O
caixa dois de volta à luz
Contas
paralelas da campanha de FHC viram
quase pilhéria, mas o tema é gravíssimo
Alexandre Oltramari
Roberto Jayme

Bresser,
o tesoureiro: "Não
sei explicar" |
A Folha de S.Paulo atirou em um ninho de tucanos e acertou
numa manada de elefantes. Há uma semana, o jornal publicou
uma reportagem em que denunciava a existência de caixa dois
na campanha de reeleição do presidente Fernando Henrique
Cardoso. Segundo a planilha obtida pela Folha, o tesoureiro
da campanha tucana, Luiz Carlos Bresser Pereira, teria deixado de
declarar ao Tribunal Superior Eleitoral doações superiores
a 10 milhões de reais, para 43 milhões de contribuições
corretamente registrados na contabilidade da campanha. Fechou o
tempo em Brasília. Como invariavelmente ocorre nessas situações,
o bigode do deputado petista Aloizio Mercadante pediu logo uma investigação
do Ministério Público. E tudo parecia encaminhar-se
para uma formidável crise política quando uma mágica
começou a acontecer.
Líderes tucanos disseram que estava na hora de fazer, sim,
uma devassa na contabilidade das doações de campanha
mas na de todos os grandes políticos nacionais, já
que eles têm caixa dois, e isso é público e
notório. O deputado Arthur Virgílio, líder
do governo no Congresso, chegou a dizer que os 3 milhões
declarados por Luís Inácio da Silva como doações
na campanha presidencial de 1998 eram "uma piada". Em sua edição
de sexta-feira, a Folha chamou especialistas para avaliar
o estrago. De acordo com o prefeito eleito do Rio de Janeiro, Cesar
Maia, com exceção dele próprio, todos os políticos
mentem na hora de prestar contas dos fundos arrecadados. E o presidente
do Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe, Antônio Goes, disse
que a coisa vai além de caixa dois. "Tem caixa dois, caixa
três, caixa quatro. De presidente a vereador, não escapa
ninguém."
O assunto, gravíssimo, adquiriu tom de pilhéria com
o passar dos dias. Mas deveria provocar, além de espanto,
providências. O que se está vendo são declarações
segundo as quais a corrupção grassa nos meios políticos
de norte a sul e de alto a baixo. O caixa dois mantido pelos políticos
é o sinal mais evidente de que tanto doadores como beneficiados
têm algo a esconder no presente e terão algo a cobrar
ou fornecer no futuro. No Brasil do governo de Fernando Collor,
os mais ilustres empresários nacionais foram apanhados com
a mão na massa dando dinheiro ao tesoureiro PC Farias, sob
pretexto de serviços de consultoria, prestados a propósito
dos mais escalafobéticos motivos. Encerrada a era Collor,
a caixinha perdeu aquele viço insuperável da República
de Alagoas, mas continuou existindo.
Que teve, teve Num primeiro momento, os tucanos, atingidos
pela denúncia, ensaiaram uma versão de que a planilha
do caixa dois podia não ser verdadeira. Após receber
um telefonema de Fernando Henrique, no qual o presidente demonstrava
preocupação com a notícia, Bresser Pereira
tentou explicar-se. Admitiu ser o dono da planilha e contou que
seu irmão, Sérgio Luiz, o ajudou no trabalho, porém
afirmou que ela foi alterada. "Eu montei uma planilha, mas abandonei
o sistema depois de dois meses porque não funcionava", disse
o ex-ministro. "Não houve gastos nem receitas que não
foram contabilizados. Não sei explicar de onde saiu isso."
A ordem no Planalto era para que ninguém no governo comentasse
o assunto. No apartamento de Bresser, em São Paulo, os empregados
avisavam aos jornalistas que ele viajara para os Estados Unidos.
O ministro Andrea Matarazzo, que aparece na lista do "por fora"
com uma doação de 3 milhões de reais, mandou
seus assessores dizer que tinha ido para a fazenda e estava "incomunicável".
Puro teatro. Nem Bresser havia embarcado para os Estados Unidos
nem Matarazzo estava "incomunicável".
No final da semana, ninguém tinha mais dúvida de que
a planilha revelava o caixa dois da campanha. Além de Bresser
Pereira, outras duas pessoas tinham acesso à contabilidade
da campanha de Fernando Henrique: o ex-presidente dos Correios Egydio
Bianchi e Adroaldo Wolf. Em conversa com VEJA, um deles admitiu
que a campanha, de fato, usou a contabilidade paralela. "Que teve
uma contabilidade paralela, eu não tenho dúvida. O
que eu não sei é se desviaram o dinheiro ou se não
declararam para proteger a identidade do doador", diz um dos tesoureiros.
Na quarta-feira passada, falando de seu apartamento em São
Paulo, Bresser desabafou: "Não posso ser responsabilizado
por tudo que ocorreu de alto a baixo na campanha", disse. "Se alguém
recebeu dinheiro e não registrou, como eu posso saber?" Entre
os tucanos, o nome de Egydio Bianchi, que entrou no governo pelas
mãos do ex-ministro Sergio Motta, circulava como o principal
suspeito de ter vazado as planilhas com o caixa dois da campanha.
Demitido dos Correios há quatro meses pelo ministro Pimenta
da Veiga, das Comunicações, Bianchi saiu atirando.
Chegou a ter um encontro com Fernando Henrique no qual torpedeou
a administração de Pimenta da Veiga e prometeu entregar
um dossiê com acusações.
Mistérios
da popularidade A ficção das prestações
de contas eleitorais é uma prática tão disseminada
entre todos os partidos que não se encontra nenhuma lógica
nos gastos. Em São Paulo, o senador Eduardo Suplicy, do PT,
disse ao tribunal eleitoral que gastou 31.000 reais em sua última
campanha para o Senado. É um fenômeno de campanha barata.
Até sua colega de Senado e partido, Heloisa Helena, de Alagoas,
gastou um pouco mais que isso, 42.000 reais, com a significativa
diferença de que precisou pregar para um eleitorado muito
menor que o de São Paulo. Pode-se argumentar que Suplicy
era tão, mas tão popular, que quase nem precisou mexer-se
para convencer os eleitores a votar nele, enquanto Heloísa
Helena era uma figura tão desconhecida que teve de gastar
algum a mais. Qualquer um que conheça um pouco da realidade
de São Paulo e de Alagoas sabe que nem Suplicy tinha essa
popularidade assombrosa nem a senadora fez uma campanha excepcionalmente
cara.
Raul Junior

Matarazzo,
que aparece com 3 milhões de reais: "incomunicável"
|
Disparidades assim aparecem em qualquer exame, por mais superficial
que seja, nas prestações de contas dos candidatos.
Empresário bem-sucedido, dono de hotéis e agência
de turismo em Fortaleza, o tucano Nelson Otoch, do Ceará,
informou à Justiça Eleitoral que sua campanha vitoriosa
para deputado federal em 1998 consumiu só 7,2 mil reais.
É um caso de estudo: Otoch corre o risco de ter feito a campanha
mais barata da história republicana. A falta de lógica
financeira também aparece nas disputas aos governos estaduais.
Na Paraíba, o governador José Maranhão chegou
lá desembolsando apenas 116.500 reais. Em Sergipe, o governador
Albano Franco, embora concorrendo num Estado menor que a Paraíba,
gastou dez vezes mais, 1,3 milhão de reais, para se reeleger.
"Eu tinha um apoio popular grande. Não precisei gastar muito
dinheiro", explica o governador José Maranhão. São
os mistérios da popularidade.
Até agora, a revelação do caixa dois de FHC
teve duas conseqüências práticas. No plano político,
decidiu-se acelerar as discussões sobre o financiamento público
de campanhas, como já ocorre em países como Estados
Unidos, Suécia e França. O projeto que tramita no
Congresso prevê que, em vez da correria em busca de financiadores
privados, os partidos passariam a receber do governo federal uma
determinada quantia para bancar os custos das eleições.
O fundo idealizado teria hoje um total de 770 milhões de
reais, a ser distribuído de acordo com o tamanho de cada
partido. Na área criminal, o Ministério Público
anunciou que vai investigar os doadores que aparecem na contabilidade
paralela e os arrecadadores da campanha do presidente. Os procuradores
querem saber se houve sonegação fiscal por parte das
empresas e se os responsáveis pela arrecadação
cometeram falsidade ideológica ao se eximir de declarar as
contribuições à Justiça Eleitoral
dois crimes previstos no Código Penal. Também vão
investigar se as doações, oficiais e clandestinas,
foram retribuídas pelo governo depois da eleição.
É uma investigação complexa, mas os procuradores
já trabalham com pelo menos um indício.
Roberto Jayme
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Ana Araujo
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Ana Arauj
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| Suplicy,
que gastou 31 000 reais na campanha para o Senado, o governador
da Paraíba, José Maranhão (foto do centro),
que diz ter concorrido com "muito apoio", e o deputado
cearense Nelson Otoch (à dir.): mestres em fazer
campanhas baratíssimas |
Barriga
cheia Um dos contribuintes que aparecem na contabilidade
clandestina é a Coteminas, indústria têxtil
do senador José Alencar (PMDB-MG). A empresa, que doou 415
000 camisetas à campanha de FHC e vendeu outros 3 milhões
de reais em camisetas ao PSDB, reclama que até hoje a dívida
não foi paga. Talvez esteja reclamando de barriga cheia.
Dois meses depois das eleições, a Funcef, o bilionário
fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica
Federal, injetou 23,6 milhões de reais na empresa do senador.
A Funcef brindou-a com seus milhões num momento em que poucos
no mercado se aventuravam em negócios com papéis da
Coteminas. Depois de se valorizar 3.500% entre 1994 e 1997, as ações
despencaram em 1998. Voltaram ao valor de quatro anos antes. O apetite
dos investidores pelos papéis da empresa também diminuiu
no mesmo período. Na Funcef, porém, a vontade de despejar
dinheiro na Coteminas era tanta que o fundo pagou quase três
vezes mais pelas ações. Na data da compra, no dia
17 de dezembro de 1998, uma ação valia 16 centavos.
O fundo comprou cada uma, no mesmo dia, por 41 centavos. Resultado:
ao pagar mais que a cotação de mercado, despejou 14,4
milhões além do que deveria na Coteminas. Na época,
o presidente da Funcef era José Fernando de Almeida, apadrinhado
do ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge
Caldas Pereira, que integrou o comando da campanha de FHC.
Fotos Roberto Jayme/Antonio Milena/Ricardo
Stuckert
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