"A solução
é o dólar"
O ex-presidente argentino prega a dolarização
da economia de toda a América Latina e culpa
De la Rúa pela crise no país
Raul Juste Lores, de Buenos Aires
AP/ Natacha Pisarenko
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"Nas
coisas do amor, uma pessoa tem a idade do ser que ama. Então,
tenho 35 anos" |
De
namorada nova, a ex-miss Universo chilena Cecilia Bolocco, que
tem a metade de sua idade, o ex-presidente argentino Carlos Menem,
de 70 anos, não disfarça a pose de quem pensa seriamente
em voltar a se candidatar. Já está em campanha para
retornar à Casa Rosada em 2003. Seu sucessor, Fernando
de la Rúa, despenca nas pesquisas de popularidade depois
de onze meses de poder. Menem credita o péssimo desempenho
de De la Rúa nas pesquisas, em parte, à saudade
dos argentinos de seus dez anos de governo. Eleito com as bandeiras
populistas do velho peronismo, Menem empreendeu o mais ousado
programa de abertura da economia e de privatizações
da América Latina. Em seu governo, o país cresceu
5% ao ano, em média. Não contente por ter assinado
o decreto que criou a conversibilidade, medida que amarrou a cotação
do peso argentino à moeda americana, prega agora a dolarização
completa da economia. Ele defende um acordo com os Estados Unidos
para que a Argentina use o dólar como moeda corrente. Na
semana passada, o ex-presidente recebeu VEJA em sua nova casa
no elegante bairro de Belgrano para esta entrevista.
Veja O que o senhor faria hoje para reativar a economia
se estivesse no lugar de De la Rúa?
Menem
Há exemplos no mundo. Um dos mais adequados para este caso
é a política do presidente americano Franklin Roosevelt
na década de 30, o New Deal. Seu antecessor recebeu o governo
com um déficit elevadíssimo e optou por aumentar
os impostos. A recessão se transformou em uma depressão,
que afetou todo o mundo. Ao chegar à Casa Branca, Roosevelt
baixou os impostos e lançou um programa de pequenas obras
públicas que imediatamente deu ao país a oportunidade
para recomeçar a crescer. Eu faria alguma coisa parecida
com isso.
Veja Mas é justo culpar o atual governo pela
recessão que o país atravessa?
Menem
Assim que assumiu, este governo aumentou os impostos e cortou
os salários. Foi a pior receita para um país que
vinha saindo de uma recessão de doze meses, produto, entre
outros fatores, da desvalorização do real. Foi fatal
para a Argentina. Deixei um índice de 13% de desemprego.
Ele atualmente está em 19%. Os índices de pobreza
cresceram de forma impressionante. Colocaram a Argentina à
beira da explosão social. Não há governabilidade.
A crise econômica somou-se à crise política,
com a renúncia do vice-presidente, Carlos Alvarez. Isso
fez a Argentina perder credibilidade. Sem ela, é muito
difícil que cheguem investimentos.
Veja O presidente Fernando de la Rúa culpa
o senhor pela situação em que encontrou o país:
gasto público elevado, país endividado, desemprego
e crise social. Qual sua parcela de culpa?
Menem
De la Rúa recebeu um país com economia sólida,
sem inflação, com estabilidade, com reservas excepcionais,
com um sistema privado de aposentadorias que tem capitais de mais
de 20 bilhões de dólares. Um país posicionado
entre os catorze melhores da Terra. Quando nós o recebemos,
estava abaixo do qüinquagésimo lugar. Na família,
podem existir filhos prodígios e filhos pródigos.
Este governo é formado por filhos pródigos. Eles
dilapidaram rapidamente a herança que receberam. Estamos
retrocedendo dez anos, voltamos para trás. Tomam medidas
num dia e no outro dia se desdizem.
Veja A crise é econômica ou política?
Menem
O que está faltando é liderança política.
Se o senhor põe à frente da economia o melhor economista
do mundo, mas não tem liderança política,
tenha a certeza de que a economia não vai funcionar.
Veja O ex-ministro Domingo Cavallo seria a solução?
Menem
Não sei se pode haver uma solução enquanto
persistir essa falta de comando no campo político. O ex-presidente
Bucaram, do Equador, pediu-me para mandar o Cavallo lá
para dar uma ajuda. Ele foi, mas voltou imediatamente, porque
não havia um presidente que comandasse o país. Cavallo
foi convidado para ir à Rússia e aconteceu o mesmo.
Veja O senhor desaprova a gestão De la Rúa?
Menem
De la Rúa é uma boa pessoa, mas como presidente...
Levemos em conta o que pensa o povo: 72% desaprovam a gestão
De la Rúa. Apenas 9% têm uma imagem positiva dele.
Do jeito que se tem comportado até agora, eu também
desaprovo, mas espero que reaja o mais rápido possível
e comece a governar a Argentina.
Veja Como o senhor encarou a desvalorização
do real?
Menem
Com certeza foi um golpe, não só para nós,
dado o peso que o Brasil tem no mundo. Mas, aqui, afetou praticamente
todos os setores da economia nacional.
Veja
A Argentina ainda não se recuperou desse golpe?
Menem
Estávamos nos recuperando pouco a pouco, até que
o impuestazo e o corte nos salários decretado por
este governo nos colocaram em uma situação um tanto
difícil em relação ao Brasil.
Veja O euro foi desvalorizado para ajudar as exportações
européias; o real foi desvalorizado, e ainda assim o Brasil
manteve a inflação em baixa. Por que só o
peso argentino não pode ser desvalorizado?
Menem
A solução é a dolarização.
Há dois anos venho pregando a necessidade de um acordo
monetário com os Estados Unidos para que o dólar
seja a moeda corrente na Argentina. Pensamos até na possibilidade
de o dólar vir a ser a moeda comum em todo o continente,
à medida que avance o projeto de estabelecer uma zona de
livre comércio nas Américas. Seria uma grande solução
para a nossa economia e uma esperança de estabilidade.
Veja Renunciar à moeda nacional não
significa abrir mão da própria soberania?
Menem
Isso não causa o mínimo estrago na soberania, como
acham alguns tolos que não entendem nada do assunto. O
que é ruim para a soberania é a estagnação.
É o não-crescimento. Os países europeus não
perderam sua soberania por renunciar a suas moedas ao adotarem
o euro, que nada mais é que o marco alemão com esse
novo nome.
Veja Mas os produtos argentinos continuariam pouco
competitivos no mercado internacional.
Menem
A dolarização não faz a Argentina perder
competitividade, ao contrário. Reduz o risco país,
faz baixar as taxas de juros e dá a segurança de
que não haverá desvalorização a exemplo
de outras moedas, como o euro, o real ou o peso chileno. Com o
dólar como moeda corrente, a Argentina estará livre
dessas incertezas e se incorpora à economia dos Estados
Unidos.
Veja Muitos argentinos criticam o Mercosul, em vista
da suposta concorrência desleal de produtos brasileiros
ou de maiores vantagens que teriam numa aliança com os
Estados Unidos. O senhor concorda?
Menem
O
que falta ao Mercosul são instituições, para
que esse espaço geográfico funcione como cada país
que o integra. Como a União Européia, que tem tribunais
próprios e Parlamento próprio. Os resultados estão
à vista. Países como Portugal e Espanha em pouco
tempo se tornaram muito prósperos e desenvolvidos.
Veja A Alca, Área de Livre Comércio
das Américas, é mais interessante que o Mercosul?
Menem
Primeiro temos de fortalecer o Mercosul, depois avançamos
na Alca. O Mercosul tende a uma comunidade, não apenas
a uma zona de livre comércio. Temos de fortalecer o bloco
e, com o tempo, incorporar o outro grande país da região,
que é o Chile. A Alca é uma associação
de livre comércio. Para chegar à zona de livre comércio,
precisamos avançar nos acordos com o Pacto Andino e com
a América Central. Requer tempo e perseverança,
e não o esquecimento a que foi relegado o Mercosul por
este governo argentino ou pelo governo paraguaio, que, como todo
mundo sabe, não funciona.
Veja O senhor ficou dez anos na Presidência
da Argentina e já está em campanha para voltar em
2003. Ficou alguma coisa por fazer?
Menem
O objetivo fundamental a que me propus quando assumi os destinos
da Argentina em 1989 era fazer um processo profundo de transformação
do Estado. Colocamos em andamento uma economia de mercado, estabelecemos
uma rígida política no campo fiscal e monetário
e reinserimos o país no contexto internacional. Recuperamos
uma Argentina que estava à beira da desintegração
e a colocamos em marcha. Mas a questão social ainda é
uma matéria pendente.
Veja E por que não pôde ser atacada
nos seus dez anos de poder?
Menem
A reforma do Estado deixou muita gente sem trabalho. Era inevitável
que isso acontecesse. As empresas estatais que passaram ao setor
privado eram ineficientes e deficitárias. Perdíamos
anualmente 18 bilhões de dólares com elas. Essa
reforma nos deu a possibilidade de crescer. Em dez anos, o PIB
subiu mais de 60%. Quando assumimos, as reservas do banco central
eram de 60 milhões de dólares e a hiperinflação
era de 5.000% ao ano. Quando entregamos
o governo, tínhamos 36 bilhões de dólares
em reservas e uma estabilidade invejável, expressada pela
conversibilidade.
Veja Segundos mandatos são sempre piores que
os primeiros?
Menem
Isso é uma mentira. Eles servem para consolidar o mandato
anterior e confirmar novas ações para fazer o país
crescer. O meu segundo mandato pegou a crise do México,
a crise do Sudeste Asiático, a da Rússia e, por
último, a crise brasileira da desvalorização
do real. Estávamos no segundo mandato, mas a economia era
tão sólida que agüentou firme quatro crises
sucessivas.
Veja O que mudou na Argentina depois de dez anos
de menemismo?
Menem
Os argentinos tomaram consciência de que podíamos
nos transformar em um dos grandes países da Terra. De alguma
forma conseguimos. Reposicionamos o país no âmbito
internacional, e aquela Argentina que era até certo ponto
ignorada em 1989 se converteu em um país admirado por seu
desenvolvimento.
Veja O senhor sente-se mais isolado longe do poder?
Menem
Fala-se da solidão de quem está na chefia do governo.
Eu jamais a senti. Só se sente sozinho quem não
sabe exercer o poder. Quando deixei o governo tratei de viver
plenamente e continuei não me sentindo só. Eu amo
a vida, gosto de ler, de estudar, de dar conferências, de
participar de seminários. É o que tenho feito ultimamente.
Veja O senhor acha que os argentinos aceitam bem
o fato de estar namorando uma mulher que tem a metade de sua idade,
como a Cecilia Bolocco?
Menem
Não há diferença de idade entre nós,
porque uma pessoa tem a idade do ser que ama. Então tenho
35 anos. A idade não tem nada a ver nas coisas do amor...
Veja O que Cecilia mudou em sua vida?
Menem
Amar
sempre é bom, amar uma boa pessoa, melhor ainda. Aumentou
minha vontade de viver. Essa relação é boa
para os dois.
Veja Muitos argentinos criticam o namoro espalhafatoso
do filho do presidente, Antonio de la Rúa, com a cantora
colombiana Shakira. O que o senhor acha?
Menem
Não tem nada a ver. Ele é filho do presidente, mas
não governa. Um garoto de 25 anos não pode ter uma
namorada? O que querem? É um absurdo.
Veja Como vê o crescimento da esquerda no Brasil
nas últimas eleições municipais?
Menem
Aqui na Argentina aconteceu mais ou menos a mesma coisa com a
vitória da Aliança. O Frepaso é um partido
de esquerda que se uniu ao Partido Radical, de centro, para triunfar
em 1997 e 1999. Mas o povo já se está desiludindo
com eles, os índices de popularidade do governo são
terríveis. É o que acontece nos países em
que a esquerda governa.
Veja O senhor acha que a esquerda pode chegar ao
governo no Brasil?
Menem
Espero que não. O Brasil tem um grande presidente. Eu apoiei
a reeleição do Fernando Henrique Cardoso, porque
era o que tinha melhores condições. Ele cumpriu
uma missão muito importante. O Brasil ainda tem problemas,
mas que país não os tem? Se nem os Estados Unidos
sabem quem vai ser o próximo presidente, depois de quinze
dias das eleições...
Veja Que modelo a Argentina deve seguir para se desenvolver?
Menem
A
Argentina deveria acentuar sua presença no setor de serviços,
por onde passam dois terços da economia mundial. Mas não
é só isso. Em 2030, a população mundial
será de 12 bilhões de habitantes. Todos terão
de comer. A Argentina pode ser um grande produtor de alimentos.
Estamos em condições de aumentar nossa fronteira
agrícola em mais 10 milhões de hectares de área
cultivável. Isso teria um efeito muito positivo.
Veja Por que os argentinos andam tão pessimistas?
Menem
Porque
este governo não cria esperanças. Fez o povo perder
a fé. Emite diariamente mensagens apocalípticas.
Assim não se pode governar. Eu dizia "estamos mal, mas
vamos bem". Tinha alegria na forma de governar, agora tudo é
triste.
Veja Nas relações entre Argentina e
Brasil vai prevalecer a rivalidade do futebol ou a colaboração
de parceiros do Mercosul?
Menem
Tirando o futebol, os dois povos são muito amistosos. A
maneira de pensar, a filosofia de vida é mais ou menos
a mesma. Na superfície, os brasileiros têm um ritmo
muito alegre, e nós estamos mais de acordo com o tango,
uma música belíssima, mas cheia de nostalgia e tristeza.
No fundo, não temos diferenças radicais. Com exceção
do futebol.
Saiba
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