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Edição 2083

22 de outubro de 2008
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Cinema
Fatwa à moda napolitana

Como a Camorra ameaça a vida de um
jornalista que a denunciou em livro e filme

O RELÓGIO CORRE
Saviano, com sua escolta: ele anunciou que vai deixar
de viver na Itália

Há dois anos, desde que publicou o best-seller Gomorra, sobre as atividades e a brutalidade espantosa do crime organizado napolitano, o jornalista Roberto Saviano vive um cotidiano angustiante. Seu paradeiro é mantido em sigilo; uma escolta policial o protege 24 horas por dia; aos 29 anos, ele não pode sair para beber uma cerveja ou conhecer uma garota; não pode, ainda, sair à rua e pesquisar qualquer assunto que seja – não pode, portanto, escrever novos textos. Na semana passada, Saviano cansou-se dessa briga aflitiva. "Vou-me embora da Itália, pelo menos por algum tempo. Quero ter uma vida. Depois veremos", disse, em um anúncio que causou consternação por constituir um ponto para o adversário. O adversário é a Camorra, a facção criminosa que domina Nápoles (daí o trocadilho sonoro do título com a cidade que, no Velho Testamento, simboliza toda corrupção e degradação) e que decretou a sentença de morte que obriga Saviano a viver dessa maneira. Nos últimos meses, a situação se agravou ao insuportável. Gomorra – que já foi traduzido para mais de quarenta idiomas e no início do ano deve ganhar edição aqui pela Bertrand Brasil – virou um filme que tem causado rebuliço em festivais e mostras ao redor do mundo (ele será exibido também na Mostra de São Paulo, já em progresso). Segundo a polícia italiana apurou, a Camorra decidiu que, por causa da popularidade ampliada do relato, a fatwa terá de ser cumprida até o Natal.

A Camorra napolitana não se distingue da máfia siciliana apenas por uma contingência geográfica. Como esta, vive de extorsão, narcotráfico, prostituição e lavagem de dinheiro. Ao contrário de sua similar mais célebre, porém, a Camorra abandonou qualquer pretensão a supostos códigos internos de honra: pratica apenas a bandidagem mais pura e sórdida, e sua única tradição é a da violência indiscriminada. Recentemente, lançou a Itália na instabilidade com os protestos provocados pelo assassinato de seis imigrantes ilegais africanos (contingente que a facção tem grande facilidade em recrutar). Na década de 90, a Itália obteve vitórias decisivas contra a máfia siciliana e a corrupção governamental por meio da Operação Mãos Limpas. Se agora não encontrar meios de extirpar o crime organizado napolitano com a mesma determinação, o país não será inseguro só para imigrantes clandestinos ou escritores corajosos, como Saviano – para organizações como a Camorra, todo e qualquer cidadão é um alvo potencial. Basta cruzar sua cada vez mais abrangente esfera de ação.



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