A pista que
vai quebrar o
gelo
A
selvagem e inóspita Patagônia entra
para o mapa turístico da Argentina com
a inauguração de um novo aeroporto
que vai aproximar turistas das geleiras
Raul
Juste Lores, de Buenos Aires
Editorial Perfil
 |
| O
Glaciar Perito Moreno: a coloração branca pode
ficar azulada em certas horas do dia. Mas a maior atração
é a queda ruidosa das barreiras de gelo |
Charles
Darwin, criador da teoria da evolução, e o poeta Edgar
Allan Poe conheceram a Patagônia no século XIX. Em
1929, o autor de O Pequeno Príncipe, o francês
Antoine de Saint-Exupéry, foi piloto do primeiro vôo
regular de correio que se realizou sobre a Patagônia. Ele
era chefe de tráfego da linha aérea local Aeroposta
e gostava de ver com os próprios olhos a gelada região
austral da Argentina. Demorou seis horas e vinte minutos de Bahía
Blanca, na província de Buenos Aires, a Comodoro Rivadavia.
Passaram-se setenta anos e o sul da Patagônia continua a exigir
espírito aventureiro de quem quer ver de perto suas impressionantes
paisagens. Desde a última sexta-feira, 17, no entanto, com
a inauguração do aeroporto internacional de Calafate
(cidade de 5.000 habitantes a 2.700
quilômetros de Buenos Aires), tornou-se mais fácil
chegar à região, que possui deslumbrantes atrações,
entre elas o Parque Nacional dos Glaciares, onde estão as
maiores geleiras do mundo fora dos pólos.
A
apenas uma hora de viagem de Calafate, as geleiras formam um manto
de 14.000 quilômetros quadrados
de superfície que só não cobre as montanhas.
Os picos emergem do mar branco e gelado como ilhotas de rocha, que
são açoitadas constantemente por nevascas. A mais
famosa geleira, ou glaciar, é Perito Moreno, batizada com
o nome de um dos primeiros cientistas e desbravadores argentinos
a estudar a zona. Com 257 quilômetros quadrados, 6 quilômetros
de frente, esse gigantesco bloco de gelo, instalado no Lago Argentino,
é admirado diariamente por turistas de uma passarela às
margens do lago, muito parecida com a das Cataratas do Iguaçu.
Ali as "cataratas" são de gelo. De uma hora para outra, o
silêncio é rompido por estrondos produzidos por paredes
de 50 a 60 metros de altura, do tamanho de um edifício de
vinte andares, que se desprendem do glaciar para mergulhar nas águas
azuis. Imprevisível, esse é o espetáculo mais
esperado pelos turistas.
Andres Bonetti
 |
| Turistas
no convés de um barco filmam e fotografam uma baleia
cachalote: espetáculo raro que agora se torna mais acessível
aos orçamentos rarefeitos |
O branco
do Glaciar Perito Moreno pode ganhar tonalidades que vão
do violeta ao azul, de acordo com a luz. Ele foi declarado patrimônio
da humanidade pela Unesco em 1981. Mesmo com dificuldades e a ainda
precária estrutura turística, a região vem
recebendo mais visitantes a cada ano. Foram 46.000
em 1993, 67.000 em 1997 e 87.000
no ano passado. Para a temporada deste ano (que começa agora
e vai até abril), espera-se que o número pule para
150.000. A expectativa inflada é
atribuída à entrada em operação do novo
aeroporto. "Aos visitantes, além de aventura, podemos agora
oferecer conforto", diz Hernán Lombardi, secretário
nacional de Turismo da Argentina.
Lombardi
enfatiza que, com a nova concorrência, os preços cairão,
atenuando a fama de turismo caro e para poucos que estigmatizou
com razão a Patagônia austral. Ao contrário
do norte da Patagônia, onde estações de esqui
em Bariloche ou San Martín de Los Andes atraem milhares de
turistas locais e brasileiros, com boa infra-estrutura e a preços
competitivos, a Patagônia austral ainda é exclusiva
dos turistas com muito dinheiro para gastar: 50% dos visitantes
são estrangeiros americanos, franceses, espanhóis,
alemães e italianos. A diária em um hotel de três
estrelas sai por 100 dólares. Em Los Notros, hotel onde o
melhor é a paisagem que se descortina das janelas dos quartos,
o preço é uma gelada, 250 dólares. A vizinhança
também ganhou nomes estrelados na última década.
Sem o risco de ser incomodados e com muita terra à sua disposição,
ricos e famosos, como a duquesa Sarah Ferguson, Ted Turner, os irmãos
Benetton e até Sylvester Stallone, compraram enormes fazendas
ali. "A Patagônia me dá a sensação de
liberdade", diz o empresário Carlo Benetton. O grupo têxtil
italiano tem 1 milhão de hectares na região, onde
produz 10% da lã que usa para confeccionar seus artigos de
vestuário.
| Fotos Jules Bergada/Lugares/Editorial
Perfil |
 |
 |
| O
Pico Fitz Roy (à esq.) é um desafio constante
para os alpinistas mais preparados, e piscinas de água
aquecida nos hotéis unem a aventura ao conforto |
O
novo aeroporto vai, certamente, quebrar um pouco a tranqüilidade
dos barões da Patagônia. "Agora será possível
integrar pacotes: quem vai a Bariloche também pode ir a Calafate,
à Península de Valdés e a Ushuaia. O aumento
de fluxo de visitantes vai fazer os preços baixarem", garante
Lombardi. É justamente na Península de Valdés,
onde haverá vôos integrados com Calafate, que há
um dos maiores tesouros da Patagônia: reservas de pingüins,
elefantes marinhos, baleias e leões-marinhos que se aproximam
da península para a reprodução e que
também podem ser vistos entre setembro e janeiro.
Saiba
mais |
|
|
|
|