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Vou acabar em Las Vegas

Ilustração Pepe Casals


O hotel Bellagio, um dos mais luxuosos de Las Vegas, tem uma galeria de arte com obras de Degas, Matisse, Cézanne, Monet, Van Gogh. Li que o Picasso leiloado alguns dias atrás, Mulher de Braços Cruzados, o quinto quadro mais caro da história, foi comprado pelo mesmo hotel. Las Vegas ganha tanto dinheiro com jogatina e mulher pelada que sempre sobra algum para os supérfluos. Até a literatura, a mais pobrezinha das artes, conseguiu arrancar-lhe um naco. O prefeito da cidade, Oscar Goodman, ex-advogado de mafiosos como Tony Spilotro, acusado de 22 homicídios, resolveu acolher em Las Vegas escritores perseguidos em seus países. O primeiro beneficiário foi Syl Cheney-Coker, condenado à morte pelos guerrilheiros que devastaram Serra Leoa. Las Vegas ofereceu-lhe um quarto no hotel Bellagio, motorista particular e 25.000 dólares em dinheiro. Em homenagem a todos os escritores exilados do planeta, fiz o meu dever: entrei num cassino virtual de Las Vegas e enterrei 60 dólares na roleta eletrônica. Teria dado para visitar uma livraria virtual e comprar as obras completas de Syl Cheney-Coker.

Por falar em livrarias virtuais, o escritor peruano Mario Vargas Llosa escreveu um artigo prevendo a falência de todas as pequenas livrarias do mundo, esmagadas pela internet. De acordo com Llosa, os únicos que vão conseguir sobreviver são os atacadistas de livros, que vendem best-sellers e produtos de papelaria. É bem provável, portanto, que Las Vegas se torne o último refúgio para os escritores. Não só os que sofrem perseguição política, mas os escritores em geral. Duvido que meus livros me dêem o direito, mas, podendo escolher, eu gostaria de morar no hotel The Venetian, com vista para o Palazzo Ducale e a Ponte de Rialto. Todo dia um passeio de gôndola. E todo dia 60 dólares perdidos na roleta.

Poucos dias depois de ler o artigo de Llosa, li também uma entrevista com ele. O entrevistador era um escritor italiano chamado Alessandro Baricco. Baricco disse que o tema da entrevista seria a literatura. Llosa ficou contente, porque ultimamente só o entrevistam sobre política. Baricco citou o nome de alguns escritores e perguntou o que Llosa achava deles: DeLillo, Roth, Pynchon? Llosa não deu opinião nenhuma e foi logo desviando o rumo da entrevista para a política. Se nem os escritores se interessam por livros, a coisa é séria. Não foi por isso que citei a entrevista, porém. Citei-a por causa de Baricco. Ao contrário de Llosa, ele não quer se render, acreditando que ainda existe espaço para as livrarias, tanto que acaba de abrir uma em Turim. A livraria vende apenas 28 títulos por mês, cada um recomendado por um intelectual ilustre. Como profetizou Llosa, vai falir em pouco tempo.

Claro que nada disso nos diz respeito. O Brasil não corre o risco de perder suas livrarias, porque nunca as teve. Você conhece o dado: o país inteiro tem menos livrarias do que Buenos Aires. Li outro dado curioso na revista Bravo!: temos mais editoras que livrarias. Duas maneiras de ver a questão. A primeira, otimista: não somos atrasados, mas avançados. Chegamos antes aonde o resto do mundo, inevitavelmente, chegará. A segunda, pessimista: no futuro, todos os lugares serão iguais ao Brasil. Menos Las Vegas.

 

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