Quando visitaram o Rio, os brasileiros, que são muito cordiais, foram logo abraçando, segurando pelo braço. Isso atrapalhou bastante. Com esse pessoal é preciso manter uma distância de meio metro, pelo menos", diz o embaixador, que também dá aula para empresários e políticos em Brasília e é contratado até por prefeituras do interior que querem evitar vexames no trato com executivos estrangeiros.

Protocolo hora a hora – As novelas de televisão têm sua parcela de responsabilidade nessa onda de gosto pela etiqueta. Personagens ricos e sofisticados vivem encantando o populacho com preceitos de boas maneiras. O campeão do gênero é o novelista Gilberto Braga, criador da empolada Odete Roitman, vivida por Beatriz Segall, que em cena inesquecível de Vale Tudo estraçalhou uma convicção generalizada dos brasileiros ao ensinar à ambiciosa Maria de Fátima (Gloria Pires) que a dona da casa não deve servir água às visitas com um pires sob o copo – só as empregadas domésticas o fazem. Em O Dono do Mundo, o casal de novos-ricos formado por Cláudio Correa e Castro e Beatriz Lyra chegou a fazer um curso informal de etiqueta com a "amiga Zoraide", interpretada por Jacqueline Laurence. Já em Torre de Babel, novela de 1998, o autor Silvio de Abreu fez sua personagem Sandrinha, pilantra interpretada por Adriana Esteves, passar a faca numa salada de alface para mostrar que aquilo não se faz. O certo, a personagem aprendeu, é com o garfo e a faca ir dobrando a alface até fazer uma trouxinha. Trabalhoso, não é? Pois, depois de aprender, dá para dispensar. "Isso já era. Hoje em dia, eu corto a salada com a maior tranqüilidade", diz Carmen Mayrink Veiga. "Para que perder meia hora dobrando uma folhinha de alface?"

De fato, regras do gênero parecem ter sido feitas para ser quebradas. Mas, para quebrá-las, é preciso antes conhecê-las. Códigos de conduta existem desde que o mundo é mundo e ajudam a tornar a vida em sociedade mais cordial, civilizada – e esnobe, também. A etiqueta alcançou seu ponto máximo na corte francesa do rei Luís XIV, no século XVII. Luís XIV ampliou o protocolo da corte, antes restrito a cerimônias solenes, a todas as horas do dia, do despertar à hora de ir dormir. Foi nessa época que surgiu o hábito de dividir a refeição em pratos sucessivos – primeiro a sopa, depois o peixe, então a ave, a carne e a sobremesa. Diferentes talheres para diferentes pratos também começaram a surgir aí. Tudo isso realçava o fosso entre a nobreza e a patuléia. Ou seja, a etiqueta, como a crase, acabava existindo para humilhar os ignorantes de seus segredos. "O luxo e a etiqueta exagerados hoje são um insulto, um deboche", resume o embaixador Estellita Lins. "As regras de etiqueta mudam muito, são flexíveis. E é bom que seja assim", afirma a colunista Danuza Leão, que, em caso de dúvida, recomenda a boa e básica saída: "Use o bom senso". Esta, sim, uma regra fundamental.

 

Rápido manual de sobrevivência

Algumas regras de etiqueta mudam, outras continuam as mesmas. Exemplos da convivência social moderna:

Exceto em casos de parentesco ou extrema intimidade, nunca peça para levar alguém junto a uma festa ou jantar. Se estiver namorando e o anfitrião não souber, insinue e aguarde o convite ampliado. E jamais leve acompanhante inesperado.

O homem paga a conta no primeiro encontro. "Se ela insistir para dividir, não aceite", aconselha a consultora de etiqueta Claudia Matarazzo. "É um teste." Depois da primeira vez, siga a sensibilidade. Nos compromissos profissionais, quem paga é quem convida.

Em compensação, não é mais obrigatoriamente o pai da noiva quem paga a festa de casamento. As duas famílias podem e devem dividir as despesas.

Em festa de casamento ou aniversário, o convidado que não pode ir, e avisa, não tem obrigação de mandar presente.

Perguntas que ficam na ponta da língua, mas continuam proibidíssimas:

– Quanto custou?

– É verdadeiro ou bijuteria?

– É seu pai? Seu filho? Ah, seu marido?

– Está grávida? Ah, não, só engordou um pouquinho, né?

Já cirurgia plástica não é mais tabu. Quem fez quer que você perceba a diferença. Mas só elogie se tiver ficado melhor. Caso contrário, finja que não percebeu.

Nunca aborde uma pessoa que não vê há muito tempo com o aterrorizante: "Lembra-se de mim?" Muito possivelmente, a pessoa não se lembra. O certo: "Sou fulano de tal, trabalhamos juntos em tal lugar. Como vai?"

Grandes tragédias exigem reação rápida. Se o casamento foi cancelado na última hora, comunique aos convidados, por escrito, sem obviamente dizer o motivo. Atenção: todos os presentes têm de ser devolvidos (menos os simplesinhos, do chá de cozinha).

Telefonar ou escrever um cartão para agradecer depois de ir a uma festa é prova de cordialidade que os brasileiros costumam atropelar, mas continua valendo. Os anfitriões adoram.

De uma vez por todas: se houver vários talheres junto ao prato, eles serão usados de fora para dentro, à medida que os pratos forem sendo servidos. E faca é só para cortar. Para juntar alimentos, nunca.

 

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