Cinema
Fatwa à moda napolitana
Como a Camorra ameaça
a vida de um
jornalista que a denunciou em livro e filme
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O RELÓGIO CORRE
Saviano, com sua escolta:
ele anunciou que vai deixar
de viver na Itália
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Há dois anos,
desde que publicou o best-seller Gomorra, sobre as
atividades e a brutalidade espantosa do crime organizado napolitano,
o jornalista Roberto Saviano vive um cotidiano angustiante.
Seu paradeiro é mantido em sigilo; uma escolta policial
o protege 24 horas por dia; aos 29 anos, ele não pode
sair para beber uma cerveja ou conhecer uma garota; não
pode, ainda, sair à rua e pesquisar qualquer assunto
que seja não pode, portanto, escrever novos
textos. Na semana passada, Saviano cansou-se dessa briga aflitiva.
"Vou-me embora da Itália, pelo menos por algum
tempo. Quero ter uma vida. Depois veremos", disse, em
um anúncio que causou consternação por
constituir um ponto para o adversário. O adversário
é a Camorra, a facção criminosa que domina
Nápoles (daí o trocadilho sonoro do título
com a cidade que, no Velho Testamento, simboliza toda corrupção
e degradação) e que decretou a sentença
de morte que obriga Saviano a viver dessa maneira. Nos últimos
meses, a situação se agravou ao insuportável.
Gomorra que já foi traduzido para mais
de quarenta idiomas e no início do ano deve ganhar
edição aqui pela Bertrand Brasil virou
um filme que tem causado rebuliço em festivais e mostras
ao redor do mundo (ele será exibido também na
Mostra de São Paulo, já em progresso). Segundo
a polícia italiana apurou, a Camorra decidiu que, por
causa da popularidade ampliada do relato, a fatwa terá
de ser cumprida até o Natal.
A Camorra napolitana
não se distingue da máfia siciliana apenas por
uma contingência geográfica. Como esta, vive
de extorsão, narcotráfico, prostituição
e lavagem de dinheiro. Ao contrário de sua similar
mais célebre, porém, a Camorra abandonou qualquer
pretensão a supostos códigos internos de honra:
pratica apenas a bandidagem mais pura e sórdida, e
sua única tradição é a da violência
indiscriminada. Recentemente, lançou a Itália
na instabilidade com os protestos provocados pelo assassinato
de seis imigrantes ilegais africanos (contingente que a facção
tem grande facilidade em recrutar). Na década de 90,
a Itália obteve vitórias decisivas contra a
máfia siciliana e a corrupção governamental
por meio da Operação Mãos Limpas. Se
agora não encontrar meios de extirpar o crime organizado
napolitano com a mesma determinação, o país
não será inseguro só para imigrantes
clandestinos ou escritores corajosos, como Saviano
para organizações como a Camorra, todo e qualquer
cidadão é um alvo potencial. Basta cruzar sua
cada vez mais abrangente esfera de ação.