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Fernando
Henrique desfila com Clinton ao som da banda Didá |
| Foto: Ricardo Stuckert |
Na definição,
nascida imortal, do cantor Jamelão, ao visitar a Vila
Olímpica da Mangueira, jogar futebol, ser agarrado pelas
meninas, tocar tamborim e todas as outras cenas de
cativante populismo protagonizadas por Bill Clinton no
Rio de Janeiro, o presidente americano estava "feliz
como pinto no lixo". Enquanto isso, em Brasília,
autoridades arrulhavam alegres como tucano em cima do
muro. Tomando o cuidado de não cantar de galo, e
encerram-se aqui as metáforas ornitológicas,
funcionários do governo e empresários apressaram-se em
fazer uma avaliação vitoriosa da visita. Não foi bem
assim. A realidade da visita mostra que o Brasil avançou
alguns lances na contenda comercial com os Estados Unidos
e melhorou sua posição no campeonato, mas nada que
justifique fogos de artifício. Apesar dos afagos
clintonianos ao ego nacional, a implantação da Área de
Livre Comércio das Américas, a Alca, a pedra no sapato
das relações bilaterais, continua marcada, o mais
tardar, para 2005, embora o governo brasileiro diga que
quer empurrar a coisa para bem mais adiante. O próximo
lance desse jogo
a definição de como e
quando a Alca começa para valer
ocorrerá dentro de cinco meses, em uma reunião de
chefes de Estado das Américas em Santiago, no Chile.
As manifestações positivas do presidente americano foram três: ele disse pela primeira vez que os Estados Unidos apóiam o Mercosul, mostrou certa disposição de rever as barreiras impostas a produtos brasileiros e ouviu calado, pelo menos em público, que o Brasil precisa de maior prazo para entrar na Alca. O objetivo de sabotar o Mercosul nunca foi oficialmente expresso pelos Estados Unidos, mas, nos bastidores, diplomatas e negociadores comerciais americanos mostram os dentes. O Brasil quer mais tempo para preparar a economia para enfrentar o gigantismo americano, com receio de que a abertura total aos produtos e serviços dos Estados Unidos provoque quebradeira e desemprego, se houver a área continental de livre comércio, mas o presidente Fernando Henrique Cardoso aceitou em princípio o calendário defendido por Clinton.
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Talento de comunicador na Mangueira em dia feito para tomar banho de povo: gol no canto, fotos com a criançada, brincadeiras com tamborim e desavença com um vira-lata chamado Leão |
| Fotos: Oscar Cabral |
"Estamos
de acordo"
O toma lá, dá cá aconteceu
quando os dois presidentes se sentaram à mesa com quatro
assessores de cada lado, na manhã de terça-feira, no
Palácio do Planalto. Acompanhavam o presidente americano
a secretária de Estado, Madeleine Albright, o assessor
especial, Thomas McLarty, o presidente do Conselho de
Segurança Nacional, Samuel Berger, e o embaixador Melvyn
Levitsky. Do lado brasileiro estavam o embaixador Gelson
Fonseca, encarregado de tomar anotações, o embaixador
em Washington, Paulo Tarso Flecha de Lima, o secretário
de Assuntos Estratégicos, Ronaldo Sardenberg, e o
ministro Luiz Felipe Lampreia, das Relações Exteriores.
Nem chegaram a abrir a reunião e Fernando Henrique se
levantou, propondo que ele e Clinton conversassem antes a
sós. Retiraram-se para o gabinete de FHC e ali ficaram
durante 25 minutos. Por iniciativa de Clinton, falaram de
ecologia e sobre a emissão de gás carbônico na
atmosfera, um tema quente no momento nos Estados Unidos,
mas centraram a conversa em temas econômicos:
O
que você acha do Mercosul?
perguntou Clinton.
O
Mercosul representa o desenvolvimento de uma estratégia
de abertura da nossa economia, mas também é uma
ligação cultural e política com os países da América
do Sul. Não podemos abrir mão dele
respondeu Fernando Henrique.
Mas nós não queremos a extinção do Mercosul nem do
Nafta. Eu apóio o Mercosul.
Eu gostaria que você dissesse isso lá fora.
Como assim?
Na entrevista coletiva, agora, no Palácio da Alvorada.
O.k. Eu vou falar
concordou Clinton.
Reconhecemos a importância dos blocos. O que queremos é
avançar nas negociações para a formação da Alca.
Mas não podemos avançar tanto agora. Nossas indústrias
não agüentariam a competição.
O
que eu gostaria é de pôr um acordo em marcha na
reunião de Santiago
disse Clinton,
referindo-se ao encontro de março do ano que vem, no
Chile, com os 34 países do hemisfério, exceto Cuba.
Nesse ponto, estamos de acordo
disse Fernando Henrique.
À tarde, na coletiva no Palácio da Alvorada, Clinton cumpriu a promessa. Expressou, pela primeira vez, apoio ao Mercosul. O apoio explícito ao Mercosul foi a declaração mais festejada no Itamaraty. "Foi uma mudança de posição muito significativa. É o ponto mais importante da viagem", afirma Lampreia. O chanceler ainda tem bem viva na memória a iniciativa tomada no encontro interamericano de maio passado por Charlene Barshefsky, a presunçosa chefe da divisão de comércio exterior do governo americano, que chamou o Mercosul de "mercadozinho" regional que poderia ficar no caminho dos interesses dos Estados Unidos. A sós, com o chanceler brasileiro, e depois com o argentino, ela sugeriu que ficasse claro no documento conjunto da reunião que, a partir da implantação da Alca, deixariam de valer todos os outros acordos comerciais vigentes. Não colou, mas assustou.
Arrulhos
Na mesma conversa a sós no Palácio do Planalto,
Fernando Henrique falou sobre as barreiras que atrapalham
a entrada de produtos brasileiros no mercado americano.
Desde a nossa conversa em Washington, em 1995, não houve
nenhum avanço
reclamou o presidente
brasileiro.
Isso não é razoável.
Entendo o seu ponto de vista. Mas essas questões têm a
ver com regulamentos, leis, com indústrias e empregos
americanos. Passam até pelo Congresso. Mas eu garanto
que vamos estudar esse ponto e ver quais barreiras podem
ser revistas.
Mais arrulhos de satisfação do lado brasileiro. Na interpretação do Itamaraty, as poucas frases de Clinton indicam que se podem esperar novidades quando chegar o prazo de revisão, por parte do governo americano, dos processos que penalizam cada produto brasileiro afetado. Estima-se que sem as barreiras, todas impostas para proteger produtores locais, o Brasil poderia estar vendendo mais 3 bilhões de dólares por ano aos Estados Unidos. Revertê-las é uma decisão que não depende inteiramente da boa vontade do presidente. Ele precisa lidar com uma máquina administrativa complexa que dispõe de autonomia de decisão e reage em função dos interesses econômicos locais, muitas vezes pouco ligando para a estratégia global da superpotência. De qualquer forma, os exportadores brasileiros já estavam de calculadora na mão. Pela avaliação de Marcus Vinicius Pratini de Moraes, da Associação de Comércio Exterior do Brasil, alguns produtos, como aço, ferroligas e têxteis, podem ter as barreiras derrubadas em breve. No caso do aço, cuja revisão começa em dezembro, se isso não acontecer o governo brasileiro planeja engrossar o caldo. "Eu já disse com todas as letras a eles: se não fizerem isso, nós vamos entrar com um processo na Organização Mundial de Comércio", afirma Lampreia. A OMC é o foro onde países costumam resolver pendengas comerciais particularmente difíceis.
Na avaliação do
governo brasileiro, Clinton entendeu e aceitou a
possibilidade de uma flexibilização de prazos de
implantação da Alca
embora sempre nas reuniões a portas fechadas, o que é
um mau sinal. Fernando Henrique estava tão satisfeito
depois da primeira conversa particular, em seguida ao
jantar de segunda-feira passada no Palácio da Alvorada,
que ofereceu champanhe aos convidados remanescentes,
quando o casal Clinton já tinha ido embora. "Foi
uma conversa muito positiva, mas não vamos cantar
vitória ainda", disse o presidente.
Persiste, porém, o fato de que ele se comprometeu mais ainda com a Alca, um projeto deslanchado em 1994 e que, quanto mais próximo fica, mais desperta ansiedades. Entre estas existe a possibilidade de que, no final da linha, seja incompatível com o Mercosul, por mais que Brasil e Argentina apresentem, no momento, uma estratégia conjunta, como assegurou o presidente Carlos Menem na escala seguinte da viagem de Clinton. "De certa maneira, seria melhor se não nos tivéssemos amarrado a esse compromisso naquela época", reconhece um experiente embaixador brasileiro. "Os Estados Unidos estavam atrás de um projeto político, e não econômico, de integração das Américas. Os países menores ficaram intimidados, o México já estava dentro do Nafta, a Argentina alimentava a ilusão de participar dele e o Brasil passava por um momento de transição. O melhor seria a Alca para 2020, por exemplo."
Chute fraco
Agora, o Mercosul se aferra a uma estratégia de
adiamento da Alca, enquanto procura fortalecer-se e
aumentar seu poder de barganha na negociação. Apesar
das declarações públicas de Clinton, os Estados Unidos
querem avanços significativos até o ano 2000, quando o
atual presidente já estará fazendo as malas para deixar
a Casa Branca e seu sucessor precisará conseguir do
Congresso uma nova autorização
a
primeira ainda nem saiu
para negociar um acordo que os parlamentares americanos
se comprometem a aceitar por inteiro, sem emendas, ou
rejeitar, o chamado processo de "via expressa".
Foi para vender à opinião pública americana as
virtudes dessa autorização, em particular, e da Alca,
em geral, que Clinton tanto elogiou a performance dos
países visitados na América do Sul.
Assim que receber o sinal verde do Congresso, pode-se ter certeza de que o governo americano vai atacar o projeto Alca com força redobrada. O temor do Brasil é que os Estados Unidos tentem emplacar uma implantação parcial da Alca passando por cima, no processo, das barreiras contra os produtos brasileiros. Outro ponto fraco é a inserção de cláusulas trabalhistas na discussão do mercado livre continental. O governo brasileiro teme que, por trás disso, esteja mais uma justificativa para manter as barreiras. O jogo, como se vê, está apenas começando. Não se verá, nele, nada parecido com a condescendência exibida pelo jovem Reinaldo Alves de Paiva, convocado a atuar como goleiro na extraordinária trinca que colocava, do outro lado, Pelé e o presidente americano, durante a visita à Vila Olímpica da Mangueira. "Ele deu um chute fraco e eu deixei a bola entrar de propósito", alega o meia-direita do time de juniores do São Cristovão, conhecido como Bartolo. "Não ia estragar a festa, não é?" Foi na Mangueira que Clinton se permitiu um banho de povo, literalmente, graças à quantidade de gente e ao calor, e até um gesto inteiramente fora do programa. Na saída, ele mandou parar o carro e tentou visitar a casa 10 da Rua Santos Mello. A visita-surpresa do presidente americano a uma família brasileira deparou com a resistência do vira-lata "Leão", que rosnou para Clinton. O homem virou as costas e foi embora.
Foi a manifestação mais radical de hostilidade na passagem de Clinton pelo Brasil. Na Argentina, ao contrário, um inesperado e violento quebra-quebra promovido por grupos de ultra-esquerda convulsionou o centro de Buenos Aires com uma virulência como há um bom tempo não se via. Era um protesto contra o presidente americano e o argentino, cuja falta de pudor nas relações com os Estados Unidos ofende brios portenhos. A desenvoltura do governo argentino nesse campo foi ressaltada pelo chanceler Guido Di Tella, aquele mesmo das "relações carnais" com os Estados Unidos . "Tudo o que for bom para o Brasil será bom para a Argentina", declarou o chanceler, ao garantir que a Argentina não ficou enciumada com os afagos de Clinton nos brasileiros. "Mas que nos dêem alguns regalitos." A palavra significa presentinhos.
Tempo quente no Alvorada
Nem
Mercosul nem Alca. A unanimidade mais taxativa na
recepção no Itamaraty e, depois, no jantar
íntimo oferecido no Palácio da Alvorada ao
casal Clinton foi decretada em torno dos trajes
das primeiras-damas. Hillary ganhou de goleada. O
tailleur de xantungue amarelo-canário, do
estilista Oscar de la Renta, tinha uma cor de
poderosa perua e a virtude mais almejada pelas
mulheres sem corpo de modelo Não se pode esperar figurinos uniformes em recepções que reúnem convidados tão heterogêneos. Num conjunto de casaco e calça de veludo molhado roxo, blusa de babado que deixava o umbigo à mostra e sapatos de bruxa, com as pontas viradas para cima, a roqueira Rita Lee estava obviamente vestida de Rita Lee. O tomara-que-caia preto de Sônia Braga estaria melhor nos tempos de Gabriela e a blusa de organza marrom, associada a um grande laço e certa liberalidade nos drinques, poderia ter provocado um desastre à la Isadora Duncan. No Itamaraty, a mulher do deputado Affonso Camargo, Nadir, combinou zebra e onça em uma mesma roupa, mais acessórios tricolores. Os saltos agulha, uma forma de tortura que está voltando a toda para atormentar os pés femininos, revelaram-se um problema quando os 85 convidados saíram ao gramado do Alvorada para assistir ao show da banda Didá e da cantora Virginia Rodrigues. A mulher do chanceler Luiz Felipe Lampreia, Lenir, quase arruinou seu espetacular par de escarpins vermelhos. Cheiros
e sabores
O calor de lascar ajudou a propagar o delírio olfativo. Flora, mulher de Gilberto Gil, encontrou Hillary Clinton no banheiro retocando a maquilagem. "Está muito calor nesta cidade, é sempre assim?", quis saber a primeira-dama americana. Nascida no gélido Estado de Illinois, mesmo com muitos anos de Little Rock e Washington, lugares onde dá para fritar ovo na calçada durante o verão, ela ainda estranha a canícula. A combinação de calor, música baiana, figurinos tropicalistas e preocupações esotéricas da segurança americana (foi preciso convocar um especialista para convencer os guarda-costas da índole pacífica das emas que vivem soltas no Alvorada) não conseguiu arruinar a noitada. O maior escorregão em matéria de estilo foi provocado pela mesma segurança, aconteceu em São Paulo e pouca gente viu. Para tapar a visão de um eventual candidato a Lee Oswald na chegada de Clinton ao Memorial da América Latina, os guarda-costas improvisaram uma cortina de plástico azul, fechada antes que ele descesse do carro blindado. Ver o presidente dos Estados Unidos protegido por uma cortina de boxe cria uma imagem que chega a ser constrangedora. Daniela Pinheiro |
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Com
reportagem de Izalco Sardenberg, de São Paulo,
e Marcelo Camacho, do Rio de Janeiro
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S.A. |