Livros
Viagem ao lugar-comum
Há trinta semanas
na lista dos mais vendidos, Comer, Rezar, Amar, de
Elizabeth Gilbert, narra a jornada gastronômico-espiritual-sexual
da autora por três países ou por três
simpáticos estereótipos

Jerônimo Teixeira
Peter
Adams/Getty Images
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| ItTÁLIA
"Bel far niente
significa a beleza de não fazer nada.
Essa é uma expressão ótima. Sempre
foi um ideal prezado pelos italianos" |
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O italiano é
um tipão despreocupado e espontâneo, que cultiva
os prazeres da mesa. O indiano é um guru em potencial,
superior aos fatos comezinhos do plano terreno. O americano
consegue o milagre de ser o perfeito oposto do italiano e
do indiano ao mesmo tempo: sempre correndo atrás de
dinheiro e sucesso, é um materialista sem tempo para
os prazeres materiais. O leitor dirá que esses são
estereótipos rasteiros, e a jornalista americana Elizabeth
Gilbert, 39 anos, não discordaria. "Mas existe
um fundo de verdade nos estereótipos", diz a autora
do best-seller Comer, Rezar, Amar (tradução
de Fernanda Abreu; Objetiva; 344 páginas; 39,90 reais),
que já vendeu 4 milhões de exemplares no mundo
todo (100 000 deles no Brasil) e chega nesta semana à
trigésima aparição na lista dos mais
vendidos de VEJA, em primeiro lugar na categoria não-ficção.
O livro relata a jornada gastronômico-espiritual-sexual
que a autora empreendeu, em 2003, por três países:
Itália, Índia e Indonésia. Em cada um
desses lugares, Elizabeth busca e encontra uma
idéia pronta: a Itália é a terra do prazer;
a Índia, a pátria da meditação;
e a Indonésia (ou, mais especificamente, a Ilha de
Bali), um paraíso de equilíbrio. No meio do
caminho, sobram alguns lugares-comuns para o Brasil
em Bali, Elizabeth vai redescobrir o amor com um representante
desse povo sensual e brejeiro. O curioso é que Comer,
Rezar, Amar repisa esses estereótipos sem convertê-los
em preconceitos odiosos ou reducionistas. São todos
expressões da imensa simpatia de Elizabeth, a mais
generosa das turistas.
Luca
Tettoni/Corbis/Latin Stock
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| ÍNDIA
"Você vai precisar de um guia em sua jornada.
Se tiver sorte, encontrará um guru. É isso
que os peregrinos têm vindo buscar na índia
há séculos" |
Falando com VEJA
por telefone de sua casa em Nova Jersey, onde hoje mora com
José, o maridão brasileiro (chamado de Felipe
no livro), a autora concede que existam americanos descontraídos
e italianos estressados. Mas, argumenta ela, o que dá
caráter a uma cultura é a quantidade de "energia"
que ela devota a diferentes atividades. "Será
difícil encontrar outro povo que devote tanta energia
à busca do prazer quanto o italiano", diz a autora.
E acrescenta, rindo: "Talvez o brasileiro". A jornalista
embarcou na sua viagem de um ano depois de um divórcio
doloroso e estava disposta a manter-se afastada dos homens
durante todo o período. Os prazeres da Itália,
portanto, se restringiram à mesa e ao aprendizado
da língua, que encantou a aluna. "Meu marido já
tentou me ensinar português, mas acho as duas línguas
muito parecidas. Tenho a impressão de que perco meu
italiano quando estudo português", diz Elizabeth.
A temporada indiana
foi integralmente passada em um ashram um retiro espiritual
(resistir aos mosquitos indianos enquanto meditava é
uma das provações espirituais narradas no livro).
Em Bali, afinal, aparece o brasileiro José, aliás,
Felipe. Também ele vinha de um divórcio
tem filhos na Austrália. Importava pedras preciosas
brasileiras para trabalhá-las com artesãos indonésios
(e hoje, nos Estados Unidos, segue comercializando esculturas,
móveis, trecos balineses em geral, agora em sociedade
com Elizabeth, em uma loja chamada Two Buttons). Não
foi exatamente a primeira escolha da turista americana quando
pensou em abdicar de seu voto de um ano de castidade. Ela
chegou a paquerar um galês. Mas Felipe, aliás,
José, acabou levando a melhor com suas cantadas originais.
No livro, por exemplo, ele aparece alojando o rosto sob o
braço de Elizabeth para depois declarar que gostava
do seu "fedorzinho maravilhoso". É nesta
mesma noite que ele a leva para a cama.
The Image Bank/Getty Images
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BALI "Cada
balinês conhece o seu lugar. Os balineses são
os campeões mundiais do equilíbrio. A
manutenção do equilíbrio é
uma arte, uma ciência"
Trechos de
Comer, Rezar, Amar
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Como vai expresso
no verbo do meio, Comer, Rezar, Amar é uma história
de descoberta espiritual. Elizabeth, porém, afirma
que a viagem não é necessária para chegar
lá. "Se eu fosse mais disciplinada, poderia ter
feito as mesmas descobertas na minha sala de estar",
diz. Os temas místicos são tratados com uma
sem-cerimônia cativante onde mais se encontraria
uma relação entre mosquitos e meditação
transcendental? A seção sobre a Índia,
porém, interessará menos aos que lêem
o livro pelos seus aspectos, digamos, turísticos. Aviso
aos céticos: Elizabeth é mística praticante,
com certo colorido riponga. É uma espiritualidade sob
medida para a eclética apresentadora Oprah Winfrey,
que ajudou a catapultar o livro para as listas de best-sellers
ao entrevistar a autora em seu programa. Resenhas na imprensa
americana já alinharam Comer, Rezar, Amar à
chamada Nova Era, o saco de gatos esotérico que mistura
de tudo um pouco (e só um pouco de tudo), de bruxaria
a budismo. "A princípio, eu resisti a esse rótulo.
Acho a Nova Era uma coisa meio preguiçosa, um movimento
sem rigor nas coisas que persegue", diz Elizabeth. Mas
ela acaba admitindo que, se tem de ser classificada em algum
escaninho, a Nova Era é inescapável. "A
gente sempre esperneia para escapar aos rótulos. Mas
a verdade é que alguns rótulos nos definem muito
bem", diz Elizabeth, mais uma vez expressando sua fé
nos estereótipos.
Deborah
Lopez
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TURISTA DA NOVA ERA
A jornalista americana Elizabeth Gilbert: meditação
transcendental entre os mosquitos da Índia |
O estereótipo do americano não chega a comparecer
no livro. Mas Elizabeth diz tê-lo visto em uma rua de
Nova York, pouco tempo depois de ter voltado da sua viagem.
O sujeito fazia quatro coisas ao mesmo tempo: passeava com
o cachorro, falava ao celular, lia um jornal e comia um sanduíche.
"Seria demais exigir que ele fizesse uma refeição
italiana, com vários pratos", diz. "Mas tive
vontade de pedir que ele ao menos mastigasse o sanduíche."
Elizabeth parece ter aprendido a fazer uma coisa de cada vez.
No momento, deixou em suspenso o trabalho em seu próximo
livro e está engajadíssima na campanha presidencial
de Barack Obama.