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Edição 2083

22 de outubro de 2008
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Economia Paul Kennedy
A geopolítica da crise

"A perda de força do dólar é uma tendência de longo prazo que deve se acirrar. No momento, isso não é visível. O dólar se apreciou. Mas a crise financeira deve acentuar a migração de reservas internacionais da moeda americana para outras moedas"

Robert Lisak
O exemplo de Roosevelt
Para Kennedy, a economia tem de ser a prioridade do próximo presidente americano


Vinte anos atrás, o inglês Paul Kennedy causou furor com o livro Ascensão e Queda das Grandes Potências. Depois de estudar a trajetória das nações globalmente dominantes nos últimos 500 anos, ele indagava se os Estados Unidos, superpoder do presente, teriam entrado em declínio. Para Kennedy, a resposta era de certa forma afirmativa. No século XXI, os Estados Unidos deveriam perder uma parte de sua influência. Mas a queda não seria absoluta – apenas um "declínio relativo". Nesta semana, Kennedy, um dos mais respeitados cientistas políticos em atividade, visita o Brasil a convite do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Em entrevista ao editor executivo Carlos Graieb, ele explicou por que acredita que a crise financeira vai fragilizar ainda mais o poderio americano.

O impacto da crise no poderio americano
A crise financeira deve enfraquecer o dólar. Ela deve acentuar a migração de reservas internacionais da moeda americana para outras moedas. No momento isso não é visível. O dólar se apreciou ao redor do mundo, porque muitos americanos estão repatriando o dinheiro investido no exterior. Mas a perda de força do dólar é uma tendência de longo prazo que a crise deve acirrar. Não haverá fuga em massa do dólar, pois um colapso da moeda deixaria o mundo todo em sérias dificuldades. Mas uma parte das reservas internacionais deverá ser feita em outras denominações.

Finanças e armamentos
O orçamento militar tomou contornos sagrados nos Estados Unidos. Os dois partidos prometeram mantê-lo sólido e vistoso, para demonstrar compromisso com as tropas que combatem no Iraque e no Afeganistão. Todos os gastos somados, contudo, o pacote de resgate econômico americano já gira em torno de 1 trilhão de dólares – um valor próximo do orçamento destinado à defesa. Por causa disso, a maioria dos analistas militares acendeu sinais de alerta. Os Estados Unidos se mantêm isolados na ponta na esfera militar, mas uma fração dessa força deve ser minada.

O declínio relativo da grande potência
Aquilo que o comentarista político Charles Krauthammer chamou de "momento unipolar" na história mundial acabou. Esse momento se caracterizou pela total hegemonia americana, logo após a derrocada da União Soviética. Retornamos ao cenário discutido em Ascensão e Queda das Grandes Potências, que publiquei em 1988. É um cenário de declínio relativo dos Estados Unidos. Nos últimos dez anos, surgiram potências que o país não pode intimidar ou mesmo influenciar. É o caso da China e da Índia, e também da nova Rússia de Vladimir Putin. Há duas maneiras de lidar com essas mudanças: a sensata e a desastrada. Quem quer que substitua George W. Bush, que optou pela via desastrada, terá de agir com enorme cautela. A maior tarefa será a estabilização econômica. O novo presidente americano deveria ter em mente a figura de Franklin Delano Roosevelt. Os três primeiros anos de seu mandato, de 1933 a 1935, foram devotados a tirar o país da depressão econômica. Um presidente inteligente vai se concentrar nisso, não tendo em vista apenas a crise financeira atual, mas também a tendência de mais longo prazo de deixar que o país acumule déficits monstruosos.

Alexey Druzhinin/AFP

No mesmo barco
Com a crise, 60% da capitalização da Rússia de Vladimir Putin (acima) se evaporou


A Rússia na ciranda financeira
A crise econômica teve algo de positivo para o Ocidente, que via com apreensão uma Rússia que exercita novamente os seus músculos. Nas últimas semanas, a Bolsa de Valores de Moscou interrompeu o pregão várias vezes. Houve fuga de capitais. Mais de 60% da capitalização do país se evaporou. Além disso, o preço do petróleo está caindo – e a Rússia é imensamente dependente dessa única commodity. Mas não é só isso. Pela primeira vez, desde o começo do século XX, a Rússia tem de se preocupar com o que os bancos europeus e americanos fazem. No tempo de Brejnev, o nível da taxa Libor – que regula os empréstimos interbancários no plano internacional – era a última preocupação dos soviéticos. Eles não estavam envolvidos nesse jogo. Agora, contudo, se bancos não emprestam a outros bancos, o dinheiro não chega aos negócios russos. O país se descobriu interligado ao sistema financeiro internacional – e isso aumentou o poder de barganha do Ocidente.

Cuidado com o que você deseja
Refletir sobre a perda de poder dos Estados Unidos não é o mesmo que ansiar por ela. Cada vez que vejo europeus, por exemplo, com semblante satisfeito por causa de algum fracasso americano, vem-me à mente aquele alerta: cuidado com o que você deseja. Será que realmente desejamos os Estados Unidos feridos, ressentidos, defensivos, protecionistas ou nacionalistas? Não creio. Acho preferível ver os Estados Unidos de volta à tradição mais cooperativa de presidentes como Truman, Eisenhower ou Kennedy. Pensemos, até mesmo, em presidentes como Bush pai, que foi muito sagaz em questões de política externa e soube lidar muito bem com a desintegração da União Soviética, ou em Clinton, afeito ao multilateralismo.

Um fórum internacional
O grau de interligação se tornou imenso. A atividade acontece 24 horas. Nenhuma das instituições internacionais existentes, como o Banco Mundial ou o FMI, pode
lidar com isso. Falta um comitê dos banqueiros centrais das dez ou doze maiores economias do mundo encarregado de lidar de maneira sistemática com as grandes questões financeiras e apto a agir nos momentos de emergência. Não proponho a criação de uma instituição enorme, mas de um comitê com maior força política.

 



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