Economia Paul
Kennedy
A geopolítica da crise
"A
perda de força do dólar é uma tendência de longo prazo
que deve se acirrar. No momento, isso não é visível. O dólar
se apreciou. Mas a crise financeira deve acentuar a migração de
reservas internacionais da moeda americana para outras moedas"
Robert
Lisak
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O
exemplo de Roosevelt Para Kennedy, a
economia tem de ser a prioridade do próximo presidente americano |
Vinte
anos atrás, o inglês Paul Kennedy causou furor com o livro Ascensão
e Queda das Grandes Potências. Depois de estudar a trajetória
das nações globalmente dominantes nos últimos 500 anos, ele
indagava se os Estados Unidos, superpoder do presente, teriam entrado em declínio.
Para Kennedy, a resposta era de certa forma afirmativa. No século XXI,
os Estados Unidos deveriam perder uma parte de sua influência. Mas a queda
não seria absoluta apenas um "declínio relativo".
Nesta semana, Kennedy, um dos mais respeitados cientistas políticos em
atividade, visita o Brasil a convite do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Em
entrevista ao editor executivo Carlos Graieb, ele explicou por que acredita que
a crise financeira vai fragilizar ainda mais o poderio americano.
O
impacto da crise no poderio americano
A crise financeira deve enfraquecer
o dólar. Ela deve acentuar a migração de reservas internacionais
da moeda americana para outras moedas. No momento isso não é visível.
O dólar se apreciou ao redor do mundo, porque muitos americanos estão
repatriando o dinheiro investido no exterior. Mas a perda de força do dólar
é uma tendência de longo prazo que a crise deve acirrar. Não
haverá fuga em massa do dólar, pois um colapso da moeda deixaria
o mundo todo em sérias dificuldades. Mas uma parte das reservas internacionais
deverá ser feita em outras denominações.
Finanças
e armamentos
O orçamento militar tomou contornos sagrados nos Estados
Unidos. Os dois partidos prometeram mantê-lo sólido e vistoso, para
demonstrar compromisso com as tropas que combatem no Iraque e no Afeganistão.
Todos os gastos somados, contudo, o pacote de resgate econômico americano
já gira em torno de 1 trilhão de dólares um valor
próximo do orçamento destinado à defesa. Por causa disso,
a maioria dos analistas militares acendeu sinais de alerta. Os Estados Unidos
se mantêm isolados na ponta na esfera militar, mas uma fração
dessa força deve ser minada.
O
declínio relativo da grande potência
Aquilo que o comentarista
político Charles Krauthammer chamou de "momento unipolar" na
história mundial acabou. Esse momento se caracterizou pela total hegemonia
americana, logo após a derrocada da União Soviética. Retornamos
ao cenário discutido em Ascensão e Queda das Grandes Potências,
que publiquei em 1988. É um cenário de declínio relativo
dos Estados Unidos. Nos últimos dez anos, surgiram potências que
o país não pode intimidar ou mesmo influenciar. É o caso
da China e da Índia, e também da nova Rússia de Vladimir
Putin. Há duas maneiras de lidar com essas mudanças: a sensata e
a desastrada. Quem quer que substitua George W. Bush, que optou pela via desastrada,
terá de agir com enorme cautela. A maior tarefa será a estabilização
econômica. O novo presidente americano deveria ter em mente a figura de
Franklin Delano Roosevelt. Os três primeiros anos de seu mandato, de 1933
a 1935, foram devotados a tirar o país da depressão econômica.
Um presidente inteligente vai se concentrar nisso, não tendo em vista apenas
a crise financeira atual, mas também a tendência de mais longo prazo
de deixar que o país acumule déficits monstruosos.
Alexey
Druzhinin/AFP
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No
mesmo barco Com a crise, 60% da capitalização
da Rússia de Vladimir Putin (acima) se evaporou |
A
Rússia na ciranda financeira
A
crise econômica teve algo de positivo para o Ocidente, que via com apreensão
uma Rússia que exercita novamente os seus músculos. Nas últimas
semanas, a Bolsa de Valores de Moscou interrompeu o pregão várias
vezes. Houve fuga de capitais. Mais de 60% da capitalização do país
se evaporou. Além disso, o preço do petróleo está
caindo e a Rússia é imensamente dependente dessa única
commodity. Mas não é só isso. Pela primeira vez, desde o
começo do século XX, a Rússia tem de se preocupar com o que
os bancos europeus e americanos fazem. No tempo de Brejnev, o nível da
taxa Libor que regula os empréstimos interbancários no plano
internacional era a última preocupação dos soviéticos.
Eles não estavam envolvidos nesse jogo. Agora, contudo, se bancos não
emprestam a outros bancos, o dinheiro não chega aos negócios russos.
O país se descobriu interligado ao sistema financeiro internacional
e isso aumentou o poder de barganha do Ocidente.
Cuidado
com o que você deseja
Refletir sobre a perda de poder dos Estados
Unidos não é o mesmo que ansiar por ela. Cada vez que vejo europeus,
por exemplo, com semblante satisfeito por causa de algum fracasso americano, vem-me
à mente aquele alerta: cuidado com o que você deseja. Será
que realmente desejamos os Estados Unidos feridos, ressentidos, defensivos, protecionistas
ou nacionalistas? Não creio. Acho preferível ver os Estados Unidos
de volta à tradição mais cooperativa de presidentes como
Truman, Eisenhower ou Kennedy. Pensemos, até mesmo, em presidentes como
Bush pai, que foi muito sagaz em questões de política externa e
soube lidar muito bem com a desintegração da União Soviética,
ou em Clinton, afeito ao multilateralismo.
Um
fórum internacional
O grau de interligação se tornou
imenso. A atividade acontece 24 horas. Nenhuma das instituições
internacionais existentes, como o Banco Mundial ou o FMI, pode
lidar com
isso. Falta um comitê dos banqueiros centrais das dez ou doze maiores economias
do mundo encarregado de lidar de maneira sistemática com as grandes questões
financeiras e apto a agir nos momentos de emergência. Não proponho
a criação de uma instituição enorme, mas de um comitê
com maior força política.