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Gustavo Franco

Os republicanos e
o protecionismo

"A defesa do meio ambiente e a repressão ao trabalho
infantil são meritórios. Mas o uso dessas causas para fins protecionistas é uma hipocrisia"

Ilustração Ale Setti


Uma interpretação simples para o virtual e surpreendente empate entre Bush e Gore é a indiferença. Afinal, menos da metade dos americanos nem sequer se apresentou para votar, e mais uma vez ficou patente a falta de nitidez quanto à personalidade dos candidatos e de seus partidos. Note-se que o fenômeno não é apenas americano, pois também na Europa já se diz a mesma coisa sobre oposição e situação, especialmente depois das expectativas frustradas pelo que, tempos atrás, foi chamado de "onda rosa" ou "terceira via".

Mas, a despeito da convergência sobre grandes temas, existem algumas importantes diferenças entre democratas e republicanos que podem nos afetar de forma muito concreta. No plano comercial, por exemplo, deve ficar claro que os republicanos são bem mais genuinamente liberais que seus adversários. Na verdade, temos aí uma pista para explicar o aparentemente paradoxal "insucesso" democrata em eleger facilmente Al Gore, como bem apontou Sérgio Abranches, meu sócio neste espaço, na semana passada. A teoria é simples: os democratas não se tornaram proprietários do portentoso desempenho da economia porque os americanos entenderam que as razões do sucesso são políticas de governo, ou melhor, "não-políticas" caracteristicamente republicanas. Assim sendo, e paradoxalmente, George Bush pode ser visto como alguém tão comprometido com "isso que aí está" quanto o próprio Al Gore.

Porém, se para as grandes linhas da economia nada deve mudar numa administração republicana, em algumas questões atinentes ao Brasil podemos ter novidades. No plano comercial, por exemplo, o leitor talvez já tenha ouvido de um exportador brasileiro, ou do ministro Pratini de Moraes, que é nesse terreno que os americanos menos praticam aquilo que pregam. Os democratas sempre foram muito mais protecionistas que os republicanos, e tem sido interessante a ginástica deles para justificar alguns absurdos perpetrados contra as exportações brasileiras.

O fenômeno curioso a apontar, nesse domínio, é que o protecionismo americano foi buscar no "politicamente correto" um conjunto de pretextos para recobrar uma legitimidade que perdeu diante da própria opinião pública americana. Assim sendo, de uns tempos para cá, começaram a proliferar alegações de que tal produto de determinado país deve ser gravado por uma sobretaxa por ter sido feito mediante degradação do meio ambiente ou fabricado conforme "padrões trabalhistas", ou de saúde pública, inferiores aos aceitáveis. A celulose brasileira, por exemplo, pode não obter um "selo ambiental" emitido por uma ONG financiada pelos produtores americanos. É possível ocorrer o mesmo com produtos de uma cooperativa nordestina que, na ausência de um mecanismo de "certificação" não inteiramente imparcial, acabam tendo o tratamento destinado às mercadorias feitas por meio do trabalho infantil.

Além das restrições alfandegárias, no entanto, existe o patrulhamento sobre o consumidor. Na loja de uma grande universidade da Califórnia, por exemplo, as camisetas trazem uma etiqueta onde se lê "social awearness", que se pronuncia da mesma forma que "social awareness", consciência social. "Wear" significa usar (uma roupa), e "awearness" é um neologismo muito bem urdido. Embaixo do título pode-se ler o seguinte: "Esta roupa foi feita nos EUA numa fábrica que, pelo menos quatro vezes a cada ano, foi aleatoriamente auditada por um consultor independente a fim de assegurar a completa obediência aos códigos de trabalho e saúde dos EUA". Pergunta: o que faria um consumidor californiano, politicamente correto até a medula, se visse uma peça parecida ao lado por preço inferior, mas com uma etiquetinha "made in Brazil" sem nenhum desses "enfeites"?

O uso da diplomacia, e mesmo da política comercial, para a defesa do meio ambiente ou para a repressão ao trabalho infantil é altamente meritório. Mas o uso dessas causas para fins protecionistas é uma hipocrisia que teve seu momento de glória nos protestos de Seattle e a que os republicanos, felizmente, não deverão dar continuidade.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)

 

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