Entrevista
Luc Ferry
A família virou sagrada
O
filósofo francês que se tornou best-seller ao
expor suas idéias
de forma simples diz que os
filhos tomaram o lugar da fé e das ideologias
na vida espiritual do homem moderno

Gabriela
Carelli
| Pierre Verdy/AFP
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"No Ocidente, não se
aceita mais morrer por um deus, uma pátria ou uma revolução. Mas não conheço pai
que não arriscaria a vida pela prole" |
O francês Luc Ferry, de 57 anos, é um
caso raro de filósofo que transforma seus livros em best-sellers. Sua obra
Aprender a Viver, lançada em 2006, vendeu 700 000 exemplares,
40 000 deles no Brasil. Seu segredo é combinar formação acadêmica
sólida com um texto leve e bem-humorado. Ferry se alinha com o chamado
humanismo secular. Essa corrente da filosofia propõe o uso da razão
crítica em vez da fé na busca de respostas para os assuntos que
mais intrigam a humanidade, como o amor, a morte e a procura da felicidade. Ferry
também atua na política. Como ministro da Educação
da França de 2002 a 2004, foi o mentor da polêmica lei que baniu
o uso de véu pelas estudantes muçulmanas nas escolas públicas
francesas. Atualmente, ele não ocupa cargo oficial, mas sabe-se que o presidente
francês Nicolas Sarkozy costuma ouvir suas opiniões com atenção.
A nova obra de Ferry, Famílias, Amo Vocês, acaba de chegar
às livrarias brasileiras. Nela, o filósofo defende a idéia
de que a família é a única coisa que resta de sagrado no
mundo. Ferry deu a seguinte entrevista a VEJA.
Em
seu novo livro, Famílias, Amo Vocês, o senhor argumenta que
a família substituiu a religião como entidade sagrada no mundo moderno.
Isso não contradiz a constatação do aumento no número
de fiéis em diversas igrejas de todo o mundo?
Essa corrida para
as igrejas não chega nem perto do que acontece quando o assunto é
família. Pergunte aos milhões desses novos fiéis se eles
morreriam pelo seu deus. A resposta será não. A família é
a única entidade realmente sagrada na sociedade moderna, aquela pela qual
todos nós, ocidentais, aceitaríamos morrer, se preciso. Os únicos
seres pelos quais arriscaríamos a vida no mundo de hoje são aqueles
próximos de nós: a família, os amigos e, em um número
bem menor, pessoas mais distantes que nos causam grande comoção.
No século XX, o ser humano virou sagrado.
O
que o senhor considera sagrado?
Para entender o que é sagrado é
preciso conhecer a história do sacrifício, ou seja, por quais razões
os humanos já aceitaram sacrificar a própria vida. No fundo, esse
é o significado do sagrado: algo pelo qual vale a pena morrer. O homem
abriu mão da vida por três grandes causas através dos tempos:
por Deus, pela pátria e pelas revoluções. Matou e provocou
a morte de milhões de pessoas em guerras religiosas, batalhas nacionalistas
e embates revolucionários. Hoje, no Ocidente, ninguém mais aceita
morrer por um deus, um país ou um ideal. Há, sim, religiosos extremistas
no Islã. Há gente na Chechênia ou na Ossétia disposta
a morrer pela nação. Mas garanto que não há cidadãos
com tais intenções na Alemanha, na França ou nos Estados
Unidos. Em contrapartida, não conheço pai que não arriscaria
a vida por seus filhos. Os filhos se tornaram o principal canal para o homem tentar
transcender espiritualmente. As crianças substituíram as instituições
despedaçadas que citei acima.
Os
pais de antigamente amavam menos seus filhos que os de hoje?
O amor
dos pais pelos filhos é instintivo e descrito desde a Antiguidade em mitos
e lendas. Esse sentimento, porém, estava longe de ser uma prioridade para
os casais. O escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592), celebrado
como grande humanista, confessou não se lembrar do número exato
de filhos seus que morreram enquanto ainda eram amamentados. O filósofo
suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), um dos próceres
do Iluminismo, abandonou seus cinco filhos sem dó nem piedade. Esses exemplos
parecem bizarros, mas temos de lembrar que, até a Idade Média, não
havia sequer o conceito de infância. Foi entre os séculos XVII e
XVIII que a infância passou a ser definida como um período de fragilidade
e ingenuidade, no qual se deve prover as crianças de mimos e carinhos.
O que provocou essas mudanças?
Praticamente todas as relações familiares da sociedade contemporânea
têm origem no casamento por amor, que nasceu com o capitalismo. Antes disso,
o casamento se destinava a atender a uma série de interesses. O sentimento
era o que menos contava. Casava-se para dar continuidade à família,
manter a linhagem e a propriedade. Com o capitalismo e tudo o que é derivado
dele, como o salário e o mercado de trabalho, uma nova ordem se estabeleceu.
As mulheres, antes confinadas em suas casas, foram para as cidades trabalhar na
casa dos burgueses, como empregadas, ou se tornaram operárias nas fábricas.
Essa mulher começou a ganhar o seu dinheiro pouco, mas seu
e a conquistar a independência. Com isso, houve uma grande ruptura. A percepção
a respeito dos filhos e das crianças em geral também sofreu grande
modificação.
A freqüência
com que os casais hoje se divorciam e iniciam novos relacionamentos não
desmonta o argumento de que a família é sagrada?
Essa idéia
não se sustenta nem do ponto de vista histórico nem do filosófico.
Há vários argumentos que desmentem os clichês hoje propagados
sobre o declínio do casamento e o fim da família nuclear. A família
na Idade Média era muito mais dividida do que hoje. Havia muito mais pais
e mães sozinhos cuidando de seus filhos. Por causa da elevada taxa de mortalidade,
as pessoas se casavam mais vezes e tinham mais filhos com outros parceiros. Quem
alardeia o declínio da instituição familiar esquece que o
divórcio foi inventado junto com o casamento por amor. A partir do momento
em que a união entre duas pessoas se ampara apenas na lógica do
sentimento, basta que o amor se apague para que outro amor se imponha. A família
burguesa é aparentemente estável, mas na maioria dos casos está
carcomida por infelicidades. Ela é inseparável de outra instituição:
a infidelidade. Muitas mulheres sacrificam a profissão e, em seguida, a
vida afetiva por um marido que as engana.
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| "Quem
alardeia o declínio da família esquece que o divórcio foi inventado junto com
o casamento por amor. Quando a união se ampara apenas no sentimento, basta que
o amor se apague para que outro amor se imponha" |
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Uma sociedade sem religiões e
sem ideologias, como o senhor a vislumbra, não é contrária
à índole humana?
De jeito nenhum. Muitas religiões
e ideologias fizeram as sociedades e os indivíduos sacrificar-se por ideais
inúteis. O sociólogo alemão Max Weber costumava dizer
que era possível encontrar os valores tradicionais do sacrifício
no código do mar. Segundo esse código, o comandante de um navio
deve morrer com sua embarcação naufragada, mesmo quando os passageiros
e a tripulação se salvam. Para continuar a metáfora, eu diria
que hoje ninguém mais está disposto a morrer pelo casco do navio,
mas somente pelos passageiros que ele abriga. Isso é um grande progresso.
Não tenho nenhuma saudade dos extremistas religiosos ou nacionalistas que
provocaram a morte de 50 milhões de pessoas na II Guerra.
O
senhor argumenta que o amor dá sentido à vida. A busca desenfreada
pelo amor não causa mais sofrimento?
A condição do
homem moderno é mais trágica do que nunca. O casamento por amor
nos condiciona a amar mais e mais. A perda do ser amado tornou-se um luto. Isso
só aumenta o descontentamento do mundo ocidental, no qual o homem se transformou
num ser eternamente insatisfeito.
Então
o senhor concorda com a tese de muitos filósofos contemporâneos de
que o homem nunca foi tão infeliz?
Há um descontentamento
generalizado no mundo moderno. A sociedade se interessa mais pelos meios em si
do que pelos fins. Um olhar sobre o Iluminismo ajuda a compreender esse novo mundo.
As mentes mais brilhantes do século XVIII buscavam nas ciências e
nas artes emancipar a humanidade do obscurantismo da Idade Média. Tudo
era feito com o objetivo de, no fim, alcançar a liberdade e a felicidade.
Hoje, o movimento das sociedades não se inspira em ideais superiores em
termos de civilização. A sociedade se movimenta no sentido de estabelecer
a concorrência acirrada entre todos os indivíduos, sem objetivos
finais claros. A história não se move pela aspiração
a um mundo melhor, mas pela ação mecânica da competição.
O êxito pessoal é o que importa. Precisamos ter poder, dinheiro,
um carro novo, uma mulher nova, os filhos mais bonitos, tudo para conseguir o
reconhecimento alheio e nos sentir superiores aos outros. Como dizia o filósofo
romano Sêneca, enquanto esperamos viver, a vida passa rapidamente.
Dentro dessa perspectiva, a felicidade é
possível?
O filósofo alemão Immanuel Kant tem um ótimo
argumento sobre isso. Se a felicidade fizesse parte da natureza humana, Deus não
nos teria dado a inteligência. Desde sempre o ser humano vive seus conflitos
e tenta gerenciá-los da forma que pode. Hoje, vivemos na era do hiperconsumo.
O que nos dá a sensação de progredir, de ser felizes, pelo
menos momentanea-mente, é comprar, comprar e comprar. Claro que isso não
basta. A lógica contemporânea aumenta a insatisfação
e nos incute medos cotidianos e recorrentes.
Que
medos acometem o homem contemporâneo?
Nós, ocidentais, temos
medo de tudo. Da velocidade, do sexo, do álcool, do tabaco, da carne vermelha,
de frango, da Europa, do efeito estufa, da globalização, das notas
escolares das crianças, e por aí vai. Todo ano se acrescenta um
novo medo aos anteriores. Na época em que era ministro da Educação,
fiquei com medo quando vi jovens franceses que mal tinham saído da universidade
fazendo passeatas em defesa da aposentadoria deles. Em meus anos no governo, nunca
recebi uma delegação sindical que não começasse a
conversa com um "Senhor, estamos muito preocupados". E não há
nenhuma ironia nisso. O medo é uma das paixões dominantes das sociedades
democráticas. Ele não existia dessa forma no Iluminismo. Quando
eu era criança, era feio ter medo. Superá-lo era um dos marcos da
chegada à idade adulta. Hoje, ter medo não implica culpa. É
através do medo que os movimentos ecológicos radicais, por exemplo,
se impõem.
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| "A sociedade
atual não se inspira em ideais superiores em termos de civilização, como no Iluminismo.
O que nos dá a sensação de progredir é comprar, comprar, comprar. Essa lógica
apenas aumenta nossa insatisfação" |
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Como os medos cotidianos prejudicam
a sociedade?
Qualquer ameaça, como o terrorismo, o aquecimento global
ou a gripe aviária, desperta uma neurose global. A angústia que
essa histeria causa individualmente é mais prejudicial do que a ameaça
a que ela se contrapõe. Veja o exemplo do aquecimento global. Aos olhos
das novas ideologias, a natureza é admirável e a ciência,
ameaçadora e maléfica.
Como
ministro da Educação, o senhor foi acusado de racista ao banir o
uso de véu pelas estudantes muçulmanas e de solidéu pelos
judeus nas escolas públicas. O senhor tomaria essa medida novamente?
Certamente.
Em primeiro lugar, essa lei teve a aprovação de 75% dos franceses.
Foi apoiada tanto pela direita quanto pela esquerda, o que é muito raro
na França, uma nação singular. Nela convivem enormes comunidades
judaicas e muçulmanas. Só há mais judeus em Israel e nos
Estados Unidos. Estimamos que existam 5 milhões de muçulmanos no
país. Após o início da segunda intifada, vimos aumentar exponencialmente
os conflitos entre os dois grupos. O mínimo que poderíamos fazer
era deixar nossas crianças fora desse clima de guerra. Não foi uma
medida anti-religiosa, muito menos racista, mas de promoção da paz.
Seu livro anterior, Aprender a Viver, foi
um enorme sucesso mesmo tratando de um assunto que não atrai muitos leitores,
a filosofia. A que o senhor atribui esse êxito?
O ser humano precisa
da filosofia mais do que imagina. A filosofia grega surgiu para ajudar o homem
a superar seus medos e angústias e, assim, encontrar a serenidade. Os gregos
propunham a reflexão como exercício de sabedoria. As principais
correntes filosóficas são, na verdade, grandes doutrinas de salvação,
assim como as religiões. A diferença entre religião e filosofia
é que a primeira tenta encontrar a paz interior e a felicidade através
da fé, enquanto a outra busca o mesmo pela razão, sem a intervenção
de um deus. Mais do que nunca, vivemos num mundo no qual a religião não
é suficiente para dar ao homem as respostas que ele procura.